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ED 169
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Tâmiris e a aposta que custou o próprio canto

O melhor cantor da Trácia desafiou as Musas, pediu as 9 como prêmio e saiu sem olhos, sem voz e sem cítara

O cantor Tâmiris com a cítara diante das nove Musas

Tâmiris desafia as Musas

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Na estrada que descia da Ecália, um cantor da Trácia levava a cítara (instrumento de cordas, parente grande da lira) presa às costas e uma frase pronta na boca. Tinha tocado em salões de reis e vencido concursos em cidades que mal conhecia. A frase era curta: ninguém no mundo cantava melhor do que ele.

Em Dório, no oeste do Peloponeso, a frase chegou a quem não devia. As Musas, as nove filhas de Zeus que guardavam o canto, a poesia e a memória, ouviram o recado. O cantor dizia que venceria até elas, se elas topassem cantar contra ele. Dório ficava longe dos montes onde elas moravam, e mesmo assim a notícia subiu até lá.

Ele não ficou no elogio a si mesmo. Pôs um prêmio na mesa. Se ganhasse, teria as nove como companheiras de leito. Se perdesse, as deusas tirariam dele o que quisessem.

As deusas aceitaram. A disputa aconteceu, e nenhum texto antigo guardou as canções nem o placar. Guardou só o resultado: ele perdeu.

A cobrança veio em três partes. Primeiro, os olhos. Depois, o canto que os deuses tinham posto na garganta dele. Por último, a memória das mãos: ele esqueceu como se tocava a cítara, o instrumento que carregou a vida inteira.

Sobrou um homem cego, com um instrumento que não sabia mais usar. Séculos depois, um pintor grego o retratou desse jeito numa parede de Delfos, sentado, com a lira quebrada aos pés.

O talento dele era verdadeiro, e os antigos concordam neste ponto. Ninguém desafia as Musas sem ter voz para sustentar o primeiro verso. O erro estava em outro lugar, e a aposta mostra onde.

A próxima parte conta quem era o cantor, quem registrou a disputa, por que as Musas aceitaram o desafio e por que o castigo tirou exatamente aquelas três partes dele.

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I  O Mito

O filho de Filâmon diante das filhas de Zeus

O cantor se chamava Tâmiris, filho de Filâmon, também músico, e da ninfa Argíope, segundo a Biblioteca, um resumo de mitos gregos atribuído a Apolodoro e escrito entre os séculos I e II d.C. Nasceu na Trácia, a região ao norte da Grécia que os gregos tinham como terra de cantores. Orfeu, o mais famoso deles, vinha do mesmo lugar.

O registro mais antigo está na Ilíada, de Homero, poema composto no século VIII a.C. O trecho fica no canto II, na lista dos navios que foram a Troia. Ao citar a cidade de Dório, o poeta para a lista por sete versos e lembra o que aconteceu ali.

"Onde as Musas, encontrando o trácio Tâmiris, fizeram cessar o seu canto; pois ele se gabava de que venceria, mesmo que as próprias Musas cantassem."

Homero, Ilíada, canto II, versos 594 a 597, século VIII a.C.

O motivo do desafio, nas fontes, é a vaidade. Tâmiris era bonito e tocava melhor que qualquer mortal da época, diz Apolodoro. Acreditou que o talento o punha acima de quem o tinha dado. Na tradição grega, o canto do poeta vinha das Musas; desafiar as Musas era disputar com a própria fonte do dom.

O motivo da aposta também está escrito. Apolodoro conta que Tâmiris exigiu, se vencesse, ter relações com as nove. A exigência transformava as deusas em troféu. Se perdesse, aceitava perder o que elas escolhessem.

Por que as deusas aceitaram, nenhum texto antigo explica com todas as letras. Esta edição adota a leitura mais comum da tradição grega: recusar deixaria a frase dele de pé. Um mortal que se diz superior às deusas precisava ser desmentido em público, numa disputa aberta, diante de testemunhas.

O motivo do castigo tem nome grego: hýbris (a desmedida, o mortal que se põe no lugar dos deuses). Os gregos a tratavam como a falta mais grave de um homem diante do céu. Tâmiris cometeu duas vezes: quando disse que venceria e quando pôs as deusas como prêmio.

Tâmiris tinha o talento; o que ele apostou foi o próprio talento, contra quem o tinha emprestado.

O castigo seguiu a lógica da dívida. As Musas tomaram de volta o que tinham dado: a voz divina e a memória da cítara. Os olhos entraram como parte da aposta que ele mesmo aceitou.

As fontes divergem sobre os olhos. Homero usa a palavra pērós, que pode significar mutilado ou incapacitado, sem dizer que parte do corpo. Apolodoro diz que foi a visão. O viajante Pausânias, no século II d.C., registra outra versão: Tâmiris teria ficado cego por doença, e jogou a lira num rio da Messênia que ganhou dali o nome Bálira (de "jogar a lira", em grego). Esta edição segue Homero e Apolodoro.

