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O exército de vanaras, os macacos aliados de Rama, chega à ponta sul da Índia procurando Sita, levada à força para Lanka pelo rei Ravana. Sampati, o velho abutre de asas queimadas, aponta o horizonte: ela está viva, do outro lado.
Entre a areia e a ilha existem cem yojanas de mar aberto, medida que o poema usa para distância grande demais para conferir a pé. Não há barco, não há ponte, e o prazo dado pelo rei está vencendo.
Começa então a contabilidade dos saltos. Gaja anuncia dez yojanas, Gavaksha vinte, Sharabha trinta, Vrishabha quarenta, cada um de pé dizendo em voz alta o próprio teto.
Jambavan, o velho rei dos ursos, mede noventa e admite que já foi maior. Angada alcança os cem, mas não garante a volta, e mensageiro que chega e não volta não resolve nada.
Um pouco afastado do círculo, sentado, está Hanuman, filho de Anjana e de Vayu, o vento. Ele não anuncia número nenhum, porque não tem número nenhum na cabeça. Ele acha, com sinceridade, que a conversa não é com ele.
A causa está na infância. Recém-nascido, viu o sol subir vermelho, achou que era fruta madura e saltou para pegar. Indra derrubou a criança com o raio, e o golpe deixou o queixo torto: hanu, queixo, deu o nome que ele carrega até hoje.
Vayu recolheu o ar do mundo em luto, e os deuses devolveram a criança com uma pilha de bênçãos: corpo intocável, velocidade de vento, tamanho ajustável à vontade.
Os sábios do bosque, cansados das travessuras do menino, penduraram uma condição no presente: ele não teria consciência da própria força até alguém, de fora, lembrá-la em voz alta.
É por causa da condição dos sábios que o maior saltador do exército está sentado na areia enquanto o resto discute logística. A força está inteira dentro dele. O que falta é o acesso ao registro.
Jambavan olha para ele e faz a única coisa que funcionaria ali. Não diz que ele consegue, não faz discurso de ânimo. Recita o histórico: quem é o pai dele, o que fez com o sol ainda bebê, que golpe levou, como sobreviveu e quais bênçãos os deuses penduraram no corpo dele.
A cada item da lista, Hanuman cresce. Não é figura de linguagem no poema: o corpo aumenta de verdade, a cauda levanta, os ombros se abrem.
Ele sobe o monte Mahendra, prensa a rocha com os pés até as árvores tremerem, e salta. No caminho, um monte emerge do mar para oferecer descanso e ele agradece sem parar; Surasa abre a boca na rota para testá-lo e ele passa por engenho, não por força.
Do outro lado, encontra Sita nos jardins de Lanka e leva de volta a informação que reorganiza a guerra inteira. A travessia impossível tinha sido resolvida por um discurso de dois minutos na areia.
A cena está no Kishkindha Kanda do Ramayana, atribuído a Valmiki e datado entre os séculos IV e III a.C.; o salto abre o Sundara Kanda, o único livro do poema construído em torno de Hanuman. O que atravessa o oceano não é poder novo, é poder antigo devolvido por uma lembrança dita em voz alta.
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