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Siracusa, primeira metade do século 4 a.C. A cidade mais rica da Sicília grega é governada por Dionísio, que tomou o poder aos vinte e cinco anos e o manteve por trinta e oito.
Cícero, que registra a cena, começa pelo custo do cargo, não pelo brilho. O quarto do soberano é cercado por um fosso largo, atravessado por uma pontezinha de madeira que ele mesmo recolhe antes de dormir.
Barbeiro não entra. Dionísio ensinou as próprias filhas a aparar sua barba e, quando elas cresceram, tirou a lâmina das mãos delas: passou a mandar que queimassem os pelos com casca de noz em brasa.
Tem frota, tropas, tesouro e palácios. Tem também um cuidado permanente com quem se aproxima da sala.
Um homem da corte, Dâmocles, faz em voz alta a conta que qualquer um faria de fora. Diz que nunca existiu ninguém mais afortunado, e enumera as tropas, os recursos, a grandeza do domínio, a abundância das coisas régias, os palácios.
Dionísio ouve até o fim e responde com uma oferta que ninguém na sala esperava. Já que essa vida te agrada tanto, quer experimentá-la e conhecer a minha sorte por dentro? Dâmocles aceita na hora.
O tirano manda deitá-lo num leito de ouro coberto por tapeçarias bordadas. Ao redor, aparadores com prata cinzelada e ouro trabalhado. Servos escolhidos entre os mais bonitos ficam de pé, atentos a um gesto de mão.
Sobem perfumes, guirlandas e incenso queimando. As mesas chegam carregadas. Dâmocles se acha, com razão, um homem de sorte: está no lugar que descreveu com inveja poucas horas antes, e o lugar entrega exatamente o que ele imaginava.
No meio do banquete, Dionísio manda descer do teto uma espada reluzente. Ela vem presa por uma única crina de cavalo, com a ponta virada para baixo, parada no ar sobre o pescoço do convidado.
O jantar muda de natureza sem que nada aconteça. Dâmocles para de olhar para os servos. Para de olhar para a prata. As guirlandas escorregam da cabeça e ninguém as recoloca.
Ele não estende mais a mão para a comida. Fica com os olhos presos num ponto do teto, medindo a espessura de um fio de crina.
No fim, pede licença ao anfitrião. Não quer mais ser afortunado, quer voltar para o próprio lugar. O banquete continua inteiro na mesa, intocado, enquanto ele sai.
A cena está nas Tusculanas, livro V, escritas por Cícero em 45 a.C. Ele não conta a história como aviso contra ambição. Conta como demonstração de uma tese: nada é feliz para quem tem algum terror sempre pendurado sobre a cabeça.
Horácio retoma a imagem poucas décadas depois, nas Odes, ao falar da espada nua que pende sobre a nuca do siciliano. Nem o banquete mais caro tem gosto para quem come embaixo dela.
O detalhe que quase ninguém guarda não é a espada. É de quem era a cadeira. Aquela espada não foi fabricada para Dâmocles: ela já estava lá, todos os dias, sobre Dionísio. Naquela noite apenas ficou visível.
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