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Troia, décimo ano de cerco. Aquiles acaba de cair diante das portas da cidade, atingido por uma flecha, e o corpo fica no campo entre dois exércitos que se atracam por ele.
Ájax Telamônio, filho de Télamon e rei de Salamina, é o maior dos gregos depois de Aquiles. Carrega um escudo de sete camadas de couro de boi recoberto de bronze, e Homero o chama de muralha dos aqueus.
Ele levanta Aquiles nos ombros e atravessa o campo sob flechas, com Ulisses às costas segurando os troianos que vêm atrás. Chega ao acampamento com o peso inteiro e o entrega intacto.
O currículo dele dispensa interpretação. No canto XV da Ilíada, defende as naus do fogo troiano com uma lança naval de vinte e dois côvados. No canto VII, enfrenta Heitor em duelo singular até o anoitecer, e ao fim os dois trocam presentes: Heitor lhe entrega a própria espada.
A armadura de Aquiles, forjada por Hefesto, fica sem dono. O exército decide entregá-la ao melhor entre os que restaram, e dois nomes se apresentam: Ájax e Ulisses.
Ovídio conta o julgamento no livro XIII das Metamorfoses, escrito por volta do ano 8. Os chefes gregos sentam em assembleia, na areia, com as naus atrás. Ájax fala primeiro.
Ele aponta para as naus que salvou do fogo. Lembra o duelo com Heitor. Lembra o peso que atravessou o campo nos próprios ombros. E reclama de precisar dizer tudo aquilo em voz alta.
Então propõe o método que lhe parece óbvio. Joguem as armas no meio dos inimigos, mandem buscá-las, e deem a quem trouxer de volta. Para Ájax, prova de valor se faz repetindo o feito, nunca descrevendo.
Ulisses responde sem listar peso. Lista consequência. Foi ele quem encontrou Aquiles escondido entre as filhas de Licomedes em Esciros e o levou para a guerra. Sem aquela viagem, não há Aquiles nem armadura em disputa.
Continua: foi ele quem trouxe Filoctetes e o arco sem o qual Troia não cai, e foi ele quem tirou o Paládio de dentro da cidadela. Então abre a túnica diante da assembleia para mostrar as cicatrizes do peito.
Os chefes decidem por Ulisses. Ovídio fecha a cena numa linha que virou provérbio: o eloquente levou as armas do valente.
A versão mais antiga é ainda mais dura. Na Ilíada Menor, poema atribuído a Lesques no século 7 a.C., não há discurso nenhum. Nestor manda espiões ouvirem, debaixo da muralha, o que os troianos diziam.
Duas moças troianas discutem qual dos gregos fez mais estrago. A que fala por Ulisses prevalece, com Atena inclinando a conversa. O exército grego não tinha registro do próprio serviço e foi buscá-lo no inimigo.
A tragédia de Sófocles, encenada por volta de 440 a.C., pega a noite seguinte à decisão. Ájax, fora de si, ataca o rebanho do acampamento acreditando estar diante dos chefes que o preteriram.
O fim dele acontece numa praia deserta, com a mesma espada que Heitor lhe deu no duelo empatado. Depois, no canto XI da Odisseia, quando Ulisses desce para consultar as sombras, Ájax é o único que se recusa a responder.
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