|
|
A fruta que Cuniraya deixou embaixo da lucma
Como um deus disfarçado de mendigo fez Cavillaca conceber sem toque, e por que ela correu pro mar quando o filho apontou o pai
|
Cavillaca tece sob a lucma em Anchicocha
|
| ▼ |
|
A lucma cai madura sem aviso. A casca continua verde quando a polpa por dentro já está cor de gema, seca na língua, doce como farinha de milho torrada. Quem passa debaixo da árvore pisa na fruta antes de enxergar, e o cheiro açucarado sobe do chão junto com a poeira do vale.
Toda relação que começa escondida cobra o preço no dia em que a origem aparece. Nunca no começo, quando o disfarce funciona bem e ninguém faz pergunta. A cobrança vence depois, quando já existe um filho, um contrato, uma casa, uma sociedade, e alguém precisa dizer de onde aquilo veio.
Quem se esconde costuma ter uma explicação razoável para o disfarce: não seria aceito com a cara verdadeira, o outro julgaria pela roupa, pela conta bancária, pelo sobrenome da família. A lógica se sustenta e o resultado se repete. O disfarce entrega o começo do vínculo e cobra o fim dele, porque o dia da retirada da máscara chega sozinho, sem ser marcado.
Existe um erro simétrico do outro lado, e ele é mais silencioso. Quem varre uma sala procurando o mais bem vestido para escolher usa exatamente o critério do disfarçado, só que de fora para dentro. Os dois tratam a aparência como informação confiável sobre a pessoa, e os dois erram no mesmo instante: um confia que a roupa esconde, o outro confia que a roupa revela.
Num vale alto dos Andes centrais, uma tecelã e um deus esfarrapado encenaram os dois erros no mesmo dia, diante de uma assembleia inteira convocada para resolver a questão. O episódio ficou registrado no Manuscrito de Huarochirí, recolhido por volta de 1608 pelo padre Francisco de Ávila, o único texto do período colonial escrito em quíchua em que os povos daquela serra contam de dentro o que diziam sobre os próprios deuses.
O que a assembleia decidiu naquela tarde ainda pode ser visto: duas rochas em frente ao santuário de Pachacámac, no litoral onde o vale desce e encontra o Pacífico.
Continue lendo ↓
|
|
I O Mito
A fruta caída ao pé da lucma
|
|
Cavillaca tecia sentada à sombra de uma lucma, em Anchicocha. Era uma huaca jovem, e todos os huacas machos da região a queriam. Ela recusava um por um, sem exceção, e voltava para o fuso e para a lã tingida.
Cuniraya Viracocha andava por aquela serra vestido de trapos, com a roupa rasgada nos ombros e os cabelos sujos. Os outros huacas o chamavam de piolhento e o deixavam sentado na ponta das rodas, quando o deixavam sentar. Debaixo daqueles trapos estava o deus que ensinou aos homens a abrir os canais de irrigação e a fazer os terraços de cultivo nas encostas.
Ele quis Cavillaca e sabia que seria recusado como todos os outros, e recusado com nojo, por causa da roupa. Então virou pássaro, subiu na lucma sob a qual ela trabalhava, colocou o próprio sêmen dentro de uma fruta madura e deixou a lucma cair perto do fuso dela.
Cavillaca viu a fruta caída, achou bonita, comeu com gosto e concebeu sem que ninguém a tivesse tocado. Nove meses depois nasceu um menino, e ela o criou sozinha por um ano inteiro, amamentando e carregando nas costas enquanto tecia.
Quando a criança completou um ano e começou a engatinhar, Cavillaca mandou chamar todos os huacas da região. Queria ouvir o pai se declarar em voz alta, diante de testemunhas. Eles vieram de longe, vestidos com o melhor que tinham, mantos finos, metal polido, penas de aves da montanha, cada um esperando ser apontado. Cuniraya veio também, com os mesmos trapos, e sentou na última posição da roda.
Cavillaca perguntou quem era o pai. Ninguém se declarou. Perguntou de novo e o silêncio continuou. Então colocou a criança no chão e disse que o filho iria sozinho até quem o gerou.
