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O neto que chorou até o mundo ter luz
O chefe do rio Nass guardava sol, lua e estrelas em caixas de cedro, e só abria as tampas para quem chorasse até ele ceder
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Corvo sai com a caixa do sol no bico
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A água da caneca de chifre estava fria o bastante para doer no dente, e a moça bebeu tudo de uma vez. Uma agulha de pinheiro tinha ficado presa na borda. Ela cuspiu, encheu de novo, bebeu de novo. A agulha voltou. Na terceira vez ela engoliu, sentiu o arranhão descer pela garganta e não contou para ninguém.
O mundo em volta daquela casa não tinha luz nenhuma. Nem estrela, nem lua, nem sol. As pessoas pescavam no escuro, remavam no escuro e se reconheciam pela voz. A luz existia, e existia perto: cabia em caixas de cedro entalhado, empilhadas no canto da casa grande de um chefe que morava na cabeceira do rio Nass, no território que hoje fica entre o Alasca e a Colúmbia Britânica.
Aquele chefe não vendia luz e não emprestava luz. Guardava porque podia guardar. Quem quisesse ver o próprio rosto teria que entrar na casa dele, e ninguém entrava ali.
O Corvo tentou pela força e não conseguiu. A casa tinha paredes de tábua de cedro, guardas na porta e um dono que nunca dormia sozinho. Então ele trocou de estratégia e fez a jogada que grudou o nome dele em toda a costa noroeste: parou de tentar tomar e passou a tentar nascer ali dentro.
O que vem depois costuma ser contado como esperteza pura, o trapaceiro vencendo o poderoso. A parte incômoda quase nunca aparece no resumo. Para sair com as caixas, o Corvo precisou de um instrumento só, repetido três vezes, e o instrumento não foi bico, nem asa, nem discurso: foi choro de criança. Ele se enfiou num corpo que não podia ser contrariado e usou o único idioma que aquele corpo dominava.
O mito guarda aí um retrato de gente adulta que a gente conhece de perto. Existe quem consiga quase tudo que quer, e consiga sempre pelo mesmo caminho: adoecendo um pouco, ficando quieto de um jeito barulhento, deixando o queixo tremer na hora certa. A luz sai da caixa. O pedido nunca chega a ser dito.
A história começa com uma moça, uma caneca de água e um pai que achava que estava protegendo a família.
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I O Mito
A agulha de pinheiro no fundo da caneca
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Yéil, o Corvo dos tlingit da costa noroeste da América do Norte, é a figura que arruma o mundo mexendo no que os outros guardam. John Swanton, etnógrafo do Bureau of American Ethnology, recolheu as versões desta história em Sitka e em Wrangell e publicou o conjunto em Tlingit Myths and Texts, de 1909. É de lá que vem o roteiro que esta edição segue.
O motivo do roubo está dito sem rodeio nos registros. O mundo estava escuro porque um chefe rico guardava a luz dentro de caixas de cedro na própria casa, e o Corvo queria o mundo iluminado para poder enxergar comida, rio e caminho. Fome e visão andam juntas no personagem: ele não busca a luz por beleza, busca porque no escuro não dá para achar peixe.
O chefe tinha uma filha única e a mantinha vigiada dia e noite. Swanton registra que duas escravas cuidavam dela e buscavam a água. O Corvo achou o ponto fraco: a moça bebia água do rio, e quem carregava a água não examinava o fundo do vasilhame.
Ele virou uma agulha de pinheiro e se deixou boiar. A moça cuspiu a primeira, cuspiu a segunda, engoliu a terceira. Engravidou daquele gole. A casa comemorou o nascimento do menino sem desconfiar de nada, porque a criança tinha bico pequeno de bebê, dois olhos escuros e o avô inteiro na palma da mão.
Nenhuma porta se abriu para o Corvo naquela casa: ele entrou pela boca da própria filha do dono, na forma mais indefesa que conseguiu tomar.
