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Agamêmnon volta de Troia depois de dez anos e é recebido em Argos com tapete estendido. Dentro do palácio quem o espera é Clitemnestra, a esposa, que nunca esqueceu o preço cobrado dela em Áulis: a filha Ifigênia entregue no altar para que os ventos soprassem e a frota partisse.
A conta dela fecha naquele dia. E no mesmo movimento abre outra, no nome do filho.
Orestes cresceu longe de Argos. Adulto, procura o oráculo de Delfos, e Apolo não deixa margem: ele deve cobrar o preço do pai, sob pena de doença, exílio e ruína. Volta com o amigo Pílades e cumpre a ordem dentro do palácio.
A tranquilidade dura um minuto: a dívida do pai está paga e o oráculo está satisfeito. Logo depois, Orestes começa a ver mulheres de preto, com serpentes no cabelo e sangue escorrendo dos olhos, formando um círculo em volta dele. Ele aponta, descreve, pede que os outros olhem. Ninguém mais enxerga nada. O coro acha que ele está delirando.
São as Erínias, filhas da Noite na versão de Ésquilo, cobradoras de uma dívida específica: sangue derramado dentro da própria família. Elas não julgam e não sentenciam. Elas seguem.
Orestes foge para Delfos e se abraça ao altar. Apolo faz o rito de purificação com sangue de porco, procedimento padrão da Grécia para lavar a mancha do culpado. As Erínias adormecem no chão do templo.
Não dormem por muito tempo. O fantasma de Clitemnestra entra no santuário e as acorda com uma queixa de credor: vocês dormem, e eu ando sem honra entre os mortos. Elas retomam a caçada de onde pararam.
Apolo expulsa as Erínias do santuário e não encerra o caso. O rito lavou a mancha ritual e não tocou na obrigação com a parte lesada. Orestes atravessa a Grécia com a matilha atrás.
A perseguição termina em Atenas, e não por cansaço. Orestes se agarra à antiga estátua de madeira de Atena, e as Erínias cercam o templo apresentando a acusação em voz alta.
Atena escuta os dois lados e recusa julgar sozinha. Institui um tribunal na colina de Ares, o Areópago, convoca cidadãos como juízes e transforma a perseguição privada em processo público.
Apolo defende. As Erínias acusam. A contagem dos votos dá empate, e Atena desempata pela absolvição, deixando o tribunal instalado para sempre na cidade.
As Erínias explodem e prometem despejar veneno sobre a terra da Ática. Atena não as expulsa nem as destrói: oferece um contrato, com morada permanente sob a terra de Atenas, santuário próprio, a primeira parte dos sacrifícios e honra fixa em todo casamento e em todo nascimento da cidade.
Elas aceitam. E mudam de nome. Passam a se chamar Eumênides, as Benevolentes, e descem escoltadas por uma procissão de tochas e mantos vermelhos.
A cena está na Oresteia, trilogia de Ésquilo encenada nas Grandes Dionísias de 458 a.C., e ocupa a peça final, Eumênides. O que encerra a caçada não é o perdão de um deus, é um acerto público com quem tinha o que cobrar.
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