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ED 204
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O camelo emprestou os chifres ao veado

No conto mongol, o veado prometeu devolver depois da festa, e o camelo ainda para na beira da água olhando a estrada

O camelo sem chifres na beira de um lago da estepe mongol, olhando a estrada vazia, e o veado de chifres sumindo na floresta

O camelo na beira do lago, olhando a estrada

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A água do lago chega gelada à boca do camelo, e o pescoço dele sobe antes do terceiro gole. A cabeça fica parada no alto, as orelhas viradas para a frente, os olhos presos numa linha da estepe onde não aparece ninguém.

Depois ele baixa o pescoço, bebe mais um pouco e sobe de novo. Gole, pausa, estrada. Gole, pausa, estrada. O animal bebe em parcelas, e entre uma e outra confere o horizonte.

Os pastores nômades da Mongólia, que criam camelos de duas corcovas no deserto de Gobi, têm uma explicação antiga para o gesto. Ela começa num tempo em que o camelo tinha chifres: galhos largos e pesados, do tipo que hoje enfeita a cabeça do veado.

Um dia o veado apareceu pedindo os chifres emprestados. Havia uma festa, e ele não queria chegar de testa pelada. Prometeu devolver logo depois, na beira da água, na manhã em que o camelo viesse beber.

O camelo emprestou. Na manhã seguinte foi ao lago, bebeu e esperou. O veado não veio. Na outra manhã também não, e em nenhuma das manhãs desde então.

Para os mongóis, o pescoço que sobe entre um gole e outro é o camelo conferindo se o veado finalmente aparece na estrada, com os chifres na cabeça, para cumprir o combinado. A espera entrou no jeito de beber e nunca mais saiu.

A lenda não termina com vingança nem com castigo. O veado segue com os chifres, o camelo segue sem eles, e ninguém volta à beira do lago para encerrar a conta. Sobra um animal que organiza o dia em volta de uma promessa vencida.

Por que o camelo tinha chifres, por que confiou no veado, por que o veado nunca voltou e o que o cavalo tem a ver com a perda, a lenda explica a seguir, com as versões que divergem e a que esta edição escolhe.

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I  O Mito

O empréstimo para a festa

A lenda do camelo e do veado vem dos pastores nômades da Mongólia e muda um pouco de família para família. A versão mais conhecida fora do país abre o documentário A História do Camelo que Chora, dirigido por Byambasuren Davaa e Luigi Falorni, lançado em 2003 e indicado ao Oscar de melhor documentário. Na cena inicial, um avô de uma família de criadores de camelo do deserto de Gobi conta aos netos que o primeiro camelo foi criado com chifres e os emprestou ao veado. Em coletâneas russas de contos mongóis, o enredo aparece intitulado “O camelo enganado”.

As versões divergem já no começo. Numa delas, Deus deu os chifres ao camelo como prêmio pela bondade do coração dele. Na das coletâneas russas, o camelo tinha chifres desde sempre, vivia se admirando no reflexo do lago e caçoava do veado, que não tinha nada na testa. A edição segue a primeira, a do camelo generoso, porque nela o empréstimo nasce da confiança.

O pedido veio ao entardecer, na beira da água. O veado tinha sido convidado para uma festa e estava envergonhado de aparecer com a testa pelada. Pediu os chifres emprestados por uma noite e marcou a devolução: na manhã seguinte, no mesmo lago, quando o camelo viesse beber.

O veado pediu os chifres porque tinha vergonha de chegar à festa de testa pelada, e o camelo emprestou porque acreditou na palavra dele. Não houve troca, garantia nem testemunha.

Numa versão em que o veado é um maral, o grande veado da Sibéria, a perda dobra. Logo depois do veado, o cavalo apareceu pedindo o rabo comprido do camelo para a mesma festa. O camelo emprestou de novo.

Na manhã combinada, o camelo foi ao lago, bebeu e passou o dia olhando a estrada. Nenhum dos dois apareceu.

Sobre o motivo do sumiço, as fontes divergem. Na versão das coletâneas russas, o veado até tomou o caminho do lago, mas lobos o perseguiram, e ele escapou para a floresta e ficou por lá. Na versão do maral, o veado cobiçava os chifres, fugiu para a taiga, a floresta fria de pinheiros do norte, e tratou o empréstimo como presente. A edição segue a do maral: o veado não devolveu porque quis os chifres para si.

O cavalo, nessa versão, guardou o rabo e até hoje dispara quando avista um camelo, com medo da cobrança.

O gesto da beira da água também tem dois motivos, conforme quem conta. O primeiro é a estrada: o camelo levanta a cabeça para ver se o veado vem. O segundo está nas coletâneas russas: ao baixar o focinho, o camelo vê na água o próprio reflexo sem chifres, sente vergonha e ergue o pescoço para não olhar.

Todas as versões citadas aqui terminam igual. O veado não volta, os chifres seguem na cabeça dele, e o camelo continua indo ao lago. A lenda não marca data para a devolução nem conta um dia em que o camelo desiste.

 
 

II  O Diagnóstico

O gole interrompido

O padrão do camelo pode ser chamado de espera por devolução. Alguém empresta algo que fazia parte dele, recebe uma promessa com hora e lugar e, quando a hora passa, continua organizando a rotina em volta do retorno.

O chifre pode ser o dinheiro emprestado a um irmão, a promoção prometida para o semestre seguinte, o pedido de desculpas adiado, os anos dados a um sócio que saiu levando os clientes.