Pausânias descreve ainda a pintura de Polignoto em Delfos, do século V a.C.: Tâmiris sentado no mundo dos mortos, cego, cabelo longo, com a lira partida aos pés. É a imagem que a Grécia guardou dele.

 
 

II  O Diagnóstico

O talento posto como ficha

O núcleo arquetípico é o dom apostado: alguém com talento real troca o uso do talento pela prova de que é o melhor, e põe o próprio dom como garantia da prova.

O primeiro traço é que o talento existia. Nenhuma fonte diz que Tâmiris cantava mal. A queda dele assusta justamente porque o ponto de partida era bom. A vaidade, aqui, anda com competência de verdade.

O segundo traço é a troca de plateia. Tâmiris tocava para reis e cidades, e a honra dessas plateias bastava para uma vida. Ele quis tocar contra alguém. O canto deixou de servir a quem ouvia e passou a servir a um placar.

O terceiro traço é o prêmio desproporcional. Vencer já seria glória suficiente. Ele pediu as nove deusas. Quem pede demais na aposta revela o que queria desde o começo: dominar, e não cantar.

O quarto traço é esquecer de onde veio o dom. Na visão grega, o poeta abria a boca e as Musas falavam por ele. Tâmiris tratou como propriedade o que era empréstimo.

Aracne cometeu um erro vizinho. Nas Metamorfoses, Ovídio conta que a tecelã desafiou Atena e teceu uma peça sem falha. A diferença pesa: Aracne defendeu a obra; Tâmiris pôs a obra inteira como ficha e pediu as deusas de brinde. Ela perdeu a forma humana. Ele perdeu o próprio ofício.

Platão guardou um destino curioso para ele. No mito de Er, as almas escolhem a próxima vida antes de voltar ao mundo.

"Viu a alma de Tâmiris escolher a vida de um rouxinol."

Platão, A República, livro X, 620a, c. 375 a.C.

Até na próxima vida, Tâmiris escolhe o canto, agora sem plateia para vencer. O rouxinol canta para a noite, sem ninguém do outro lado.

Um leitor da casa resumiu a lição em uma linha: "Talento e humildade pode te levar para o próximo nível." A frase separa as duas partes que Tâmiris juntou numa só.

A tradução para hoje aparece em ambientes de trabalho comuns. É o profissional excelente que só aceita a tarefa se puder provar que é o melhor da sala. É o músico que troca o show pela briga com o colega. É o jovem promissor que pede o cargo do chefe na primeira reunião e perde a indicação que já estava encaminhada.

O sinal de alerta é simples. Quando a conversa sobre o seu trabalho vira conversa sobre quem você pode derrotar, a aposta já está na mesa.

 

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III  A Saída

Cante para quem ouve

1. Separe o dom da disputa. Tâmiris cantava bem antes de desafiar ninguém. Use o seu talento em serviço de quem precisa dele, e deixe o placar de lado.

2. Lembre quem ensinou. Todo talento tem professores, pais, livros e colegas por trás. Diga o nome deles em voz alta pelo menos uma vez por semana.

3. Olhe o tamanho do prêmio. Antes de entrar numa competição, pergunte o que você quer ganhar. Se o prêmio for humilhar o outro, a disputa não vale o risco.

4. Nunca aposte o ofício. Discuta ideias, dispute vagas, perca argumentos. O que você não pode perder, a reputação e a capacidade de trabalhar, fica fora de qualquer aposta.

5. Aceite ser aluno de quem está acima. Tâmiris poderia ter pedido às Musas para aprender. Quem sabe mais que você é fonte, e fonte não se desafia, se frequenta.

Três marcas de quem aprendeu com Tâmiris:

•Um elogio recente que você dividiu com quem ajudou
•Uma disputa que você recusou porque o prêmio era vaidade
•Uma pessoa mais experiente a quem você pediu para ensinar

Vale um contrapeso. Competir não é pecado, e a própria Grécia criou os Jogos Olímpicos e os concursos de teatro. A regra vale para o desafio feito por soberba, com o próprio dom como garantia.

A pergunta da edição é direta: qual talento seu anda sendo usado mais para vencer alguém do que para servir alguém?

O nome de Tâmiris sobreviveu no teatro. Sófocles escreveu uma tragédia chamada Tâmiras, hoje perdida, e a biografia antiga do dramaturgo conta que ele mesmo subiu ao palco para tocar a cítara do personagem. O maior poeta de Atenas emprestou as mãos a um cantor que perdeu as dele.

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, o que as Musas tomaram de Tâmiris depois de vencer a disputa?

AA cítara, a coroa e o nome
BOs olhos, o canto divino e a memória de tocar a cítara
CA voz, a fama e os amigos
DA visão, a fortuna e a família

Resultado da última edição: 2 de 6 acertaram.

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