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Marpessa trocou Apolo pelo mortal que envelheceria com ela

Zeus pôs a filha de Eueno entre um deus e um arqueiro, e ela escolheu olhando para a velhice

Marpessa entre Apolo e o arqueiro Idas, sob o raio de Zeus

Marpessa entre Apolo e Idas, diante de Zeus

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O eixo do carro rangia contra a pedra, e os cavalos alados bufavam vapor quente na margem do rio. Idas segurava as rédeas com uma mão e o arco com a outra.

Atrás dele, no banco do carro, vinha Marpessa, filha de Eueno, rei da Etólia, região da Grécia central. Idas a tinha levado da casa do pai sem pedir licença a ninguém. O carro era presente de Poseidon, deus do mar, e corria mais rápido do que qualquer perseguidor.

Eueno tentou alcançar os dois e não conseguiu. Quando entendeu que tinha perdido a filha, sacrificou os próprios cavalos e se jogou no rio Licormas. O rio herdou o nome dele: Eueno.

O carro chegou a Messene, no sudoeste do Peloponeso, a terra de Idas. Ali esperava um rival que nenhum mortal enfrentaria com juízo: Apolo, deus da luz, da música e do arco, que também queria Marpessa.

Idas não largou a moça. Puxou a corda do arco contra o deus. Homero, na Ilíada, chama esse homem de o mais forte entre os que pisavam a terra justamente por esse gesto: ter mirado em Apolo por causa de uma mulher.

A luta não chegou a acontecer. Zeus, rei dos deuses, mandou um raio entre os dois e separou o arqueiro do deus. Depois deu a palavra a quem ninguém tinha consultado até ali: a própria Marpessa. Ela escolheria com quem ficar.

De um lado, um deus que não envelhece, dono da lira e do sol. Do outro, um homem que ia ficar grisalho, perder a força do braço e um dia descer ao reino dos mortos. A oferta parecia decidida antes da pergunta.

Marpessa escolheu Idas. E teve uma razão curta, que ainda serve de lição para quem escolhe hoje.

O motivo dessa escolha, o caminho até o raio e o que aconteceu depois com o casal estão no mito, contado a partir do rapto.

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I  O Mito

O raio entre o deus e o arqueiro

A história de Marpessa e Idas aparece inteira na Biblioteca, um resumo dos mitos gregos atribuído a Apolodoro e escrito entre os séculos I e II depois de Cristo. O trecho fica no primeiro livro, capítulo 7, parágrafos 8 e 9. É a versão que esta edição segue.

Idas era filho de Afareu, rei de Messene. Algumas fontes dizem que o pai de sangue era Poseidon, o que explica o carro alado. Tinha um irmão, Linceu, famoso por enxergar através da terra e das pedras. Os dois formavam a dupla mais temida do Peloponeso.

Eueno, o pai de Marpessa, era filho de Ares, deus da guerra. Segundo outros autores tardios, ele desafiava cada pretendente da filha para uma corrida de carros e pendurava a cabeça dos vencidos na parede de casa. Idas não disputou a corrida. Levou a moça antes.

O motivo do rapto, na Biblioteca, é só o desejo de tê-la. O motivo da perseguição é a honra do pai. O motivo de Eueno se lançar ao rio é a vergonha de voltar sem a filha: ele preferiu desaparecer a encarar a derrota.

Apolo entra na história porque também cortejava Marpessa. A Biblioteca diz que o deus encontrou Idas em Messene e tentou tomar a moça dele. Idas reagiu com o arco, e foi esse confronto que Zeus interrompeu.

Zeus separou os dois porque nenhum deles ia ceder, e deixou a decisão com Marpessa. O texto não diz por que o rei dos deuses quis ouvi-la. A leitura comum é que só a escolha dela acabaria a briga sem um deus ferir um mortal favorito de Poseidon.

O motivo de Marpessa está no mesmo parágrafo de Apolodoro. Ela escolheu Idas por temer que Apolo a abandonasse quando ela envelhecesse. O deus continuaria jovem para sempre; ela não. O amor de um imortal por uma mortal tinha prazo, e o prazo era a primeira ruga.

As fontes divergem num ponto. Na Ilíada, canto 9, Homero conta que Apolo chegou a levar Marpessa e que ela chorou como a alcíone, o martim-pescador da lenda grega, ave do lamento. Daí a filha do casal recebeu o apelido de Alcíone. Homero não fala da escolha. A edição usa Apolodoro porque só ele registra a decisão e o motivo.

O desfecho é conhecido. Marpessa viveu com Idas em Messene e teve com ele a filha Cleópatra, que casou com o herói Meléagro. Anos depois, Idas e Linceu brigaram com os gêmeos Castor e Pólux por um rebanho de gado, e os dois irmãos caíram na luta. O viajante Pausânias, na Descrição da Grécia, do século II, registra que Marpessa não quis seguir viva sem o marido.