O menino cresceu rápido e começou a chorar. Chorava apontando para o canto onde as caixas estavam empilhadas. O avô mandou entregar a menor, a das estrelas. A criança brincou com ela pelo chão, abriu a tampa e as estrelas subiram pelo buraco de fumaça do teto e ficaram grudadas no céu.
Depois o choro voltou, agora pela caixa do meio, a da lua. O avô hesitou e cedeu pelo motivo que a narrativa repete: ele amava o neto e não suportava vê-lo chorar. A lua rolou até a porta e saiu pelo mesmo buraco de fumaça.
"Deem ao meu netinho aquilo por que ele está chorando." > John Swanton, Tlingit Myths and Texts, 1909 |
Faltava a caixa grande, a do sol, guardada no fundo da casa. O choro pela terceira caixa durou mais que os outros dois, e o avô entregou. Assim que teve a caixa nas mãos, o menino virou Corvo outra vez, abriu as asas e saiu pelo buraco do teto com o sol no bico.
As fontes divergem num ponto e vale dizer qual. Nos relatos haida vizinhos, recolhidos pelo mesmo Swanton em 1905, a luz vem num saco ou numa caixa só, e o Corvo escapa sujo de fuligem, que explica a pena preta. Nos relatos tlingit de Sitka são três caixas, na ordem estrelas, lua e sol. Esta edição segue a versão tlingit das três caixas, porque o número de tentativas é justamente o que interessa no diagnóstico.
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II O Diagnóstico
Quem só sabe pedir chorando
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O núcleo arquetípico aqui é a conquista por desamparo: o sujeito consegue o que quer tomando a forma de quem não pode ser contrariado, e nunca precisa formular o pedido em palavras.
O primeiro traço é a escolha do corpo. O Corvo não virou guerreiro, nem hóspede ilustre, nem comerciante com proposta. Virou bebê. Só nessa posição da casa o choro funciona como argumento completo, sem precisar de explicação, sem precisar de contrapartida e sem precisar de nome.
O segundo traço é o alvo escolhido. O choro foi usado diante do avô, alguém que amava a criança e tinha poder de abrir as caixas. Desamparo não funciona em qualquer plateia: funciona em quem ama, em quem se sente responsável e em quem tem a chave. O adulto que aprendeu essa jogada sabe exatamente para quem chorar, e escolhe sempre a mesma pessoa.
O terceiro traço é a escalada. Primeiro as estrelas, depois a lua, por último o sol. Cada tampa aberta ensinou ao menino que o método funcionava e ensinou ao avô que ceder acalmava a casa. A caixa pequena treinou os dois para a caixa grande. Método que dá certo uma vez vira o único método na terceira.
O quarto traço é o silêncio sobre o motivo real. Ninguém naquela casa ouviu o Corvo dizer que queria luz no mundo para achar comida. O avô entregou o sol achando que consolava um neto inquieto. Pedido convertido em choro chega sem conteúdo: o outro entrega algo para a cena parar, e continua sem saber o que foi pedido.
O quinto traço é o preço para quem cedeu. O chefe ficou sem a luz, sem o neto e sem a explicação. A narrativa tlingit não o pinta como vilão nem como tolo, o pinta como um homem que amava e foi lido por dentro. Quem convive com alguém que pede chorando costuma terminar exatamente assim: doou, não entendeu o que doou e percebeu tarde.
A tradução para hoje é desconfortável porque ela quase nunca aparece em pessoa má. O adulto que usa desamparo como idioma raramente está mentindo: a dor de cabeça é real, o cansaço é real, a voz embargada no telefone é real. Só que o corpo aprendeu o que acontece quando ele fica assim: a caixa abre. Aprendizado montado numa infância em que pedir direto dava briga e adoecer dava colo.
O padrão tem um sintoma fácil de reconhecer. A pessoa consegue muito e agradece pouco, porque agradecer exigiria admitir que houve um pedido. Do outro lado fica alguém generoso e cada vez mais cansado, pagando uma conta que nunca foi apresentada.
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