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Esta pauta venceu a urna de 25/09.
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Enlil, a insônia e as três pragas contra os homens
Incomodado com o clamor humano, o deus mandou peste, seca e dilúvio, cada resposta maior que a anterior
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Enlil insone sobre as cidades da Mesopotâmia
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A casa de Enlil ficava no alto de Nippur, e à noite ela devia ser silenciosa. Não era. Das cidades embaixo subia um clamor contínuo: martelos, rebanhos, crianças, mercados, bois mugindo nos currais, gente cantando nos telhados.
O deus virava de um lado para o outro na cama. O poema compara a terra daquela época a um touro que berra sem parar. Enlil, senhor do vento e dono das decisões do céu, tinha posto ordem no mundo e agora não conseguia fechar os olhos dentro dela.
Ele não desceu para ver o que acontecia. Não perguntou o motivo do barulho. Chamou os conselheiros e deu uma ordem curta: que viesse a peste.
A doença entrou nas aldeias. Os homens adoeceram, e por um tempo a noite ficou quieta. Depois a humanidade se recuperou, voltou a crescer, e o clamor subiu de novo até o quarto do deus.
Enlil respondeu com mais força. Mandou fechar a chuva. Os campos secaram, o trigo não brotou, as famílias passaram fome. Quando nem a fome resolveu, ele reuniu a assembleia dos deuses e pediu a arma mais pesada que existia: a água que cobre tudo.
Três respostas, cada uma maior que a anterior. Nenhuma delas tentou entender o que fazia barulho. Todas tentaram calar. Nenhuma perguntou quem estava do lado de fora da porta, nem por quê.
Um detalhe muda a leitura inteira. O deus que queria dormir tinha aprovado, muito antes, a criação dos homens para ter quem trabalhasse no lugar dos deuses. O barulho que o incomodava era o som do serviço que ele próprio aceitou receber.
E um homem, avisado em segredo, atravessou as três investidas. A primeira seção conta quem escreveu esse poema, por que os humanos foram criados e como um sábio chamado Atrahasis escapou da peste, da seca e do dilúvio.
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I O Mito
A tabuleta de Sippar e as três pragas
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O relato é o Poema de Atrahasis, epopeia babilônica cuja cópia mais completa foi feita por um escriba chamado Ipiq-Aya, na cidade de Sippar, por volta de 1635 a.C. Os assiriólogos Wilfred Lambert e Alan Millard publicaram a edição de referência em 1969, pela Universidade de Oxford. O protagonista humano é Atrahasis, nome que em acádio (a língua da Babilônia) significa "extremamente sábio".
O poema começa antes dos homens. Os deuses menores, os Igigi (os deuses do céu que serviam aos maiores), cavavam canais e carregavam terra para os grandes deuses. Cansados, queimaram as ferramentas e cercaram a casa de Enlil durante a noite. O motivo da revolta está no texto: o trabalho era pesado demais e não tinha fim.
Enki, deus das águas doces e da astúcia, propôs a solução. A deusa-mãe Mami moldou os primeiros humanos com argila misturada à carne e ao sangue de um deus sacrificado, We-ila. Os humanos nasceram para carregar o cesto dos deuses. A revolta acabou porque alguém passou a fazer o serviço.
Aqui começa o primeiro ato do castigo, e o texto dá o motivo. Passaram-se seiscentos anos, depois outros seiscentos, a terra se alargou e o povo se multiplicou. Enlil ouviu o clamor, em acádio rigmu (grito, alvoroço), e reclamou aos deuses que tinha perdido o sono.
"O barulho da humanidade ficou pesado demais para mim. Por causa do seu alvoroço, perco o sono." Poema de Atrahasis, tabuleta I, cópia de Ipiq-Aya, c. 1635 a.C. |
Enlil mandou a peste pelas mãos de Namtar, o deus da doença. Enki avisou Atrahasis: que o povo parasse de rezar aos próprios deuses e levasse pão apenas ao templo de Namtar. Envergonhado pelas oferendas, Namtar recolheu a mão. A peste parou.