 
 

II  O Diagnóstico

A oferta medida pelo primeiro dia

O padrão que Marpessa evitou pode ser chamado de escolha pela vitrine. A pessoa compara as ofertas como elas aparecem no começo, brilho contra brilho, e não pergunta como cada uma costuma terminar.

Pela vitrine, Apolo vencia sem esforço. Era bonito, eterno, tocava lira, guiava o sol. Idas tinha um carro emprestado do pai, um irmão de olho bom e um temperamento que o fazia mirar num deus. Ninguém sensato apostaria no mortal.

Marpessa fez outra pergunta. Trocou a comparação do dia pela pergunta sobre onde cada caminho estaria quando ela tivesse cabelos brancos. Com Apolo, sozinha e esquecida, porque deuses gregos trocavam de amor com frequência. Com Idas, velha junto de um homem velho.

“Ela escolheu Idas, temendo ser abandonada por Apolo quando envelhecesse.”

Apolodoro, Biblioteca, 1.7.9, séculos I a II depois de Cristo (tradução livre)

A frase de Apolodoro é seca, e a força dela está nessa secura. Marpessa não declarou amor por Idas. Não falou da beleza de Apolo. Falou do histórico.

E o histórico de Apolo era conhecido de qualquer grego. Dafne fugiu dele e virou loureiro. Corônis o traiu e foi castigada. Cassandra o recusou e ganhou uma profecia que ninguém acreditava. Os amores do deus terminavam mal para a mortal, quase sempre.

Na vida comum, a escolha pela vitrine aparece em decisões conhecidas. O emprego com salário maior numa empresa que troca de equipe a cada ano. O sócio brilhante que já desfez três sociedades. O apartamento lindo num prédio com histórico de obra parada. Em cada caso, a oferta do primeiro dia esconde o padrão dos dias seguintes.

O primeiro traço do padrão é medir o começo e ignorar a curva. A oferta de Apolo era máxima no dia um e caía com o tempo. A de Idas era menor e se mantinha.

O segundo traço é esquecer a assimetria. Apolo não envelhecia; Marpessa sim. Toda oferta entre partes que mudam em ritmos diferentes carrega esse risco: quem muda menos pode sair quando o outro mudar.

O terceiro traço é confundir poder com compromisso. Um deus tinha todo o poder do mundo e nenhuma obrigação de ficar. O arqueiro tinha pouco poder e já tinha arriscado a vida contra Apolo por ela.

O padrão engana porque a vitrine é concreta e a curva é abstrata. O brilho de Apolo estava diante dos olhos de Marpessa naquela margem; a velhice dela era uma imagem distante. Quem decide pelo que vê no momento quase sempre escolhe o deus, e só descobre o preço quando a primeira ruga aparece e o deus já foi embora.

 

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III  A Saída

Escolher olhando o último dia

A resposta de Marpessa cabe numa troca de pergunta. Saia de “qual oferta é melhor agora?” e vá para “onde cada caminho costuma acabar, e onde eu estarei quando acabar?”.

Para quem reconhece a escolha pela vitrine em si, quatro passos:

1. Escreva a idade ou o momento em que você estará daqui a dez anos. Marpessa pensou na própria velhice antes de pensar no deus.

2. Procure o histórico de cada opção. Quantos amores de Apolo ficaram? Quantos funcionários da empresa duram três anos? O passado da oferta prevê melhor que a promessa dela.

3. Marque quem muda mais rápido. Se a outra parte muda num ritmo e você noutro, pergunte o que acontece quando a distância crescer.

4. Dê peso ao que já foi provado. Idas tinha puxado o arco contra um deus. Compromisso demonstrado vale mais que poder oferecido.

Escolher pelo último dia provável só funciona quando o histórico existe. Diante de uma oferta sem passado, só a vitrine aparece, e o melhor é encurtar o prazo do teste antes de prometer a vida.

A escolha de Marpessa não foi modesta nem resignada. Ela recusou o sol porque sabia ler o sol. Viveu com Idas a vida inteira de um casal mortal, criou uma filha e envelheceu com o homem que tinha escolhido.

A lição serve também ao contrário. Quem oferece algo pode se perguntar se a própria oferta resiste ao teste de Marpessa: se ela ainda estará de pé quando o outro mudar, cansar ou envelhecer. Promessa que só vale no dia um perde para a promessa modesta que dura.

Fica para você: qual escolha recente você fez pela oferta do começo, sem perguntar como ela costuma terminar?

Marpessa, diante de Zeus, na versão de Apolodoro, escolheu Idas por medo de ser deixada quando envelhecesse.

 
 
 

Quiz da edição

O que Eueno fez quando entendeu que não conseguiria alcançar a filha, levada por Idas na carruagem alada?

APediu a Poseidon que lhe desse um carro igual para a perseguição
BSacrificou os próprios cavalos e se lançou no rio Licormas
CDeclarou guerra ao reino de Messene, terra de Idas
DPediu a Zeus que castigasse Idas com um raio

Resultado da última edição: 38% acertaram.

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