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Koschei aparece nos contos russos como um velho magro e seco, que cavalga mais rápido do que qualquer perseguidor e leva embora a mulher de outro homem. O apelido vem colado no nome: Bessmertny, o Imortal.
A imortalidade dele não era dom nem prêmio, era um arranjo técnico: em algum momento antes do conto começar, Koschei tirou a própria vida de dentro do corpo e guardou fora, num objeto pequeno.
A fórmula se repete quase igual em todas as versões. No mar oceano existe uma ilha chamada Buyan. Na ilha cresce um carvalho. Sob o carvalho está enterrada uma arca de ferro. Dentro da arca há uma lebre, dentro da lebre um pato, dentro do pato um ovo, e dentro do ovo uma agulha cuja ponta é a vida dele.
Enquanto a agulha estiver inteira, ele volta de tudo. Pode ser cortado, queimado, jogado ao mar dentro de um barril fechado. Ferir o corpo dele não adianta, porque a coisa importante não mora ali.
O arranjo tem um custo que o conto não anuncia. Koschei também não alcança mais a agulha: a ilha fica longe, a arca está enterrada, a lebre corre. Ele não visita, não confere, não sabe em que estado está a ponta que sustenta ele inteiro.
No palácio, ele mantém presa uma mulher trazida à força. Ela circula pelos cômodos, observa a rotina do dono da casa, e um dia a pergunta sai direta: onde fica guardada a sua morte?
Koschei mente na primeira resposta. Está na vassoura atrás da porta, ele diz, e sai rindo da facilidade. Ela leva a vassoura a sério: amarra uma fita no cabo, cobre tudo de tinta dourada e põe o objeto em cima da mesa, no lugar de honra da sala.
Ele volta, encontra a vassoura dourada no meio do salão e debocha em voz alta: aquilo é uma vassoura, feita de galhos amarrados, e nada além. Depois inventa a segunda mentira, a estaca de carvalho da cerca, e no dia seguinte a estaca amanhece dourada da ponta ao chão.
É a segunda vassoura dourada que abre a boca dele. Rir da mulher já não bastava: ele quis mostrar o tamanho verdadeiro da obra e recitou a cadeia inteira em voz alta, na ordem certa, da ilha no meio do mar até a ponta da agulha dentro do ovo.
A partir daí o conto vira logística. Ivan atravessa o mar, cava sob o carvalho e abre a arca. A lebre dispara e um lobo a alcança. O pato levanta voo e um falcão o derruba. O ovo cai na água e um peixe o traz de volta. Cada bicho tinha sido poupado por Ivan em algum ponto do caminho.
Com o ovo na mão, o desfecho é curto. Koschei sente o aperto a quilômetros de distância, perde a força no meio do salão e começa a implorar. A ponta da agulha se quebra entre dois dedos, e o homem que ninguém tinha derrubado em séculos cai no chão de pedra.
As versões que sobreviveram foram reunidas por Aleksandr Afanásiev em Contos Populares Russos (1855-1863), a maior coleção de narrativas eslavas já organizada. Em todas elas, o que derruba Koschei não é força, é uma informação que ele mesmo entregou.
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