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Mwindo nasceu do dedo médio da mãe já falando

No épico do povo nyanga, o filho proibido saiu andando, foi lacrado num tambor e voltou para buscar o pai

Shemwindo lacra o bebê Mwindo num tambor à beira do rio

Mwindo dentro do tambor, na beira do rio

▼

O couro do tambor ainda estava úmido quando os homens de Shemwindo esticaram a última tira por cima da boca. Lá dentro, no escuro que cheirava a madeira recém-escavada, um bebê de horas batia com a mãozinha na parede e conversava.

O bebê se chamava Mwindo. Tinha nascido naquela mesma manhã, numa aldeia de Tubondo, nas florestas do leste do Congo. A mãe era a esposa preferida de Shemwindo, o chefe da aldeia, e ele era o pai.

O chefe tinha sete esposas. Antes de qualquer gravidez, reuniu todas e avisou: menino nenhum sairia vivo daquelas casas. Seis delas deram à luz meninas, e a aldeia festejou cada uma. A sétima demorou demais.

Quando a criança veio, não saiu como as outras. Saiu pelo dedo médio da mãe. Pisou no chão sozinha, ergueu um pequeno cetro e um saquinho que trazia consigo e começou a falar com quem estava em volta.

O chefe tentou primeiro com lanças. Seis homens arremessaram contra a casa da parturiente, e as pontas pararam no ar ou caíram tortas. Ninguém acertou o menino. Shemwindo então mandou cortar um tronco e escavar um tambor.

O menino foi posto dentro. O couro fechou a abertura. Dois homens carregaram o tambor até a beira do poço fundo do rio e o soltaram na água, com ordem de nunca mais tocarem no assunto.

O tambor afundou e voltou à tona. De dentro, uma voz pequena cantava. O bebê não chorava pela mãe, nem pedia para sair. Cantava o próprio título, contando a quem passasse quem ele era e de onde tinha vindo.

Essa cena é o ponto mais conhecido de um épico inteiro, recitado em doze dias por um bardo do povo nyanga e posto no papel em 1956. E ela guarda uma pergunta difícil para qualquer um: o que faz alguém que chega ao mundo já recusado?

Logo abaixo, por que Shemwindo proibiu filhos homens, o que Mwindo fez quando saiu do tambor, qual o padrão de quem vive pedindo licença para existir e como sair dele.

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I  O Mito

O tambor no poço

A resposta de ontem

O que quer dizer Ullikummi?

Ullikummi quer dizer "destruidor de Kummiya" em hurrita. Kumarbi batizou o filho com a própria missão: Kummiya era a cidade de Teshub, o deus da tempestade, e o gigante de diorito nasceu para arrasá-la. A leitura está na edição da Canção de Ullikummi que Hans Gustav Güterbock publicou em 1952.

O épico vem dos banyanga (o povo nyanga), que vivem na região de floresta do Kivu, no leste da República Democrática do Congo. O antropólogo Daniel Biebuyck e o linguista Kahombo Mateene gravaram a versão completa do bardo Candi Rureke em 1956 e a publicaram em 1969 pela University of California Press.

A narrativa não gasta muita frase com o motivo de Shemwindo. Ele decreta a proibição e pronto. Biebuyck, no estudo que acompanha a tradução, lê o decreto como medo de sucessão: um filho homem herdaria o cetro e a aldeia, e o chefe não queria dividir nem passar adiante o poder. É essa a leitura que a edição usa.

Daí a gravidez da preferida ter virado ameaça. Ela carregou a criança muito além do tempo comum, e o menino, dentro da barriga, já escolhia por onde ia sair. Não quis o caminho de sempre. Saiu pelo dedo médio, segundo o texto, para não ser confundido com nenhum outro bebê.

Trouxe dois objetos. O primeiro era um conga, cetro de rabo de búfalo usado como espanta-moscas pelos chefes nyanga, que nas mãos de Mwindo devolvia a vida e desviava golpes. O segundo era um saquinho de pele com uma corda da sorte.

Os bardos chamam o herói de Kabutwa-kenda, que quer dizer o pequeno que, nascido, já andou. O título resume o motivo do assombro: ele chegou sem precisar de ninguém para o primeiro passo.

As lanças falharam diante do conga. O tambor foi a segunda tentativa, e o motivo da escolha é prático: lança se desvia, mas um tronco lacrado e jogado na água afastava o menino sem que ninguém precisasse sujar as mãos de novo.

Dentro do tambor, Mwindo não ficou parado. Nadou o tambor rio acima, contra a correnteza, procurando Iyangura, irmã do pai, casada com Mukiti, uma grande serpente das águas. Foi a tia que o tirou de lá e o reconheceu como sobrinho.

Depois disso, Mwindo voltou a Tubondo para enfrentar o pai. Shemwindo fugiu para o mundo de baixo, terra de Muisa, senhor dos mortos. Mwindo desceu atrás dele, passou por provas de Muisa e trouxe o pai de volta à superfície.

