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Etéocles e Polinices, filhos de Édipo, combinaram dividir o trono de Tebas em turnos de um ano. Etéocles não saiu na data combinada. Polinices foi buscar exército em Argos e voltou contra a própria cidade.
Os dois se encontraram diante da sétima porta e caíram um pela mão do outro, no mesmo instante. Tebas amanheceu sem nenhum dos dois herdeiros e com o trono vago.
Creonte, irmão de Jocasta e tio dos rapazes, assumiu o poder e fez o primeiro pronunciamento. Etéocles receberia sepultura com todas as honras de quem defendeu os muros. Para Polinices, a ordem foi outra: nenhum túmulo, nenhum pranto, nenhum rito.
O irmão proibido ficaria no campo aberto, exposto aos cães e às aves, e quem desobedecesse seria apedrejado em praça pública. O decreto tinha lógica de Estado: um caiu defendendo os muros, o outro veio para derrubá-los, e a cidade recém-saída do cerco precisava ver a diferença registrada.
Antígona procurou Ismene, a irmã, e contou o que pretendia fazer. Ismene recusou com o argumento que qualquer pessoa reconhece: somos duas mulheres contra a cidade inteira, e não temos força nenhuma para enfrentar quem manda.
Antígona foi sozinha. No rito grego, o sepultamento não exigia cova funda: bastava cobrir o morto com uma camada de pó e derramar as libações para que ele tivesse passagem. Sófocles, em Antígona (cerca de 441 a.C.), chama de pó fino o que ela espalhou.
O guarda que levou a notícia descreveu uma cena sem pista nenhuma: nenhuma marca de enxada, nenhum rastro de carro, nenhum sinal de animal. Só uma camada rala sobre o corpo, o suficiente para o rito valer. Creonte mandou varrer o pó, deixar tudo exposto outra vez e montar vigia contra o vento.
Ao meio-dia, um redemoinho de poeira subiu do chão e tomou a planície. Quando o ar assentou, ela estava lá, chorando o som agudo de um pássaro que encontra o ninho vazio, e cobriu tudo de novo com pó seco e três libações de uma jarra de bronze.
Levada à presença do rei, Antígona não negou uma linha. Disse que a proclamação não tinha vindo de Zeus nem da Justiça que mora com os deuses de baixo, e que nenhum decreto de um mortal passa por cima das leis não escritas, que ninguém datou e ninguém revoga.
Creonte mandou emparedá-la viva numa câmara de pedra, para que a cidade não carregasse a mancha de tê-la executado. Hêmon, filho do rei e noivo dela, lembrou ao pai que a cidade inteira comentava a favor da moça e que ninguém governa sozinho uma terra que discorda dele. O rei não cedeu um palmo.
Tirésias, o adivinho cego, chegou com o relatório do estrago: aves e cães tinham espalhado pelos altares o que sobrou de Polinices, e os deuses não aceitavam mais sacrifício vindo de Tebas. Errar é de todo homem, disse o velho, teimar depois de saber é que não tem conserto.
Creonte cedeu tarde. Foi primeiro cobrir Polinices e só então correu para a câmara de pedra, já com a ordem revogada na boca. Encontrou a câmara ocupada, o filho caído ao lado dela e, na volta ao palácio, a própria casa desfeita.
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