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O Poema de Aqhat chegou até nós em três tábuas de argila escritas em ugarítico, a língua da cidade de Ugarit, no litoral da atual Síria. A equipe do arqueólogo francês Claude Schaeffer as desenterrou em Ras Shamra (o promontório do funcho, nome árabe do sítio) entre 1930 e 1931. O escriba Ilimilku assinou a cópia por volta de 1350 antes de Cristo.
Na abertura, Danel recebe Kothar-wa-Khasis (o Hábil e Sábio, deus dos ofícios) na porta da cidade, serve carne e vinho ao hóspede e ganha o arco como agradecimento. O pai entrega a arma ao filho com uma instrução: a melhor parte da caça vai para o templo.
O motivo da fúria de Anat aparece em duas camadas no texto. A primeira é o desejo pelo arco, arma da caça, terreno dela. A segunda é a ofensa. A deusa ouviu duas recusas sem reagir; só se levantou depois de ouvir que caçar não era para mulher. Os tradutores divergem sobre o peso de cada camada. A edição usa a leitura do insulto como gatilho, porque no poema Anat ri e parte para El logo depois da última frase.
Anat foi a El e exigiu licença para castigar o rapaz. Ameaçou partir a cabeça do velho deus e encharcar de sangue a barba dele se ouvisse um não. El cedeu. Disse que conhecia o gênio da filha e que ninguém conseguiria detê-la.
Para o golpe, a deusa chamou Yatpan, um guerreiro a seu serviço. Explicou o plano: levaria Yatpan dentro do próprio cinto, como uma ave de rapina, voaria com um bando de águias sobre Aqhat enquanto ele comia sozinho e soltaria o guerreiro na hora certa.
Assim foi. Yatpan desceu sobre a cabeça do rapaz e o golpeou duas vezes, três vezes, acima da orelha. O fôlego de Aqhat saiu como vento. Na queda, o arco caiu e se perdeu, e Anat chorou: tinha mandado ferir o dono por uma arma que agora não servia a ninguém.
A seca veio logo atrás. Pughat, a irmã de Aqhat, viu as plantas murcharem na eira e as águias rondando a casa. Danel, sentado na porta da cidade a julgar causas de viúvas e órfãos, rasgou a roupa.
O motivo da seca é o ponto onde as fontes mais se dividem. Uma leitura liga a falta de chuva ao sangue de um herdeiro inocente derramado no campo, que mancha a terra. Outra a liga à praga lançada por Danel: sete anos sem Baal, oito sem o cavaleiro das nuvens. A edição usa as duas juntas, como o texto as põe em sequência: o crime abre a seca, a praga do pai a prolonga.
Danel pediu a Baal que quebrasse as asas das águias, abriu cada uma e achou os restos do filho em Sumul, a mãe das águias. Enterrou o rapaz e amaldiçoou as três cidades vizinhas ao lugar do crime.
Pughat então vestiu roupa de guerreiro por baixo da roupa de mulher, escondeu uma faca e foi à tenda de Yatpan. Serviu vinho até ele se gabar do golpe. Aqui a tábua se quebra. Ninguém sabe se ela vingou o irmão: a continuação, se existiu, nunca foi achada nas escavações.
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