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Baal é o deus da tempestade dos cananeus, o povo que viveu na costa do Mediterrâneo oriental antes dos fenícios. A história dele chegou até nós por acaso. Em 1928, um camponês bateu o arado numa tumba perto de Ras Shamra, na Síria, e a escavação francesa de Claude Schaeffer, a partir de 1929, achou ali a antiga Ugarit.
Entre as tabuinhas da cidade estava o Ciclo de Baal, um poema longo copiado pelo escriba Ilimilku por volta de 1350 a.C. A parte da janela fica na tabuinha que os estudiosos chamam de KTU 1.4 (a sigla do catálogo alemão dos textos de Ugarit).
Antes do palácio veio a guerra. Yam, o deus do Mar, exigia ser rei dos deuses. Kothar forjou para Baal duas clavas, uma chamada Yagrush (“Expulsor”) e outra Ayyamur (“Caçador”), e com a segunda Baal derrubou Yam.
Mesmo vitorioso, Baal continuava sem casa. Ele reclamava que era o único deus sem palácio, e só El, o pai dos deuses, podia autorizar a obra. Por esse caminho entrou Asherah, a esposa de El, que foi pedir ao marido. El cedeu, e o recado correu: Kothar podia construir.
Kothar chegou, comeu à mesa de Baal e propôs a janela logo de início. Baal recusou. O artesão insistiu, e ouviu a mesma recusa. Na leitura que esta edição segue, o diálogo se repete três vezes; a tabuinha está quebrada em trechos, e os tradutores divergem sobre quantas vezes a troca aparecia inteira.
“Não ponhas janela na casa, nem abertura no meio do palácio.” Ciclo de Baal, tabuinha KTU 1.4, Ugarit, c. 1350 a.C. (tradução livre) |
O motivo da recusa era medo. Logo depois da fala, o texto cita Pidray e Tallay, as filhas de Baal, e cita Yam. A maioria dos tradutores lê ali o receio de que o Mar derrotado entrasse pela fresta e levasse as filhas. Umberto Cassuto, estudioso italiano dos textos de Ugarit, ligou o trecho a outro medo antigo: o de que a Morte invadisse a casa pela janela. Esta edição segue a leitura das filhas e do Mar.
Kothar não discutiu. Respondeu apenas que Baal ainda voltaria à palavra dele, e acendeu o fogo dos seis dias que transformou prata e ouro em tijolo. Baal deu um banquete aos deuses, saiu em campanha e tomou dezenas de cidades vizinhas.
Só ao voltar, com o reino seguro, ele mudou de ideia. O texto dá o motivo: ninguém mais o ameaçava, e agora ele queria ser ouvido. Mandou abrir a janela, e Kothar riu. A fenda se abriu nas nuvens, Baal soltou a voz santa, a terra tremeu, os montes balançaram e os inimigos fugiram para as matas.
Em seguida, Baal mandou recado a Mot, deus da Morte, dizendo que só ele reinava. Mot respondeu com a ameaça de engoli-lo. Baal desceu ao mundo de baixo, e só a irmã, Anat, o trouxe de volta, nas tabuinhas seguintes do ciclo.
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O padrão que o mito descreve é a casa de mão única: fechada para tudo o que chega, aberta só para o que o dono quer mandar para fora.
Baal não era tímido. Era o deus mais barulhento do panteão. Mesmo assim, não queria uma fresta. Para ele, abertura era risco quando servia para receber, e era poder quando servia para falar.
O primeiro traço é a desconfiança como regra. Baal tinha acabado de vencer Yam e ainda tratava o Mar como ameaça viva. Quem vive assim fecha a casa por precaução, e chama de prudência o que já virou hábito.
O segundo traço é a mudança de ideia pelo motivo errado. Kothar ofereceu a janela como parte da casa. Baal só aceitou quando ela virou instrumento. Ele não abriu para ouvir os vizinhos que acabara de dominar; abriu para que eles o ouvissem.
O terceiro traço é o anúncio que chama o perigo. Logo depois de trovejar pela fenda, Baal mandou dizer a Mot que reinava sozinho. A resposta veio pela mesma terra que tremia, e foi a pior possível.
“A morte subiu pelas nossas janelas, entrou nos nossos palácios.” Livro de Jeremias 9:21, Bíblia hebraica, século VI a.C. (tradução livre) |
O profeta Jeremias escreveu séculos depois, em Judá, mas usou a imagem que os vizinhos cananeus conheciam: a janela é por onde o pior entra. Baal temia exatamente o que a própria voz acabou atraindo.
Na vida comum, o padrão aparece no chefe que nunca abre a agenda para a equipe e convoca reunião geral quando precisa anunciar uma decisão. Aparece no amigo que some meses e reaparece no grupo para divulgar o próprio projeto.
Aparece também em casa. É o parente que não pergunta como foi o dia de ninguém, mas exige plateia quando chega a vez de contar o dele. A janela existe, e funciona num sentido só. Quem mora com essa pessoa aprende a esperar o trovão e deixa de bater à porta.
O sinal de alerta é perceber que as suas aberturas têm horário marcado pelas suas necessidades. Se os outros só sabem de você quando você quer alguma escuta, a fenda de Baal já está aberta.
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