O menino atravessou a roda inteira de mantos e metal, passou por todos os pretendentes vestidos a rigor e subiu no colo do mendigo sentado na ponta.
"Irmã Cavillaca, olha para cá, agora estou formoso." > Manuscrito de Huarochirí, capítulo 2, c. 1608 |
Cavillaca sentiu vergonha diante da assembleia toda. Pegou o filho no colo e saiu correndo em direção ao mar, sem olhar para trás. Cuniraya vestiu então uma roupa de ouro que iluminou a roda inteira e correu atrás dela gritando que olhasse, que agora ele estava belo. Ela não virou o rosto uma única vez, porque tinha visto o esfarrapado primeiro e a ordem daquela visão pesava mais que o ouro.
Correu até o litoral de Pachacámac e entrou no mar com a criança nos braços. Mãe e filho viraram pedra, e as duas rochas continuam de pé em frente ao santuário, olhando para o oeste. Cuniraya seguiu pela costa perguntando por ela a cada animal do caminho, abençoando os que davam notícia boa e amaldiçoando os que davam notícia ruim, e chegou à praia quando já não havia mais nada a fazer.
|
|
II O Diagnóstico
O disfarce cobra no dia em que o filho aponta
|
|
O núcleo arquetípico aqui é a origem escondida que só aparece com o vínculo pronto, o arranjo em que alguém constrói uma ligação verdadeira a partir de um começo falsificado e descobre, tarde, que a ligação não sobrevive à revelação do começo.
O primeiro traço é o cálculo de quem se disfarça. Cuniraya não mentiu por prazer. Ele mediu a situação corretamente: seria recusado de cara, como todos os outros, e ainda com desprezo pela roupa. O disfarce foi a resposta racional a uma recusa provável. E é justamente por ser racional que o mesmo movimento se repete tanto, em currículo inflado, em foto de perfil de dez anos atrás, em sócio que esconde a dívida até a assinatura.
O segundo traço é a qualidade do que nasce do engano. A criança era real. O ano de cuidado foi real. Nada do que Cavillaca viveu com aquele filho foi falso, e mesmo assim tudo desabou em um minuto. Vínculo construído sobre origem escondida não desmorona por ser fraco, desmorona porque a informação que faltava reorganiza o passado inteiro de quem foi enganado.
O terceiro traço é a assembleia. Cavillaca reuniu todos os huacas vestidos com o melhor e esperou que o pai se declarasse pela boca. Ela procurava entre os bem vestidos e nem considerou o esfarrapado sentado na ponta, apesar de ele estar ali, presente, na sala. O critério dela era o mesmo critério que fez Cuniraya se disfarçar, visto do outro lado.
O quarto traço é o juiz que ela mesma escolheu. Ao soltar a criança no chão, Cavillaca entregou a decisão a quem não sabe ler roupa. O menino de um ano foi o único participante da cena imune ao manto e ao metal polido, e por isso acertou na primeira tentativa. Quando o resultado veio, ela recusou o veredicto do juiz que ela própria tinha nomeado.
O quinto traço é o custo da vergonha. O que fez Cavillaca correr para o mar não foi a pobreza de Cuniraya, foi a plateia. Ela recusou o pai do filho na frente de todos os que ela havia rejeitado antes, e a conta pesou mais que o vínculo com a criança. Vergonha diante de terceiros costuma cobrar mais caro que o problema que a provocou.
O sexto traço é o ouro que chegou tarde. Cuniraya trocou de roupa depois da recusa, não antes. Correu atrás gritando que agora estava bonito, e o brilho não valeu nada, porque quem se revela apenas quando a máscara já falhou está admitindo que a máscara era a estratégia. Revelação por escolha vale tudo; revelação por colapso do disfarce vale zero.
A tradução para hoje dispensa vale andino. É o candidato que aumenta o cargo do currículo e passa dois anos com medo da checagem. É o sócio que só mostra o passivo real quando o banco recusa o crédito.
|
|