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Esta pauta venceu a urna de 22/09.
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A abelha que achou Telipinu e piorou a fúria
O deus hitita sumiu com as botas trocadas levando o grão, e a picada mandada para acordá-lo só aumentou a raiva
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A abelha acha Telipinu dormindo em Lihzina
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O deus saiu de casa com a bota direita no pé esquerdo e a esquerda no pé direito. Tinha pressa, e a raiva não deixou que ele reparasse no erro. Atravessou a porta, cruzou o campo e desapareceu.
Atrás dele, a casa se encheu de névoa. A fumaça tomou as janelas, a lenha empilhada na lareira sufocou, e os deuses nos templos sufocaram também. As ovelhas rejeitaram os próprios cordeiros e as vacas deixaram de cuidar dos bezerros.
A cevada e o trigo pararam de crescer. As montanhas secaram, as árvores secaram, e as fontes deixaram de correr. Homens e deuses passaram fome na mesma estação, porque o deus que saiu levava consigo tudo o que fazia a terra dar fruto.
O deus do Sol, que governava o céu, preparou um banquete para mil deuses. Todos comeram e beberam, e ninguém ficou saciado. A comida continuava nos pratos, mas tinha perdido a força de alimentar.
Começou então a busca. Uma águia voou por montanhas altas, vales fundos e águas azuis, e voltou sem achar nada. O próprio pai do desaparecido, o deus da tempestade, foi bater à porta da cidade do filho, quebrou o martelo na tentativa e acabou sentado, cansado, sem resposta.
Foi uma deusa velha, mãe dos deuses, quem sugeriu o mensageiro mais improvável: uma abelha. O deus da tempestade zombou da escolha, dizendo que o inseto era pequeno e tinha asas curtas. A deusa mandou mesmo assim.
A abelha procurou onde a águia falhou e encontrou o fugitivo dormindo num prado, perto de uma cidade chamada Lihzina. Cumpriu a ordem recebida: picou as mãos e os pés dele até que acordasse.
Ele acordou. E acordou pior do que tinha saído. A cura mandada para trazê-lo de volta virou mais um motivo de fúria, e a terra pagou outra vez.
A primeira seção conta quem era esse deus, por que ele saiu, o que a picada provocou e o que finalmente o trouxe para casa.
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I O Mito
As botas trocadas de Telipinu
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A história está no chamado Mito de Telipinu, catalogado como CTH 324 (sigla do Catálogo dos Textos Hititas, organizado por Emmanuel Laroche em 1971). As tábuas de argila foram achadas em Hattusa, a capital hitita, perto da atual Boğazkale, na Turquia, e as cópias que sobraram datam do século XIII antes de Cristo, embora a composição seja mais velha. Esta edição segue a tradução inglesa de Harry A. Hoffner Jr., publicada em Hittite Myths (Mitos Hititas), de 1990.
O protagonista é Telipinu, filho do deus da tempestade e divindade da agricultura, responsável pelo grão, pela fertilidade dos rebanhos e pela fartura. Os hititas ocupavam a Anatólia central, e o culto a ele vinha dos hatitas, o povo que vivia na região antes deles.
O motivo da fúria é o ponto mais frágil do texto. O começo da tábua se partiu, e as linhas que diziam por que Telipinu se irritou se perderam com a argila. Estudiosos propõem uma falha no culto, uma oferenda esquecida ou uma ofensa de outro deus, mas a tábua não confirma nenhuma dessas hipóteses. Esta edição trata o motivo como desconhecido e não inventa um.
O que a tábua preserva é o gesto. Telipinu calçou as botas trocadas e saiu. Levou consigo o grão, a fertilidade dos animais e a fartura para a estepe, para o prado e para o brejo, e se deitou para dormir. O mundo parou de dar fruto porque o deus que o fazia dar fruto tinha ido embora.
Telipinu não destruiu nada com as mãos. Bastou sair para a terra secar.
