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Da frota que saiu de Troia com doze navios, sobrou um. A tripulação chega arrebentada a uma ilha desconhecida e passa dois dias e duas noites deitada na areia, sem falar, sem cozinhar, sem decidir nada.
No terceiro dia, Odisseu sobe um rochedo e vê uma coluna de fumaça subindo do meio da floresta fechada. Fogo aceso significa gente, e gente pode significar comida ou pode significar armadilha.
Ele divide a tripulação em dois grupos e sorteia num elmo de bronze quem vai subir. A sorte cai sobre Euríloco, que parte com vinte e dois companheiros.
No meio de uma clareira há uma casa de pedra polida, larga demais para o lugar. Em volta dela andam lobos e leões que não atacam: chegam perto, abanam a cauda e se esfregam nos homens como cães de guarda. Todos ali já foram outra coisa.
De dentro vem uma voz cantando. Uma mulher tece num tear grande, trabalho que não se termina depressa. Os homens chamam da porta, ela abre, sorri e convida todos a entrar.
Os vinte e dois entram. Euríloco fica do lado de fora, porque desconfia da armadilha.
Dentro, a anfitriã senta os visitantes e serve queijo, farinha de cevada e mel amarelo dissolvidos em vinho de Pramnos. No fundo da mistura vai a droga. Eles bebem até o fim. Ela levanta a varinha, toca cada um e os empurra para o chiqueiro.
O verso guarda o detalhe que importa. Eles ganham cabeça, voz, cerdas e corpo de porco, mas a mente continua firme como antes. Nada se apaga. Do cercado, cada um reconhece o próprio nome, lembra da taça que aceitou e sabe exatamente onde está.
A anfitriã joga para eles bolota, fruto de faia e baga de corniso, a comida que porco come, servida na hora certa. Muda o cardápio, e muda o lugar de quem come.
Euríloco corre de volta ao navio, chega sem conseguir falar e leva um tempo até contar o que viu. Depois se recusa a subir de novo.
Odisseu vai sozinho. No caminho encontra Hermes em forma de rapaz, que lhe entrega a erva moly, raiz preta e flor branca, difícil de arrancar para mão mortal, e uma instrução: quando a varinha encostar, avançar de espada e exigir o grande juramento antes de aceitar qualquer coisa da casa.
Funciona. A droga não pega, a espada sai, o juramento é feito. Ela passa outro unguento nos porcos, as cerdas caem e os homens voltam a ser homens, mais jovens e mais altos do que antes.
O que vem depois costuma ser esquecido. Livres e com a forma humana de volta, os companheiros ficam um ano inteiro naquela casa, comendo carne e bebendo vinho, até um deles puxar Odisseu de lado e falar da terra natal.
A cena está no canto X da Odisseia, poema atribuído a Homero e fixado por escrito na Grécia arcaica por volta do século 8 a.C. O detalhe que quase ninguém guarda não é a varinha nem o unguento: é a linha que diz que a mente deles permaneceu intacta.
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