|
O padrão do camelo pode ser chamado de espera por devolução. Alguém empresta algo que fazia parte dele, recebe uma promessa com hora e lugar e, quando a hora passa, continua organizando a rotina em volta do retorno.
O chifre pode ser o dinheiro emprestado a um irmão, a promoção prometida para o semestre seguinte, o pedido de desculpas adiado, os anos dados a um sócio que saiu levando os clientes.
A terapeuta de família americana Pauline Boss, professora emérita da Universidade de Minnesota, deu nome a esse tipo de perda no livro Ambiguous Loss (Perda ambígua), de 1999. É a perda sem contorno: o que se foi continua existindo em algum lugar, e o luto fica congelado, porque não há nada a enterrar.
Os chifres do camelo cabem na definição. Eles não sumiram. Estão na cabeça do veado, inteiros, em algum ponto da floresta. O camelo não consegue chorar por eles como quem perdeu, nem usá-los como quem tem.
“Nada acontece, ninguém chega, ninguém parte, é terrível.” Samuel Beckett, Esperando Godot, 1952 (tradução livre) |
A frase é de Estragon, um dos dois vagabundos que passam a peça na beira de uma estrada esperando Godot. Um menino aparece para avisar que Godot não vem hoje, mas virá amanhã. Ele não vem.
O primeiro traço do padrão é o gole interrompido. Quem espera devolução não bebe inteiro. Janta olhando o celular, tira férias conferindo o extrato, começa um projeto novo com metade da cabeça no antigo.
O segundo traço é o reflexo evitado. Na versão russa, o camelo levanta a cabeça também para não ver a própria cara sem chifres. A espera serve de abrigo: enquanto a devolução parece possível, ninguém precisa encarar o rosto de agora.
O terceiro traço é o segundo empréstimo. Na versão do maral, o camelo emprestou o rabo ao cavalo logo depois de emprestar os chifres ao veado, sem ter recebido nada de volta. Quem ainda acredita na primeira promessa costuma aceitar a segunda nas mesmas condições.
O quarto traço é o mais caro: o devedor raramente volta pelo caminho de ida. O veado foi para a floresta, onde camelo não entra. O camelo espera no único ponto onde a devolução não vai acontecer.
O folclore mongol conhece bem esse camelo. Num conto vizinho, ele e o rato disputaram o direito de batizar um ano do calendário, e venceria quem visse o sol primeiro. O camelo ficou a noite inteira de olho no horizonte do leste. O rato subiu na corcova dele, olhou para o oeste e viu antes a luz vermelha batendo nos picos das montanhas.
O rato deu nome ao ano, e o camelo ficou fora do calendário. Desde então, dizem os mongóis, o camelo rola em toda cinza que encontra, como quem ainda tenta esmagar o rival. O pesquisador russo Alexey Burykin, da Academia Russa de Ciências, registrou num artigo de 2020 que a disputa entre o camelo e o rato se espalhou até entre povos que não usam o calendário de animais. Nas duas histórias, o camelo perde olhando fixo para um ponto só.
|