|
A versão mais completa do mito chegou ao papel em 1915, quando o estudioso havaiano Nathaniel Bright Emerson publicou Pele and Hiiaka: A Myth from Hawaii (Pele e Hiiaka, um mito do Havaí), traduzindo cantos que ouvira de narradores nativos. A folclorista americana Martha Beckwith retomou a história em Hawaiian Mythology (Mitologia havaiana), de 1940.
A história começa num sonho. Pele dormia na cratera de Kilauea quando seu espírito deixou o corpo e seguiu o som de tambores até Haena, na ilha de Kauai. Lá havia uma festa de hula, e quem brilhava nela era Lohiau, um jovem chefe conhecido pela beleza e pelo jeito de dançar.
Pele apareceu como mulher, encantou Lohiau e passou com ele alguns dias. Depois voltou ao próprio corpo, prometendo mandar buscá-lo. Lohiau ficou esperando, tomado de saudade.
Ao acordar, Pele quis o homem com ela no Havaí. Não foi pessoalmente porque deixar a cratera de novo enfraqueceria o fogo que a sustentava; Emerson registra esse motivo. Pediu então às irmãs que fossem a Kauai. Todas recusaram, com medo do caminho e do gênio da deusa.
Só Hiiaka aceitou. Era a caçula, a preferida, a que Pele carregara junto ao peito desde o ovo, segundo os cantos. Aceitou por lealdade, e pôs duas condições.
A primeira condição era o bosque de lehua de Puna; a segunda, a amiga Hopoe. Hiiaka pediu à irmã que não tocasse em nenhum dos dois enquanto ela estivesse fora. Pele concordou e marcou o prazo: quarenta dias para ir, achar Lohiau e trazê-lo. Proibiu também a caçula de abraçar o homem.
O caminho foi longo. Hiiaka atravessou ilhas enfrentando os moo (espíritos em forma de lagarto gigante) que bloqueavam rios e passagens. Curou doentes, ganhou companheiras de estrada e perdeu dias em cada luta.
Em Kauai veio a pior notícia: Lohiau tinha tirado a própria vida, de saudade da mulher do sonho. Hiiaka encontrou o espírito dele preso numa caverna, devolveu-o ao corpo com cantos e ervas e passou dias cuidando do chefe até ele andar de novo.
A volta atrasou ainda mais. Quando o prazo venceu, Pele concluiu que a irmã tinha ficado com o homem. As versões divergem sobre o que Pele sabia: em algumas, ela apenas imaginou a traição; em outras, viu de longe sinais de afeto entre os dois. Esta edição segue Emerson, para quem Hiiaka cumpriu a promessa e Pele agiu por ciúme e impaciência.
O castigo veio em fogo. Pele mandou lava sobre o bosque de lehua e sobre Hopoe. Segundo Beckwith, a amiga virou pedra no litoral de Puna, uma rocha que, contavam os moradores, balançava sozinha com as ondas, como se ainda dançasse.
|