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ED 184
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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores.

O atraso de 40 dias custou o bosque de Hiiaka

Hiiaka passou do prazo na viagem a Kauai, e Pele cobrou no bosque de lehua e na amiga Hopoe

Hiiaka no penhasco vendo a fumaça do bosque de lehua

O bosque de lehua em chamas sob a cratera

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O ar da cratera cheirava a enxofre e a seiva queimada quando a fumaça subiu do bosque de Puna, na ponta leste da ilha do Havaí. As flores vermelhas das árvores estalavam no calor antes de virar cinza.

Muito longe dali, do alto de um penhasco, uma moça viu a coluna escura no horizonte. Reconheceu o lugar pela direção do vento. Era o bosque dela.

A moça se chamava Hiiaka, a irmã caçula de Pele, a deusa do vulcão no Havaí. Quem tinha posto fogo nas árvores era a própria Pele.

O bosque guardava mais do que mata. Ali cresciam as lehua (as flores vermelhas da árvore ohia), que Hiiaka plantara e amava acima de qualquer outra planta. Ali também morava Hopoe, a amiga que ensinara a ela a hula (a dança sagrada havaiana).

Antes de partir numa viagem longa, Hiiaka fizera um único pedido à irmã: que cuidasse do bosque e de Hopoe enquanto ela estivesse fora. Pele prometeu.

A viagem tinha prazo. Pele mandara a caçula buscar um homem na ilha de Kauai, do outro lado do arquipélago, e dera quarenta dias para a volta. O caminho cobrou mais tempo.

Na cratera, Pele esperava sem notícia. Nenhum mensageiro cruzava o mar entre as ilhas com recado da caçula, e cada noite sem ela pesava mais que a anterior.

Hiiaka atrasou. Pele contou os dias, imaginou o pior e cobrou a demora no lugar onde a irmã mais sentiria.

O mito havaiano guarda um retrato preciso de quem transforma um atraso em ofensa e escolhe, como castigo, aquilo que o outro mais ama. A cobrança de Pele não mirou a viagem nem o homem. Mirou as flores e a amiga.

Logo abaixo, o mito conta quem era o homem, por que a irmã partiu e o que ficou do bosque depois do fogo.

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I  O Mito

O sonho, o prazo e o fogo

A versão mais completa do mito chegou ao papel em 1915, quando o estudioso havaiano Nathaniel Bright Emerson publicou Pele and Hiiaka: A Myth from Hawaii (Pele e Hiiaka, um mito do Havaí), traduzindo cantos que ouvira de narradores nativos. A folclorista americana Martha Beckwith retomou a história em Hawaiian Mythology (Mitologia havaiana), de 1940.

A história começa num sonho. Pele dormia na cratera de Kilauea quando seu espírito deixou o corpo e seguiu o som de tambores até Haena, na ilha de Kauai. Lá havia uma festa de hula, e quem brilhava nela era Lohiau, um jovem chefe conhecido pela beleza e pelo jeito de dançar.

Pele apareceu como mulher, encantou Lohiau e passou com ele alguns dias. Depois voltou ao próprio corpo, prometendo mandar buscá-lo. Lohiau ficou esperando, tomado de saudade.

Ao acordar, Pele quis o homem com ela no Havaí. Não foi pessoalmente porque deixar a cratera de novo enfraqueceria o fogo que a sustentava; Emerson registra esse motivo. Pediu então às irmãs que fossem a Kauai. Todas recusaram, com medo do caminho e do gênio da deusa.

Só Hiiaka aceitou. Era a caçula, a preferida, a que Pele carregara junto ao peito desde o ovo, segundo os cantos. Aceitou por lealdade, e pôs duas condições.

A primeira condição era o bosque de lehua de Puna; a segunda, a amiga Hopoe. Hiiaka pediu à irmã que não tocasse em nenhum dos dois enquanto ela estivesse fora. Pele concordou e marcou o prazo: quarenta dias para ir, achar Lohiau e trazê-lo. Proibiu também a caçula de abraçar o homem.

O caminho foi longo. Hiiaka atravessou ilhas enfrentando os moo (espíritos em forma de lagarto gigante) que bloqueavam rios e passagens. Curou doentes, ganhou companheiras de estrada e perdeu dias em cada luta.

Em Kauai veio a pior notícia: Lohiau tinha tirado a própria vida, de saudade da mulher do sonho. Hiiaka encontrou o espírito dele preso numa caverna, devolveu-o ao corpo com cantos e ervas e passou dias cuidando do chefe até ele andar de novo.

A volta atrasou ainda mais. Quando o prazo venceu, Pele concluiu que a irmã tinha ficado com o homem. As versões divergem sobre o que Pele sabia: em algumas, ela apenas imaginou a traição; em outras, viu de longe sinais de afeto entre os dois. Esta edição segue Emerson, para quem Hiiaka cumpriu a promessa e Pele agiu por ciúme e impaciência.

O castigo veio em fogo. Pele mandou lava sobre o bosque de lehua e sobre Hopoe. Segundo Beckwith, a amiga virou pedra no litoral de Puna, uma rocha que, contavam os moradores, balançava sozinha com as ondas, como se ainda dançasse.