O segundo ato tem o motivo repetido, porque o barulho voltou. Enlil ordenou a Adad, deus da tempestade, que segurasse a chuva, e fechou a água que sobe do fundo da terra. O povo passou fome por anos. Enki repetiu a manobra, agora com Adad, e a chuva caiu escondida numa madrugada.
Cada vez que a humanidade sobrevivia, Enlil não revia o diagnóstico; aumentava a dose.
O terceiro ato é o dilúvio, e o motivo segue igual: o clamor tinha voltado. Enlil fez os deuses jurarem que ninguém avisaria os homens. Enki cumpriu o juramento pela letra: falou com a parede de caniço da casa de Atrahasis, e o homem, escutando atrás dela, construiu um barco e embarcou a família e os animais. A água caiu por sete dias e sete noites.
Sem humanos, os deuses ficaram sem oferendas e passaram fome e sede. Quando Atrahasis saiu do barco e fez um sacrifício, eles se juntaram em volta do cheiro como moscas. Enlil se enfureceu com o sobrevivente, mas aceitou um acordo proposto por Enki: em vez de destruir, limitar. O poema cria mulheres estéreis, um demônio que leva recém-nascidos e sacerdotisas proibidas de ter filhos.
Os estudiosos divergem sobre o que o barulho significa. A assirióloga Anne Draffkorn Kilmer, em artigo de 1972 na revista Orientalia, leu o clamor como superpopulação, por causa do acordo final. Outros leem nele um eco da revolta dos Igigi, um tumulto de trabalhadores. Esta edição usa a leitura mais literal: um deus incomodado com o som de gente vivendo, que respondeu sempre com mais força.
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II O Diagnóstico
Quem aumenta a força para calar
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O núcleo arquetípico é a escalada como resposta ao incômodo: quem se sente perturbado não pergunta de onde vem o barulho, só aumenta a força até ele parar.
O primeiro traço é a falta de pergunta. Enlil nunca desceu às cidades. Nunca quis saber por que o povo fazia barulho: se era festa, trabalho, doença ou fome. Tratou o som como ofensa, quando ele era sinal de vida.
O segundo traço é a memória curta sobre a origem do problema. Os humanos existiam para acabar com a greve dos Igigi. O barulho que tirava o sono de Enlil era o som do trabalho que o livrava da revolta. Quem esquece por que trouxe alguém para perto passa a ver só o incômodo que essa presença causa.
O terceiro traço é a escada. Peste, depois seca, depois dilúvio. Cada falha não fez Enlil trocar de método; fez trocar de tamanho. A lógica é conhecida: se não funcionou, faltou força. A hipótese de que a resposta estava errada nunca entra na sala.
Marco Aurélio, imperador romano que escrevia notas para si mesmo durante as campanhas militares, deixou a frase que resume a escada.
"Quanto mais dolorosas são as consequências da ira do que as causas dela." Marco Aurélio, Meditações, livro XI, c. 175 d.C. |
O quarto traço é o custo que volta para quem escalou. No dilúvio, os deuses ficaram sem pão e sem cerveja das oferendas. A deusa-mãe chorou os filhos afogados. A força máxima, aplicada contra o incômodo, atingiu também quem a aplicou.
O quinto traço é a saída que só aparece tarde. O acordo final entre Enlil e Enki, limitar em vez de destruir, estava disponível desde a primeira noite de insônia. Foram precisos três desastres para alguém propor uma medida proporcional.
A tradução para hoje é doméstica. É o vizinho que começa com um bilhete, passa para a síndica e termina na delegacia por causa de um cachorro que late. É o pai que tira o videogame, depois o celular, depois a saída de sábado, sem perguntar por que o filho está gritando. É o chefe que responde à reclamação da equipe com mais controle, depois com mais cobrança, depois com demissão.
O sinal de alerta é simples. Pense na sua última irritação que durou semanas. Se a segunda resposta foi a primeira com mais força, e a terceira foi a segunda com mais força, você está subindo a escada de Enlil.
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