A busca tem motivos declarados. O deus do Sol mandou a águia porque ela enxerga longe. O deus da tempestade foi pessoalmente porque era o pai. A deusa-mãe Hannahanna mandou a abelha porque, segundo ela, o inseto acharia o que os grandes não achavam, e deu a ordem completa: picar as mãos e os pés do deus, fazê-lo levantar, limpar os olhos e os pés dele com cera e trazê-lo de volta.
"Que a abelha pique as mãos e os pés dele e o faça levantar." Mito de Telipinu, tradução de Harry A. Hoffner Jr., Hittite Myths, 1990 |
A picada acordou Telipinu, mas não o trouxe. O texto diz que ele se enfureceu ainda mais por ter sido despertado à força. Irado, desviou rios, fez as águas transbordarem, derrubou casas e destruiu gente e rebanhos.
Quem resolveu foi Kamrusepa, deusa da magia e da cura. Ela conduziu um ritual: pôs diante dele cedro, figos, azeitonas, uvas e malte, cada um com uma fórmula que pedia que a raiva do deus ficasse doce ou macia como aquele alimento. Depois, a ira de Telipinu foi mandada para a Terra Escura, o mundo dos mortos, e fechada em caldeirões de bronze com tampas de chumbo, atrás de sete portas.
Então ele voltou para casa. A névoa deixou as janelas, as ovelhas aceitaram os cordeiros e o grão cresceu. Diante do deus, ergueram a eya (uma árvore sempre-verde), com um velo de ovelha pendurado, sinal de fartura para o rei e para a terra.
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II O Diagnóstico
A picada que chama de volta
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O núcleo arquetípico é o retraimento tratado com dor: alguém se recolhe, leva consigo o que fazia a casa funcionar, e quem sente falta tenta trazê-lo de volta com picada, cobrança e susto.
O primeiro traço é o sumiço silencioso. Telipinu não brigou com ninguém à vista. Calçou as botas trocadas, sinal de pressa e de cabeça tomada, e foi dormir longe. A raiva dele virou ausência, e a ausência fez mais estrago do que um grito faria.
O segundo traço é que o retraimento tira a força do que continua na mesa. No banquete do Sol havia comida, e ninguém se saciava. Numa casa, numa equipe ou num casamento, as rotinas seguem quando alguém se recolhe: o jantar sai, a reunião acontece, a conversa corre. Falta a sustância.
O terceiro traço é a ordem de busca pelo tamanho. Primeiro a águia, que vê longe; depois o pai, que tem autoridade. Os dois falham. Quem acha é a abelha, pequena e desprezada pelo deus da tempestade. Chegar perto de quem se recolheu raramente depende de força ou de hierarquia; depende de alguém disposto a procurar no prado, fora das rotas óbvias.
O quarto traço é o diagnóstico central: achar e tratar são tarefas diferentes. A abelha achou. Mas a ordem que ela levava era acordar pela dor, e dor em quem já está ferido produz mais fúria. A tábua registra que Telipinu, picado, derrubou casas e alagou campos. O remédio escolhido piorou a doença que devia curar.
O quinto traço é o que funcionou depois. Kamrusepa não picou. Ofereceu doçura, nomeou a raiva e deu a ela um lugar para ficar, os caldeirões de bronze debaixo da terra. A ira não foi negada nem punida; foi guardada.
A tradução para hoje é doméstica. É a mãe que, diante do filho adolescente trancado no quarto, responde com ameaça de tirar o celular. É o gestor que trata o funcionário apagado com advertência formal. É o parceiro que, ao ver o outro distante, cutuca com ironia na frente dos amigos. Todos acharam a pessoa; todos escolheram a picada.
O sinal de alerta é fácil de notar. Pense na última vez em que alguém próximo se afastou e você tentou trazê-lo de volta. Se o primeiro gesto foi cobrança, prazo ou sarcasmo, você mandou a abelha com a ordem errada.
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