 
 

II  O Diagnóstico

O refém escolhido

O padrão que o mito descreve ganha nome nesta edição: a cobrança no refém. É o hábito de punir um atraso, uma falha ou uma ausência atingindo o que o outro mais ama, e não a falha em si.

Pele tinha uma queixa legítima. O prazo era dela, e a irmã passou dele. Uma conversa dura sobre o atraso caberia no acordo. Pele escolheu outro alvo: queimou o bosque e a amiga, que não tinham atrasado nada.

O primeiro traço do padrão é a contagem solitária. Pele contou os dias sozinha na cratera, sem notícia, e preencheu o silêncio com a pior hipótese. Quem cobra no refém costuma ter passado o prazo inteiro imaginando, e quase nunca perguntando.

O segundo traço é a mira. A cobrança vai direto ao ponto onde dói mais, e quem cobra sabe exatamente onde fica. Pele conhecia o pedido da irmã porque o ouvira na despedida. Usou a própria promessa como mapa.

O terceiro traço é a desproporção. Dias de atraso custaram um bosque inteiro e uma amiga. O castigo perde a medida da falta porque responde ao medo de quem cobra, maior que o atraso.

“Nenhuma peste custou mais caro ao gênero humano.”

Sêneca, Sobre a ira, livro I, c. 41 d.C.

O filósofo romano escrevia sobre a ira em geral. O mito havaiano mostra a forma mais cruel dela: a que atravessa a pessoa e acerta o que ela deixou sob cuidado.

Na vida comum, a cobrança no refém aparece no pai que, irritado com a nota baixa, proíbe justamente o treino de futebol do filho. Aparece no chefe que, pela entrega atrasada, tira do funcionário o projeto que ele mais gostava, e no parceiro que, depois de uma demora, ataca os amigos do outro.

O mito registra ainda um detalhe que piora o quadro. A raiva de Pele não nasce pronta no dia do prazo. Nos cantos reunidos por Emerson, ela cresce aos poucos, a cada notícia que não chega, até a lava sair.

Há um sinal de alerta para quem cobra. Se a punição escolhida foi pensada para doer mais, e não para resolver o atraso, a lava já saiu da cratera.

Há também o custo para Pele, e o mito não o esconde. A irmã voltou com Lohiau, olhou o bosque em cinzas e quebrou a última regra: abraçou o chefe à beira da cratera, à vista da deusa. Pele cobriu Lohiau de lava. A cobrança no refém custou à deusa o homem que ela queria e a confiança da irmã que mais a amava.

 

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III  A Saída

Cobrar o atraso, poupar o bosque

O mito traz a saída no próprio desenho do acordo. Hiiaka deixou dois bens sob cuidado e aceitou uma regra de tempo. Pele misturou os três. A saída começa por separar.

Para quem tem um prazo vencido nas mãos, quatro passos:

1. Pergunte antes de contar. Pele contou quarenta dias sem mandar um recado. Antes de concluir a traição, peça notícia: onde você está, o que aconteceu.

2. Cobre a falta na falta. O atraso se discute como atraso: o prazo, o motivo, o novo combinado. O que o outro ama não entra na mesa.

3. Desconfie da pena que dói demais. Se o castigo escolhido acerta exatamente o ponto mais sensível, ele serve ao seu medo e não ao acordo.

4. Proteja o que recebeu para guardar. Quem aceitou cuidar de algo do outro segue responsável por ele, mesmo com raiva. A promessa de Pele sobre o bosque não dependia do prazo.

Vale um contrapeso. Atraso tem custo, e o mito não pede que Pele fingisse calma. Ela podia cobrar a irmã, exigir explicação e até desfazer o acordo. O erro foi escolher o refém.

Há ainda um passo para quem está do outro lado, o atrasado. Hiiaka podia ter mandado notícia pelas companheiras de estrada. Avisar cedo, com o motivo e a nova data, tira da espera o espaço onde o medo cresce.

O desfecho mostra o preço de reparar depois. Na versão de Emerson, Lohiau voltou à vida pelas mãos de Kanemilohai, um irmão de Pele, e acabou ficando com Hiiaka em Kauai. Pele, mais calma, reconheceu que a caçula cumprira a missão. O bosque, porém, só voltou com os anos, e Hopoe seguiu pedra na beira do mar.

A pergunta da edição: o que você guarda hoje, deixado sob seus cuidados por alguém que está atrasado com você?

Hiiaka disse à irmã, na versão que esta edição segue: “Fiz a viagem que você pediu; o fogo foi escolha sua.”

 
 
Quiz da edição

Antes de aceitar ir buscar Lohiau em Kauai, que duas condições Hiiaka pediu a Pele?

AQue Pele não tocasse no bosque de lehua de Puna nem na amiga Hopoe
BQue Pele não deixasse ninguém dançar hula na ausência dela
CQue Pele mandasse um mensageiro a cada dez dias com notícias
DQue Pele nunca mais saísse da cratera de Kilauea

Resultado da última edição: 62% acertaram.

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