A terapeuta de família americana Pauline Boss, professora emérita da Universidade de Minnesota, deu nome a esse tipo de perda no livro Ambiguous Loss (Perda ambígua), de 1999. É a perda sem contorno: o que se foi continua existindo em algum lugar, e o luto fica congelado, porque não há nada a enterrar.

Os chifres do camelo cabem na definição. Eles não sumiram. Estão na cabeça do veado, inteiros, em algum ponto da floresta. O camelo não consegue chorar por eles como quem perdeu, nem usá-los como quem tem.

“Nada acontece, ninguém chega, ninguém parte, é terrível.”

Samuel Beckett, Esperando Godot, 1952 (tradução livre)

A frase é de Estragon, um dos dois vagabundos que passam a peça na beira de uma estrada esperando Godot. Um menino aparece para avisar que Godot não vem hoje, mas virá amanhã. Ele não vem.

O primeiro traço do padrão é o gole interrompido. Quem espera devolução não bebe inteiro. Janta olhando o celular, tira férias conferindo o extrato, começa um projeto novo com metade da cabeça no antigo.

O segundo traço é o reflexo evitado. Na versão russa, o camelo levanta a cabeça também para não ver a própria cara sem chifres. A espera serve de abrigo: enquanto a devolução parece possível, ninguém precisa encarar o rosto de agora.

O terceiro traço é o segundo empréstimo. Na versão do maral, o camelo emprestou o rabo ao cavalo logo depois de emprestar os chifres ao veado, sem ter recebido nada de volta. Quem ainda acredita na primeira promessa costuma aceitar a segunda nas mesmas condições.

O quarto traço é o mais caro: o devedor raramente volta pelo caminho de ida. O veado foi para a floresta, onde camelo não entra. O camelo espera no único ponto onde a devolução não vai acontecer.

O folclore mongol conhece bem esse camelo. Num conto vizinho, ele e o rato disputaram o direito de batizar um ano do calendário, e venceria quem visse o sol primeiro. O camelo ficou a noite inteira de olho no horizonte do leste. O rato subiu na corcova dele, olhou para o oeste e viu antes a luz vermelha batendo nos picos das montanhas.

O rato deu nome ao ano, e o camelo ficou fora do calendário. Desde então, dizem os mongóis, o camelo rola em toda cinza que encontra, como quem ainda tenta esmagar o rival. O pesquisador russo Alexey Burykin, da Academia Russa de Ciências, registrou num artigo de 2020 que a disputa entre o camelo e o rato se espalhou até entre povos que não usam o calendário de animais. Nas duas histórias, o camelo perde olhando fixo para um ponto só.

 

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III  A Saída

Uma cobrança com data

A lenda não devolve os chifres ao camelo. A resposta vem do que o camelo nunca fez: esperou no lugar combinado, todas as manhãs, e jamais foi até a floresta perguntar.

Para quem reconhece a espera por devolução na própria rotina, quatro passos:

1. Escreva o chifre. Ponha no papel o que foi emprestado, para quem, em que data e com qual promessa. Espera sem nome cresce sozinha; espera escrita ganha tamanho e endereço.

2. Cobre uma vez, com data. Mande a quem levou um pedido claro de devolução e um dia para a resposta. Um não por escrito encerra a ambiguidade que o silêncio mantém aberta.

3. Marque o dia da baixa. Escolha uma data no calendário. Passada essa data sem resposta, o empréstimo vira perda registrada, com direito a luto, e sai da conta da espera.

4. Beba inteiro. Separe um momento do dia, uma refeição, uma conversa, uma caminhada, em que a estrada não é conferida. O camelo da lenda perdeu os chifres; quem espera sem prazo perde também o gole.

Uma cobrança feita uma vez, com data, encerra a dúvida que cem manhãs na beira do lago mantêm aberta. O camelo nunca mandou recado à floresta, e o veado nunca precisou responder.

Há também o lado do veado. Quem levou algo emprestado e sumiu na floresta, o livro, o dinheiro, a promessa feita no calor da festa, pode voltar à beira da água e dizer se vai devolver. Um não claro libera o camelo para beber.

O filme de Davaa e Falorni guarda uma última pista. Na mesma primavera em que o avô conta a lenda, uma camela da família rejeita o filhote branco depois de um parto de dois dias. Ninguém fica esperando a mãe mudar de ideia sozinha. Dois meninos atravessam o deserto até a sede do distrito para buscar um músico.

O músico pendura o morin khuur, a rabeca mongol com cabeça de cavalo entalhada no braço, na corcova da camela e depois toca, enquanto uma mulher da família canta. A camela chora e deixa o filhote mamar. O ritual de persuadir a camela é reconhecido pela UNESCO como patrimônio imaterial da Mongólia.

A família contou aos netos a lenda da espera e, diante da perda nova, foi buscar quem resolvia. Os dois gestos cabem na mesma tenda, e o segundo salvou o filhote.

Fica para você: qual chifre seu ainda está na cabeça de alguém que foi para a floresta?

Antes de partir para a festa, na versão das coletâneas russas, quem falou por último na beira do lago foi o veado: “Amanhã de manhã, quando você vier beber, eu devolvo.”

 
 
 

Quiz da edição

Na versão da lenda em que o veado é o maral, qual outro animal apareceu pedindo algo emprestado ao camelo para a mesma festa, e o quê?

AO lobo, pedindo a pata longa
BA raposa, pedindo o rabo peludo
CO cavalo, pedindo o rabo comprido
DO boi, pedindo os chifres curtos

Resultado da última edição: 62% acertaram.

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