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A história dos ancilia (plural de ancile) chegou até nós por dois autores principais. O grego Plutarco a conta na Vida de Numa, escrita por volta do ano 100 depois de Cristo. O poeta romano Ovídio a põe em verso no terceiro livro dos Fastos (calendário poético das festas de Roma), terminado perto do ano 8.
Numa Pompílio foi o segundo rei de Roma, sucessor de Rômulo, e a tradição o lembra como o rei das leis e dos ritos. Dizia-se que ele recebia conselho da ninfa Egéria, uma divindade das fontes, em encontros num bosque fora da cidade.
O motivo da queda do escudo muda conforme a fonte. Em Plutarco, Roma sofria uma peste, e o escudo desceu como sinal de que os deuses queriam curar a cidade; a doença parou logo depois. Em Ovídio, Numa negociou com Júpiter em pessoa, e o deus mandou o escudo como penhor do poder romano. A edição segue Plutarco no motivo e Ovídio no detalhe da manhã: o escudo caiu ao nascer do sol, diante do povo reunido.
O motivo das cópias é dito com todas as letras pelos dois autores. Numa queria impedir o roubo. Um objeto único, de que dependia a sorte da cidade, era o alvo perfeito para qualquer inimigo. Escondido entre gêmeos, ele deixava de ser alvo: quem roubasse um teria onze chances em doze de levar bronze comum.
Mamúrio Vetúrio aceitou a tarefa e cumpriu à risca. Quando Numa quis pagar, o ferreiro recusou ouro e terras. Pediu uma recompensa só: que seu nome entrasse no canto dos sálios. O pedido foi atendido, e por séculos os sacerdotes repetiram “Mamúrio Vetúrio” nos versos do Carmen Saliare (o canto dos sálios).
O estudioso romano Varrão, no século 1 antes de Cristo, já desconfiava do ferreiro. Sugeriu que “Mamúrio Vetúrio” no canto seria só uma corruptela de memoria vetus (memória antiga, em latim), e não um homem. As fontes divergem; a edição fica com Plutarco e Ovídio, que tratam Mamúrio como pessoa de carne e osso.
Os doze escudos ficavam guardados no santuário de Marte, dentro da Régia, a antiga casa do rei no Fórum. Em março, mês do deus da guerra, os doze sálios os tiravam de lá. Vestiam túnica bordada, peitoral de bronze e um gorro em ponta, e percorriam a cidade parando em altares para dançar o tripudium (passo em três tempos).
O ritual durava vários dias. Em outubro, outra cerimônia devolvia os escudos ao santuário, fechando a temporada das campanhas militares. Enquanto os ancilia estavam fora, os romanos evitavam casar e começar guerra.
E o original? Ninguém sabe qual era, e ninguém sabe onde os doze foram parar. Os sálios ainda aparecem em registros do século 4. Quando o imperador Teodósio proibiu os cultos antigos, nos anos 390, o rito some das fontes. Nenhum dos escudos foi encontrado pelos arqueólogos, e nenhum texto conta o destino deles.
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