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Dédalo era ateniense e tinha a reputação de melhor artesão vivo. Fazia estátuas que pareciam prestes a andar e resolvia problemas de engenharia que ninguém sabia sequer formular.
A carreira em Atenas termina mal. Ele recebe como aprendiz o próprio sobrinho, um garoto que inventa a serra observando a espinha de um peixe e o compasso amarrando duas hastes de ferro. O mestre entende que está treinando quem vai superá-lo e empurra o rapaz do alto da Acrópole.
Condenado pelo Areópago, Dédalo foge para Creta. Chega à corte do rei Minos como estrangeiro sem cidade, sem patrimônio e sem proteção, carregando a única coisa que sobrou intacta: a cabeça que projeta o que os outros não conseguem.
A primeira encomenda estranha não vem do rei, vem da rainha. Pasífae, tomada por um desejo enviado como castigo dos deuses, pede a Dédalo uma vaca de madeira oca, revestida de couro, na qual ela possa se esconder para se aproximar do touro branco que Poseidon havia mandado para a ilha.
Do encontro nasce o Minotauro, criatura com corpo de homem e cabeça de touro, impossível de exibir e impossível de eliminar. Minos precisa esconder a vergonha da própria casa e chama o mesmo homem que ajudou a criá-la.
A encomenda seguinte é o labirinto. Ovídio conta nas Metamorfoses, obra de cerca de 8 d.C., que Dédalo confundiu de tal modo os caminhos que ele mesmo, ao terminar, mal conseguiu voltar até a entrada. O prédio foi projetado para ser incompreensível.
E aqui está o detalhe que a maioria das versões passa rápido. A planta não existia em nenhum arquivo do palácio. O mapa do labirinto morava dentro da cabeça de um homem só, e Minos sabia disso desde o primeiro dia de obra.
Com a construção pronta, o rei faz a conta óbvia de qualquer soberano. Se o arquiteto sair de Creta, ele leva consigo o segredo do prédio, a história da vaca de madeira e a possibilidade de construir uma máquina igual para um reino rival.
A ordem é simples e não precisa de julgamento. Dédalo fica na ilha, e Ícaro, o filho pequeno, fica com ele. O que prende o arquiteto não é a pedra da cela, é a competência: ele é valioso demais para ser solto e sabe demais para ser dispensado.
A fuga final também é obra de engenharia. Dédalo junta penas de aves, prende as maiores com linha, as menores com cera, e monta dois pares de asas. Ovídio resume a lógica numa frase: que Minos possua tudo, o ar ele não possui.
O pai avisa o filho para voar no meio, longe do mar que encharca as penas e longe do sol que derrete a cera. Ícaro sobe além do combinado, a cera cede e o menino cai na água. Dédalo chega à Sicília sozinho, livre pela primeira vez em muitos anos, e com o preço da liberdade cobrado à vista.
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