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100% escolheram Jamshid perdeu a farr. Aqui está.
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A frase que custou a Jamshid setecentos anos de reino
Diante dos nobres reunidos, o rei que ensinou ofícios e curas se declarou criador de tudo, e a glória que o sustentava foi embora
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Jamshid no trono, diante dos nobres
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O cheiro de âmbar queimado ainda estava preso no alto do salão quando o rei levantou a voz. Havia brocado pesado nos ombros dos nobres sentados em semicírculo, cera escorrendo das lâmpadas de bronze e um zumbido baixo de conversa que parou de uma vez só.
Quem falava era Jamshid, quarto soberano da dinastia Pishdadiana na tradição persa, e o que ele disse cabia numa linha: tudo o que existe foi feito por mim. Nos setecentos anos anteriores de reinado, ele tinha material de sobra para acreditar naquilo.
A lista de obras atribuídas a ele no poema é longa e concreta. Ensinou aos homens a têmpera do ferro e o feitio de elmos, couraças e lanças. Ensinou a fiar o linho, a tecer a seda, a tingir o pano. Separou os ofícios em quatro ordens, para que sacerdote, guerreiro, lavrador e artesão soubessem cada um o que fazer. Descobriu o uso das ervas e dos perfumes, mandou cavar poços e canais, ergueu casas de tijolo, pôs barcos na água e atravessou os mares com eles. No dia em que subiu num trono elevado e se deixou ver por todo o povo, o país inteiro começou a contar o ano de novo, e a festa daquela manhã ficou sendo o Nowruz, o ano novo persa.
Sobre todo esse trabalho pousava uma coisa que não era trabalho. Os persas a chamavam de farr, a glória real que desce sobre quem tem direito de reinar e vai embora quando esse direito acaba. A farr não se conquista por mérito e não se guarda em cofre: ela permanece enquanto o rei se comporta como depositário dela, e sai no instante em que ele se declara dono.
Naquele salão, Jamshid trocou uma palavra pela outra. Podia ter dito que recebeu o mundo para administrar, e disse que fez o mundo. A frase não derrubou o reino naquele minuto, e nem precisava: ela apenas cancelou o motivo pelo qual aqueles homens de brocado estavam ali sentados.
O poema que narra a cena guarda o motivo de cada movimento por escrito, inclusive o que aconteceu com os nobres no dia seguinte à frase.
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I O Mito
A glória que saiu do salão junto com a frase
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O relato está no Shahnameh, o Livro dos Reis, epopeia em persa clássico composta por Abolqasem Ferdowsi em Tus, no Coração, e concluída por volta de 1010. São cerca de cinquenta mil dísticos que vão da criação do mundo à queda do império sassânida, e a seção de Jamshid ocupa o começo do ciclo lendário. É a versão que esta edição segue.
O motivo do reinado longo está dito com todas as letras. Jamshid herdou o trono do pai, Tahmuras, e recebeu com ele a farr, a glória real que os textos zoroastristas chamam de khvarenah, a luz que acompanha o soberano legítimo. Com essa luz sobre ele, nenhum exército o enfrentava e nenhum demônio o desobedecia. Os divs, espíritos hostis submetidos por Tahmuras, trabalharam para ele como pedreiros e carregadores.
O motivo da queda também está dito, e é uma fala. Ferdowsi conta que Jamshid convocou os grandes do reino, passou em revista o que havia ensinado à humanidade e concluiu que a habilidade toda nascia dele. Não pediu conselho, não agradeceu a herança, não citou o divino. Reuniu os homens que o sustentavam para informar que não devia nada a ninguém.
A frase não mudou nenhum fato do inventário: as armas continuaram feitas, o linho continuou tecido, os canais continuaram cavados. O que mudou foi a autoria declarada, e era a autoria que mantinha aquela plateia de pé.
"Quem, no mundo inteiro, poderia ser senhor, senão eu?" > Jamshid diante dos grandes do reino, no Shahnameh de Ferdowsi, concluído por volta de 1010 |
A partida da farr é descrita como um evento físico, não como castigo negociado. A glória se desprende do rei e se afasta dele, e o poema registra o efeito imediato: os nobres que ouviram a frase se levantam e saem, o exército se dispersa, os ofícios continuam funcionando sem o nome dele em cima. O reinado não foi derrubado por um inimigo: ele ficou vazio primeiro e só depois recebeu um ocupante.
O ocupante se chama Zahhak, rei estrangeiro com duas serpentes crescidas nos ombros, que atravessou a fronteira quando a notícia da debandada chegou. Não houve batalha digna de nome. Jamshid fugiu e passou cem anos escondido, até ser encontrado perto do mar da China e executado por Zahhak, serrado ao meio, no episódio que abre a tirania de mil anos do novo rei.
As fontes divergem sobre quando a soberba aparece. O Avesta, o corpo de textos sagrados do zoroastrismo, atribui a perda do khvarenah a uma mentira dita por Yima, o nome avéstico do mesmo personagem, e descreve a glória saindo dele em três lances, cada um capturado por uma figura diferente. Ferdowsi condensa tudo numa cena só de vaidade diante da corte. Esta edição segue Ferdowsi, porque nele o gesto está datado e o custo aparece na sequência imediata.
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II O Diagnóstico
Quando a competência começa a se assinar como origem
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O núcleo arquetípico aqui é a troca de depositário por dono: a pessoa faz muito, faz bem, e em algum ponto passa a cobrar crédito pela fonte do que faz.
O primeiro traço é o tamanho do inventário. Ninguém se declara criador do mundo depois de um ano ruim. A frase de Jamshid veio no topo de um currículo real, e é exatamente o currículo que a torna possível. Quanto mais longa a lista de entregas, mais fácil confundir o que passou pelas suas mãos com o que nasceu nelas.
O segundo traço é o desaparecimento dos nomes intermediários. Tahmuras entregou o trono, os divs carregaram pedra, os artesãos executaram cada objeto do inventário, e nenhum deles aparece na frase final. Quem se declara origem apaga fornecedores, professores e sócios do mesmo jeito: sem raiva, apenas por economia de narrativa.
O terceiro traço é a plateia escolhida. Jamshid não disse aquilo sozinho num quarto, disse na frente de quem o sustentava. Declarações de origem procuram testemunhas, porque a função delas é reorganizar a hierarquia da sala. O problema é que essa mesma plateia faz a conta em silêncio e conclui que virou dispensável.
O quarto traço é a velocidade da saída. O poema não registra revolta, discurso de rompimento nem carta aberta. Os grandes do reino simplesmente pararam de aparecer. Times, sócios e clientes costumam sair do mesmo jeito, sem aviso e sem cena, porque a lealdade deles era ao trabalho compartilhado e não à pessoa que acabou de se declarar autora de tudo.
O quinto traço é a intocabilidade das obras. As armas, os tecidos e os canais continuaram servindo à Pérsia depois da queda, e o Nowruz sobrevive até hoje no calendário de vários países. A competência de Jamshid nunca esteve em dúvida, nem no poema nem depois dele. O que evaporou foi o direito de liderar com ela.
A tradução para hoje é incômoda porque o gesto raramente sai como arrogância declarada. Ele sai como impaciência: cortar o crédito de quem ajudou porque explicar demoraria, assinar sozinho o que foi feito a seis mãos, responder "eu construí isso" quando a resposta honesta seria "eu conduzi isso".
O sintoma mais fácil de reconhecer é o pronome no relato do trabalho. Quem descreve o próprio ano em primeira pessoa do singular do começo ao fim, sem um único nome próprio no meio, já fez a troca. A frase de Jamshid não anuncia poder: ela informa à sala que a sala não conta.
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