O desfecho do primeiro grande ciclo surpreende quem esperava vingança. Mwindo não executa Shemwindo. Recebe a metade do reino, o pai fica com a outra, e a aldeia é refeita. O filho proibido devolve ao pai a vida que o pai tentou tirar dele.

 
 

II  O Diagnóstico

A licença para existir

O padrão que o mito expõe pode ser chamado de dívida de nascença. É a sensação de quem chegou a um lugar sem ser esperado e passa a vida tentando pagar a entrada, como se precisasse justificar a própria presença a cada dia.

Mwindo é o caso extremo: um menino que o pai mandou eliminar antes mesmo do parto. A versão comum do padrão é mais discreta. É o filho que veio num casamento em crise, a irmã que ouviu desde cedo que era a gravidez fora de hora, o funcionário contratado contra a vontade do chefe.

“Eu sou Mwindo, o pequeno que, nascido, já andou.”

Candi Rureke, Épico de Mwindo, gravado em 1956, publicado por Biebuyck e Mateene em 1969 (tradução livre)

O primeiro traço da dívida de nascença é provar demais. Quem sente que não merecia estar ali trabalha o dobro, entrega antes do prazo e pede desculpa por ocupar espaço. Mwindo nasceu falando; muita gente vive assim, falando sem parar sobre o próprio valor.

O segundo traço é buscar a aprovação justamente de quem recusou. A energia vai para convencer o Shemwindo da vida, o pai, o sócio ou a família que torceu o nariz. Todo o resto do mundo fica em segundo plano.

O terceiro traço é a desconfiança de qualquer acolhida. Quando aparece uma Iyangura, alguém que abre a porta sem cobrar nada, a pessoa estranha. Procura o preço escondido, ou trata a acolhida como empréstimo que vai ser cobrado.

O épico também mostra o lado perigoso do padrão. Mwindo, depois de vencer o pai, ficou arrogante. Matou um dragão chamado Kirimu e gabou-se da façanha. Nkuba, o deus do raio, amigo dele, levou-o ao céu por um ano inteiro como castigo.

O motivo do castigo é dito no texto: Mwindo matou o dragão sem necessidade e tratou a vitória como prova de que ninguém podia com ele. Lá em cima, Nkuba o deixou passar frio, chuva e sol, e o proibiu de voltar até aprender.

O retrato fica completo aqui. Quem nasce tendo que provar oscila entre duas pontas: a submissão de quem pede licença e a arrogância de quem quer mostrar que ninguém deveria ter duvidado. As duas pontas nascem do mesmo tambor.

Há ainda um custo prático. Quem vive pagando a entrada raramente descansa no lugar conquistado. Cada elogio vale por um dia, cada erro reabre o processo inteiro, e a pessoa nunca sente que a casa também é dela.

 

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III  A Saída

Sair do tambor

A saída que o mito oferece não está na vingança, nem na prova sem fim. Mwindo só vira chefe de fato quando para de lutar contra a recusa do pai e passa a governar para os outros.

Para quem reconhece a dívida de nascença em si, quatro passos:

1. Separe o fato da sentença. O fato é que alguém não quis você ali. A sentença é a ideia de que você deve pagar por estar. Escreva as duas frases lado a lado e veja qual delas é sua.

2. Encontre a sua Iyangura. Quem tirou você do tambor? Uma avó, um professor, um amigo. Mwindo nadou rio acima atrás da tia; procure a pessoa que acolheu sem cobrar e reconheça a acolhida como dada, não emprestada.

3. Desça para buscar o pai, se fizer sentido, mas sem esperar desculpa. Mwindo trouxe Shemwindo de volta e dividiu o reino. Não ouviu pedido de perdão longo; o gesto bastou para a aldeia seguir.

4. Desconfie da vitória que precisa de plateia. Antes de contar uma conquista, pergunte se ela serve a alguém ou só responde ao pai que duvidou. O ano no céu com Nkuba é o aviso do épico para quem esquece.

Vale um contrapeso. Há recusas que ainda machucam e ambientes que seguem hostis. O mito não pede para fingir que o tambor não existiu. Mwindo cantou o próprio título lá dentro; não negou onde estava.

Também vale olhar o que muda quando a dívida se quita. Ao voltar do céu, Mwindo reuniu o povo de Tubondo e não falou de si. Falou de regras de convivência: respeitar os chefes, cuidar das plantações, não odiar quem nasce.

O herói que chegou recusado terminou como o chefe que proibiu a recusa. Não apagou a história do tambor; transformou o próprio começo em lei para que nenhuma outra criança de Tubondo passasse pelo mesmo poço.

Fica para você: diante de quem você ainda sente que precisa justificar o próprio lugar, e o que faria se parasse de pagar essa entrada hoje?

Mwindo, de volta do céu e já chefe da aldeia inteira, deixou ao seu povo, no texto de Candi Rureke em tradução livre: “Não odeiem a criança que nasce, seja menino ou menina.”

 
 
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No Épico de Mwindo, por qual parte do corpo da mãe o herói nasceu já andando e falando?

APelo umbigo
BPela boca
CPelo dedo médio
DPela orelha

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