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Cadmo era filho de Agenor, rei de Tiro, na costa fenícia. Quando Zeus levou a irmã dele, Europa, o pai reuniu os filhos e deu uma ordem sem prazo e sem escapatória: procurem a menina e não voltem sem ela.
A busca fracassa em todas as direções. Cadmo percorre o Mediterrâneo, não encontra rastro nenhum e entende que voltar para casa deixou de ser opção. Sem pátria e sem missão cumprida, ele faz o que grego nenhum considerava estranho e vai consultar o oráculo de Delfos.
A resposta não fala de Europa. A Pítia manda que ele desista da irmã, siga uma vaca solitária que encontrará no caminho e funde uma cidade no ponto exato em que o animal se deitar de cansaço.
Cadmo obedece. A vaca atravessa a Beócia e deita numa planície. Ele decide oferecer o animal em sacrifício e envia os companheiros para buscar água de uma fonte próxima, que ficava dentro de um bosque consagrado a Ares.
A fonte tinha guardião. Uma serpente enorme, filha do próprio deus da guerra, dizima o grupo inteiro antes que qualquer homem consiga encher um jarro. Cadmo entra no bosque sozinho, encontra os corpos dos amigos e enfrenta o animal com uma pedra, uma lança e por fim a espada, prendendo a criatura contra um carvalho.
O que vem depois é o ponto que interessa. Atena aparece e dá uma instrução agrícola, não militar: arar o campo e semear na terra os dentes da serpente, como quem planta cevada.
Ovídio narra a colheita nas Metamorfoses, obra de cerca de 8 d.C. Das leiras começam a surgir pontas de lança, depois elmos com penachos, depois ombros, peitos e braços já carregando escudos. Sobe do chão um exército inteiro, adulto, armado e pronto.
Cadmo se prepara para lutar contra a multidão que ele mesmo plantou. Um dos guerreiros o impede com um aviso curto: não se meta em guerra civil. E a frase se explica sozinha nos segundos seguintes.
O grupo se volta para dentro. Ninguém ali reconhecia autoridade em ninguém, ninguém tinha passado, ninguém devia favor a ninguém, e todos nasceram com armas na mão no mesmo instante. A planície inteira se desfaz numa confusão rápida, homem contra homem.
Quando a poeira baixa, restam cinco de pé. Equíon, Udeu, Ctônio, Hiperenor e Peloro largam as armas e aceitam servir ao estrangeiro que semeou o campo. Com esses cinco, Cadmo levanta a cidadela que recebe o nome dele, a Cadmeia, e que a Grécia conheceria como Tebas.
Os cinco viram as casas fundadoras da nobreza tebana, e a cidade passa a chamar os descendentes deles de Spartoi, os semeados. Cadmo ainda paga oito anos de serviço a Ares pela serpente abatida, e depois recebe Harmonia em casamento, com todos os deuses presentes na festa.
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