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ED 178
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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores.

Baal recusou 3 vezes a janela que Kothar queria abrir

O deus da tempestade trancou o palácio por medo do que entrasse e só abriu uma fenda quando quis trovejar sobre a terra

Kothar diante da parede sem janela do palácio de Baal, com nuvens de tempestade lá fora

A parede lisa onde Kothar queria a janela

▼

O fogo ardeu seis dias seguidos dentro do palácio ainda sem teto. O ar cheirava a metal quente, e as pedras do chão estalavam com o calor que subia das paredes.

Pelos salões, a prata e o ouro escorriam como água grossa e, ao esfriar, endureciam em tijolos. No sétimo dia as chamas baixaram, e o construtor pôde entrar para conferir a obra.

Ele se chamava Kothar-wa-Khasis, nome que significa “Hábil e Sábio” na língua de Ugarit, cidade da costa da Síria onde o mito foi escrito em tabuinhas de barro.

A casa era para Baal, o deus da tempestade, aquele que mandava a chuva para os campos e o trovão para os montes. Tinha cedro do Líbano nas vigas, metal precioso nas paredes e salões largos para receber os outros deuses.

Faltava uma peça só. Desde a primeira conversa sobre a obra, Kothar insistia em abrir uma janela. E Baal, a cada pedido, dizia não.

O deus que governava as nuvens não queria uma fresta na própria parede. Tinha medo do que pudesse entrar por ela, e tinha medo do que pudesse sair.

Kothar ouvia a recusa e respondia sempre com a mesma frase curta, de quem já entregou muita casa pronta: o senhor ainda vai voltar à minha palavra.

Baal voltou. Só que não mandou abrir a parede para deixar entrar ar, luz ou visita. Quando enfim aceitou uma abertura, foi para empurrar a própria voz para fora, sobre a terra inteira.

O mito tem mais de três mil anos, e o desenho dele aparece em muita casa de hoje: a porta trancada para quem chega, e escancarada no dia em que o dono precisa falar.

A primeira faixa conta como Baal ganhou o palácio, por que recusou a janela e o que aconteceu quando ela se abriu.

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I  O Mito

Uma casa sem fresta

Baal é o deus da tempestade dos cananeus, o povo que viveu na costa do Mediterrâneo oriental antes dos fenícios. A história dele chegou até nós por acaso. Em 1928, um camponês bateu o arado numa tumba perto de Ras Shamra, na Síria, e a escavação francesa de Claude Schaeffer, a partir de 1929, achou ali a antiga Ugarit.

Entre as tabuinhas da cidade estava o Ciclo de Baal, um poema longo copiado pelo escriba Ilimilku por volta de 1350 a.C. A parte da janela fica na tabuinha que os estudiosos chamam de KTU 1.4 (a sigla do catálogo alemão dos textos de Ugarit).

Antes do palácio veio a guerra. Yam, o deus do Mar, exigia ser rei dos deuses. Kothar forjou para Baal duas clavas, uma chamada Yagrush (“Expulsor”) e outra Ayyamur (“Caçador”), e com a segunda Baal derrubou Yam.

Mesmo vitorioso, Baal continuava sem casa. Ele reclamava que era o único deus sem palácio, e só El, o pai dos deuses, podia autorizar a obra. Por esse caminho entrou Asherah, a esposa de El, que foi pedir ao marido. El cedeu, e o recado correu: Kothar podia construir.

Kothar chegou, comeu à mesa de Baal e propôs a janela logo de início. Baal recusou. O artesão insistiu, e ouviu a mesma recusa. Na leitura que esta edição segue, o diálogo se repete três vezes; a tabuinha está quebrada em trechos, e os tradutores divergem sobre quantas vezes a troca aparecia inteira.

“Não ponhas janela na casa, nem abertura no meio do palácio.”

Ciclo de Baal, tabuinha KTU 1.4, Ugarit, c. 1350 a.C. (tradução livre)

O motivo da recusa era medo. Logo depois da fala, o texto cita Pidray e Tallay, as filhas de Baal, e cita Yam. A maioria dos tradutores lê ali o receio de que o Mar derrotado entrasse pela fresta e levasse as filhas. Umberto Cassuto, estudioso italiano dos textos de Ugarit, ligou o trecho a outro medo antigo: o de que a Morte invadisse a casa pela janela. Esta edição segue a leitura das filhas e do Mar.

Kothar não discutiu. Respondeu apenas que Baal ainda voltaria à palavra dele, e acendeu o fogo dos seis dias que transformou prata e ouro em tijolo. Baal deu um banquete aos deuses, saiu em campanha e tomou dezenas de cidades vizinhas.

Só ao voltar, com o reino seguro, ele mudou de ideia. O texto dá o motivo: ninguém mais o ameaçava, e agora ele queria ser ouvido. Mandou abrir a janela, e Kothar riu. A fenda se abriu nas nuvens, Baal soltou a voz santa, a terra tremeu, os montes balançaram e os inimigos fugiram para as matas.

