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A história começa longe de Feras, a cidade da Tessália onde reinava Admeto. Asclépio, filho de Apolo e médico dos homens, passou a ressuscitar mortos. Zeus achou que ele desarrumava a ordem do mundo e o fulminou com um raio.
Apolo quis vingar o filho. Como não podia atacar Zeus, matou os Ciclopes, os gigantes de um olho só que forjavam os raios do pai dos deuses. O castigo veio em seguida: Zeus o obrigou a servir um ano inteiro a um mortal, como trabalhador braçal.
O mortal escolhido foi Admeto. Apolo cuidou dos rebanhos do rei, e o rei o tratou com respeito, como hóspede e não como escravo. A hospitalidade de Admeto é o motivo de tudo o que vem depois.
Quando soube que a vida de Admeto estava perto do fim, Apolo quis pagar a gentileza. Foi até as Moiras, as três fiandeiras que tecem e cortam o fio de cada vida, e arrancou delas um acordo.
Admeto poderia escapar do dia marcado, desde que alguém aceitasse ir no lugar dele. No prólogo de Eurípides, o próprio Apolo diz que enganou as Moiras. Ésquilo, na tragédia Eumênides (458 a.C.), conta como foi: o deus as embebedou com vinho.
As fontes divergem sobre o momento da troca. Em Eurípides, ela vem anos depois do casamento. Na Biblioteca de Apolodoro, compilação grega de mitos do século I ou II, o acordo sai no próprio dia das bodas. A edição segue Eurípides.
Com o acordo na mão, Admeto saiu pedindo. Eurípides diz que ele percorreu todos os amigos e pôs cada um à prova. O primeiro foi o pai, Feres, que já tinha entregado o trono ao filho. O segundo foi a mãe. Os dois recusaram.
Recusaram por um motivo simples: gostavam de viver, mesmo velhos. A gente da casa também disse não. Ninguém devia aquela vida ao rei.
Restou Alceste, a esposa. Ela aceitou, e diz no palco por quê: podia ter se casado de novo com outro nobre da Tessália, mas não quis viver separada do marido, com os filhos órfãos de pai.
“Não quis viver arrancada de ti, com filhos órfãos, e não poupei a juventude que tinha.” Eurípides, Alceste, 438 a.C. (tradução livre) |
Antes de partir, ela fez um pedido só: que Admeto não desse aos filhos uma madrasta. Ele jurou. Alceste partiu nos braços dele, no meio da manhã.
Naquele mesmo dia, Héracles, a caminho de um dos seus trabalhos, bateu à porta. Admeto escondeu o luto para não negar a acolhida. O herói comeu, bebeu e cantou, até um criado contar quem tinha partido.
Envergonhado, Héracles foi ao túmulo, lutou com Tânatos, a Morte em pessoa, e trouxe Alceste de volta, coberta por um véu. Ela ficou três dias sem falar, até se purificar da consagração aos deuses de baixo da terra. A peça termina assim, com a esposa viva e muda ao lado do marido.
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O núcleo do mito é a cobrança sem oferta: pedir a outra pessoa o sacrifício que a gente nunca colocou na mesa para si.
Admeto não é vilão. É bom anfitrião, bom rei, marido querido. Justamente por ser querido, achou normal que alguém pagasse por ele. Nunca perguntou o que ele próprio faria se o pai pedisse a mesma troca.
O primeiro traço é a fila. Admeto não foi direto à esposa. Começou pelo pai e pela mãe, porque achava que o dever era deles. Quem cobra sem oferecer costuma ter uma lista pronta de quem deve, e nunca aparece nela.
O segundo traço é a indignação. No velório, Admeto acusa Feres de covardia diante de todos. Diz que o pai, tão perto do fim, não quis dar o pouco que lhe restava. O velho responde com a frase que vira a peça.
“Você gosta de ver a luz do dia. Acha que seu pai não gosta?” Eurípides, Alceste, 438 a.C. (tradução livre) |
Feres lembra ao filho que nenhuma lei grega mandava o pai partir no lugar do filho, e que a vida de cada um pertence a quem a vive. A plateia de Atenas ria e se incomodava ao mesmo tempo, porque o velho tinha razão.
O terceiro traço é a cegueira até a conta chegar. Admeto só entende o que pediu quando volta para a casa sem Alceste. Ele mesmo diz no palco que agora compreende a vida que escolheu, e que ela pesa.
Na vida comum, o padrão aparece no sócio que exige dedicação total da equipe e sai às cinco. Aparece no filho que cobra dos irmãos o cuidado com a mãe doente e manda apenas mensagem.
Aparece também no casamento em que um dos dois decide que a mudança de cidade, a pausa na carreira ou a noite sem dormir com o bebê cabem ao outro, porque o outro ama mais.
O sinal de alerta é uma frase interna: alguém aqui deveria fazer isto por mim. Quando a pessoa que pensa assim nunca se inclui no “alguém”, a fila de Admeto já está formada.
O mito é duro também com quem diz sim. Alceste não é ingênua. Ela negocia, faz o marido jurar, protege os filhos. Mas paga uma conta que não era dela, e só um herói de passagem desfaz o prejuízo.
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