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Os ovos de Au Co venceu a urna de 27/09. Sai em 01/10.
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Tâmiris e a aposta que custou o próprio canto
O melhor cantor da Trácia desafiou as Musas, pediu as 9 como prêmio e saiu sem olhos, sem voz e sem cítara
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Tâmiris desafia as Musas
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Na estrada que descia da Ecália, um cantor da Trácia levava a cítara (instrumento de cordas, parente grande da lira) presa às costas e uma frase pronta na boca. Tinha tocado em salões de reis e vencido concursos em cidades que mal conhecia. A frase era curta: ninguém no mundo cantava melhor do que ele.
Em Dório, no oeste do Peloponeso, a frase chegou a quem não devia. As Musas, as nove filhas de Zeus que guardavam o canto, a poesia e a memória, ouviram o recado. O cantor dizia que venceria até elas, se elas topassem cantar contra ele. Dório ficava longe dos montes onde elas moravam, e mesmo assim a notícia subiu até lá.
Ele não ficou no elogio a si mesmo. Pôs um prêmio na mesa. Se ganhasse, teria as nove como companheiras de leito. Se perdesse, as deusas tirariam dele o que quisessem.
As deusas aceitaram. A disputa aconteceu, e nenhum texto antigo guardou as canções nem o placar. Guardou só o resultado: ele perdeu.
A cobrança veio em três partes. Primeiro, os olhos. Depois, o canto que os deuses tinham posto na garganta dele. Por último, a memória das mãos: ele esqueceu como se tocava a cítara, o instrumento que carregou a vida inteira.
Sobrou um homem cego, com um instrumento que não sabia mais usar. Séculos depois, um pintor grego o retratou desse jeito numa parede de Delfos, sentado, com a lira quebrada aos pés.
O talento dele era verdadeiro, e os antigos concordam neste ponto. Ninguém desafia as Musas sem ter voz para sustentar o primeiro verso. O erro estava em outro lugar, e a aposta mostra onde.
A próxima parte conta quem era o cantor, quem registrou a disputa, por que as Musas aceitaram o desafio e por que o castigo tirou exatamente aquelas três partes dele.
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I O Mito
O filho de Filâmon diante das filhas de Zeus
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O cantor se chamava Tâmiris, filho de Filâmon, também músico, e da ninfa Argíope, segundo a Biblioteca, um resumo de mitos gregos atribuído a Apolodoro e escrito entre os séculos I e II d.C. Nasceu na Trácia, a região ao norte da Grécia que os gregos tinham como terra de cantores. Orfeu, o mais famoso deles, vinha do mesmo lugar.
O registro mais antigo está na Ilíada, de Homero, poema composto no século VIII a.C. O trecho fica no canto II, na lista dos navios que foram a Troia. Ao citar a cidade de Dório, o poeta para a lista por sete versos e lembra o que aconteceu ali.
"Onde as Musas, encontrando o trácio Tâmiris, fizeram cessar o seu canto; pois ele se gabava de que venceria, mesmo que as próprias Musas cantassem." Homero, Ilíada, canto II, versos 594 a 597, século VIII a.C. |
O motivo do desafio, nas fontes, é a vaidade. Tâmiris era bonito e tocava melhor que qualquer mortal da época, diz Apolodoro. Acreditou que o talento o punha acima de quem o tinha dado. Na tradição grega, o canto do poeta vinha das Musas; desafiar as Musas era disputar com a própria fonte do dom.
O motivo da aposta também está escrito. Apolodoro conta que Tâmiris exigiu, se vencesse, ter relações com as nove. A exigência transformava as deusas em troféu. Se perdesse, aceitava perder o que elas escolhessem.
Por que as deusas aceitaram, nenhum texto antigo explica com todas as letras. Esta edição adota a leitura mais comum da tradição grega: recusar deixaria a frase dele de pé. Um mortal que se diz superior às deusas precisava ser desmentido em público, numa disputa aberta, diante de testemunhas.
O motivo do castigo tem nome grego: hýbris (a desmedida, o mortal que se põe no lugar dos deuses). Os gregos a tratavam como a falta mais grave de um homem diante do céu. Tâmiris cometeu duas vezes: quando disse que venceria e quando pôs as deusas como prêmio.
Tâmiris tinha o talento; o que ele apostou foi o próprio talento, contra quem o tinha emprestado.
O castigo seguiu a lógica da dívida. As Musas tomaram de volta o que tinham dado: a voz divina e a memória da cítara. Os olhos entraram como parte da aposta que ele mesmo aceitou.
As fontes divergem sobre os olhos. Homero usa a palavra pērós, que pode significar mutilado ou incapacitado, sem dizer que parte do corpo. Apolodoro diz que foi a visão. O viajante Pausânias, no século II d.C., registra outra versão: Tâmiris teria ficado cego por doença, e jogou a lira num rio da Messênia que ganhou dali o nome Bálira (de "jogar a lira", em grego). Esta edição segue Homero e Apolodoro.
Pausânias descreve ainda a pintura de Polignoto em Delfos, do século V a.C.: Tâmiris sentado no mundo dos mortos, cego, cabelo longo, com a lira partida aos pés. É a imagem que a Grécia guardou dele.
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II O Diagnóstico
O talento posto como ficha
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O núcleo arquetípico é o dom apostado: alguém com talento real troca o uso do talento pela prova de que é o melhor, e põe o próprio dom como garantia da prova.
O primeiro traço é que o talento existia. Nenhuma fonte diz que Tâmiris cantava mal. A queda dele assusta justamente porque o ponto de partida era bom. A vaidade, aqui, anda com competência de verdade.
O segundo traço é a troca de plateia. Tâmiris tocava para reis e cidades, e a honra dessas plateias bastava para uma vida. Ele quis tocar contra alguém. O canto deixou de servir a quem ouvia e passou a servir a um placar.
O terceiro traço é o prêmio desproporcional. Vencer já seria glória suficiente. Ele pediu as nove deusas. Quem pede demais na aposta revela o que queria desde o começo: dominar, e não cantar.
O quarto traço é esquecer de onde veio o dom. Na visão grega, o poeta abria a boca e as Musas falavam por ele. Tâmiris tratou como propriedade o que era empréstimo.
Aracne cometeu um erro vizinho. Nas Metamorfoses, Ovídio conta que a tecelã desafiou Atena e teceu uma peça sem falha. A diferença pesa: Aracne defendeu a obra; Tâmiris pôs a obra inteira como ficha e pediu as deusas de brinde. Ela perdeu a forma humana. Ele perdeu o próprio ofício.
Platão guardou um destino curioso para ele. No mito de Er, as almas escolhem a próxima vida antes de voltar ao mundo.
"Viu a alma de Tâmiris escolher a vida de um rouxinol." Platão, A República, livro X, 620a, c. 375 a.C. |
Até na próxima vida, Tâmiris escolhe o canto, agora sem plateia para vencer. O rouxinol canta para a noite, sem ninguém do outro lado.
Um leitor da casa resumiu a lição em uma linha: "Talento e humildade pode te levar para o próximo nível." A frase separa as duas partes que Tâmiris juntou numa só.
A tradução para hoje aparece em ambientes de trabalho comuns. É o profissional excelente que só aceita a tarefa se puder provar que é o melhor da sala. É o músico que troca o show pela briga com o colega. É o jovem promissor que pede o cargo do chefe na primeira reunião e perde a indicação que já estava encaminhada.
O sinal de alerta é simples. Quando a conversa sobre o seu trabalho vira conversa sobre quem você pode derrotar, a aposta já está na mesa.
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