Em seguida, Baal mandou recado a Mot, deus da Morte, dizendo que só ele reinava. Mot respondeu com a ameaça de engoli-lo. Baal desceu ao mundo de baixo, e só a irmã, Anat, o trouxe de volta, nas tabuinhas seguintes do ciclo.

 
 

II  O Diagnóstico

A abertura de mão única

O padrão que o mito descreve é a casa de mão única: fechada para tudo o que chega, aberta só para o que o dono quer mandar para fora.

Baal não era tímido. Era o deus mais barulhento do panteão. Mesmo assim, não queria uma fresta. Para ele, abertura era risco quando servia para receber, e era poder quando servia para falar.

O primeiro traço é a desconfiança como regra. Baal tinha acabado de vencer Yam e ainda tratava o Mar como ameaça viva. Quem vive assim fecha a casa por precaução, e chama de prudência o que já virou hábito.

O segundo traço é a mudança de ideia pelo motivo errado. Kothar ofereceu a janela como parte da casa. Baal só aceitou quando ela virou instrumento. Ele não abriu para ouvir os vizinhos que acabara de dominar; abriu para que eles o ouvissem.

O terceiro traço é o anúncio que chama o perigo. Logo depois de trovejar pela fenda, Baal mandou dizer a Mot que reinava sozinho. A resposta veio pela mesma terra que tremia, e foi a pior possível.

“A morte subiu pelas nossas janelas, entrou nos nossos palácios.”

Livro de Jeremias 9:21, Bíblia hebraica, século VI a.C. (tradução livre)

O profeta Jeremias escreveu séculos depois, em Judá, mas usou a imagem que os vizinhos cananeus conheciam: a janela é por onde o pior entra. Baal temia exatamente o que a própria voz acabou atraindo.

Na vida comum, o padrão aparece no chefe que nunca abre a agenda para a equipe e convoca reunião geral quando precisa anunciar uma decisão. Aparece no amigo que some meses e reaparece no grupo para divulgar o próprio projeto.

Aparece também em casa. É o parente que não pergunta como foi o dia de ninguém, mas exige plateia quando chega a vez de contar o dele. A janela existe, e funciona num sentido só. Quem mora com essa pessoa aprende a esperar o trovão e deixa de bater à porta.

O sinal de alerta é perceber que as suas aberturas têm horário marcado pelas suas necessidades. Se os outros só sabem de você quando você quer alguma escuta, a fenda de Baal já está aberta.

 

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III  A Saída

Uma janela que também recebe

Kothar tinha razão desde a primeira conversa. A janela fazia parte da casa desde a planta, como a porta e o telhado. O erro de Baal foi decidir sozinho o sentido em que ela funcionaria.

Para quem percebe que só abre a porta quando quer ser ouvido, o mito sugere quatro passos:

1. Abra antes de precisar. Escolha uma pessoa e procure por ela numa semana em que você não tem nada a anunciar. A visita sem pauta é o teste da janela.

2. Pergunte primeiro. Antes de contar a sua notícia, pergunte pela notícia do outro e espere a resposta inteira. A voz de Baal fez a terra tremer, mas ele nunca escutou o que os montes responderam.

3. Nomeie o medo. Baal temia o Mar e não dizia. Escreva numa frase o que você teme que entre se abrir a porta: crítica, pedido, cobrança. Medo com nome costuma diminuir.

4. Ouça o construtor. Kothar avisou e foi ignorado. Na sua vida, quem já disse que você só aparece quando precisa provavelmente estava descrevendo a sua casa com precisão.

Vale um contrapeso. O mito não condena a porta fechada. Baal tinha inimigos reais, e as filhas corriam risco real. Proteger a casa faz parte de cuidar dela. O problema começa quando a proteção vira o único uso da parede.

Também não promete que abrir resolve tudo. A janela de Baal deixou sair o trovão e não impediu a descida ao mundo de Mot. Abrir para ouvir não garante segurança; garante saber o que está chegando antes que chegue.

Um teste simples separa a janela de Kothar da fenda de Baal. Pense na última vez que alguém soube de você. Se foi porque você precisava ser ouvido, a abertura funcionou num sentido só. Se foi porque você quis ouvir, a casa respira.

A pergunta da edição é esta: quem só tem notícia sua quando você precisa de plateia?

Kothar-wa-Khasis, diante da fenda aberta nas nuvens, riu e disse ao dono da casa: “Eu não te avisei, Baal, que você voltaria à minha palavra?”

 
 
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Quantos dias o fogo ardeu dentro do palácio de Baal antes de Kothar poder entrar para conferir a obra?

A3 dias
B6 dias
C9 dias
D12 dias

Resultado da última edição: 25% acertaram.

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