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Narciso, o rapaz que não soube sair da fonte
Uma deusa atendeu a prece de um rejeitado, e o jovem mais desejado da Beócia se perdeu no próprio reflexo
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Narciso diante do próprio rosto na água
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Havia no bosque uma fonte que nenhum pastor tinha tocado. Cabra nenhuma bebia ali, galho nenhum caía na água, ave nenhuma pousava na margem. A superfície ficava lisa como prata polida, e a sombra das árvores não deixava o sol aquecê-la.
Um rapaz chegou até ela cansado da caça e do calor. Deitou-se na grama para beber. Quando se inclinou sobre a água, viu um rosto lá dentro olhando para ele.
O rosto tinha olhos que pareciam duas estrelas, cabelos dignos de um deus, pescoço de marfim e uma pele em que o rosado se misturava ao branco. O rapaz ficou imóvel, parado como estátua, e não conseguiu desviar o olhar.
Tentou beijar a boca que via. A boca se aproximava também, e a água desfazia tudo. Mergulhou os braços para abraçar aquele pescoço, e os braços voltaram vazios e molhados. Quando ele sorria, o rosto sorria. Quando estendia a mão, o rosto estendia a dele.
Não comeu. Não dormiu. Não saiu da margem. As lágrimas caíam na fonte e borravam a imagem, e ele pedia ao rosto que ficasse. Por perto, escondida entre as pedras, uma ninfa que só sabia repetir as últimas palavras dos outros devolvia cada queixa dele.
Um dia ele entendeu. O rosto era o seu. E entender não bastou para tirá-lo da fonte. Continuou deitado, olhando, até que a força foi embora do corpo como a cera amolece perto do fogo.
Quando as irmãs dele, as náiades, vieram buscá-lo para os ritos fúnebres, não havia corpo na grama. No lugar, crescia uma flor de miolo amarelo cercado de pétalas brancas.
A primeira seção conta quem era esse rapaz, que profecia pesava sobre ele desde o berço, por que uma deusa o levou até aquela água e como o nome dele saiu do bosque para os consultórios.
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I O Mito
A profecia de Tirésias e a prece do rejeitado
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A versão mais conhecida está nas Metamorfoses, poema em latim que o romano Ovídio (Públio Ovídio Nasão) concluiu por volta do ano 8 d.C.; o episódio ocupa o livro III. O protagonista é Narciso, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Líriope, nascido na Beócia, região da Grécia central. Esta pauta veio de uma leitora, Solange, que escreveu pedindo o mito.
Logo depois do parto, Líriope levou uma pergunta ao adivinho cego Tirésias: o menino viveria até a velhice? A resposta pareceu um enigma sem sentido.
"Se ele não se conhecer." Ovídio, Metamorfoses, livro III, 8 d.C. |
No latim, a frase é "si se non noverit" (se não se conhecer). Por anos ninguém entendeu a condição. Ovídio diz que o desfecho a explicou.
Aos dezesseis anos, Narciso era desejado por rapazes e moças, e recusava todos com um orgulho duro. Entre as recusadas estava Eco, a ninfa condenada por Juno a repetir finais de frase; rejeitada, ela se recolheu nas cavernas e ficou reduzida à voz.
O motivo do castigo está no poema. Um dos rapazes desprezados ergueu as mãos ao céu e pediu que Narciso amasse do mesmo jeito e nunca possuísse quem amasse. Nêmesis, a deusa que pune o orgulho desmedido, ouviu a prece e a atendeu. A pena foi aquela porque espelhava a culpa: quem negou amor a todos passaria a amar sem retorno.
As fontes antigas divergem sobre esse ponto. O mitógrafo grego Conon, nas Narrativas (século I a.C.), conta que o rejeitado se chamava Amínias, que tirou a própria vida com uma espada dada por Narciso e pediu vingança aos deuses. O viajante Pausânias, na Descrição da Grécia (século II d.C.), rejeita a história do reflexo e diz que Narciso olhava a água para rever o rosto de uma irmã gêmea perdida. Esta edição segue Ovídio.
Narciso recusou todos os olhares e ganhou de castigo o único que nunca o recusaria.
Na fonte, o momento do reconhecimento vem numa frase curta: "iste ego sum" (esse sou eu). Ele percebe o engano e mesmo assim não consegue se afastar. Chega a desejar ser separado do próprio corpo, porque o que ama está nele mesmo.
Definhou na margem. Eco, ainda magoada, repetiu o último "adeus" que ele disse. Ovídio acrescenta que, no mundo dos mortos, Narciso continuou se olhando nas águas do Estige, o rio do Hades. No bosque ficou a flor.
A palavra seguiu caminho próprio. Plínio, o Velho, na História Natural (77 d.C.), ligou o nome da planta a "narce" (torpor, em grego), por causa do perfume que entorpeceria; filólogos tratam essa ligação como etimologia popular, e a origem do grego Narkissos segue incerta, talvez anterior ao grego. Em 1898, o médico britânico Havelock Ellis usou a imagem de Narciso num estudo sobre autoerotismo. Em 1899, o psiquiatra alemão Paul Näcke cunhou o termo "Narcismus". Em 1914, Sigmund Freud publicou o ensaio Sobre o narcisismo: uma introdução, e a palavra entrou de vez na língua comum.
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II O Diagnóstico
Uma superfície que só concorda
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O núcleo arquetípico é o olhar que só encontra a si: alguém procura no mundo uma superfície que devolva a própria imagem e confunde a confirmação com companhia.
O primeiro traço é a recusa como proteção. Antes da fonte, Narciso já se fechava. Recusar todos os que chegavam perto o poupava de ser visto por olhos que ele não controlava. O castigo apenas completou o movimento: quem não aceita nenhum olhar alheio acaba sozinho com o próprio.
O segundo traço é a escolha da água parada. A fonte de Ovídio é intocada, sem galho, sem bicho, sem vento. Uma água mexida teria quebrado a imagem. Hoje, a fonte lisa é o círculo em que ninguém discorda, o grupo de mensagens em que todos concordam, a câmera frontal do celular que mostra o rosto antes de mostrar a cena.
O terceiro traço é que o reflexo imita e não responde. Narciso sorri e o rosto sorri; fala e a boca se mexe sem som. Eco, a poucos passos, é o espelho sonoro da mesma cena: devolve as palavras dele sem acrescentar nenhuma. Os dois ficaram juntos no bosque, e nenhum ouviu o outro de verdade.
O quarto traço é o mais inquietante do mito. Reconhecer não salvou. Narciso diz "esse sou eu" e continua deitado. A profecia de Tirésias se cumpre dessa forma: Narciso se conheceu tarde, já preso, sem ter aprendido a olhar para fora.
O quinto traço mora no nome da flor. Se a ligação de Plínio com "torpor" é popular, a imagem acerta mesmo assim: quem só se contempla vai ficando entorpecido, sem fome, sem sono, sem notar o tempo passar na margem.
Vale separar o mito do diagnóstico clínico. O Transtorno de Personalidade Narcisista está descrito no DSM-5, manual publicado pela Associação Americana de Psiquiatria em 2013, e só um profissional o identifica. Freud, em 1914, chamou de narcisismo primário uma fase normal do desenvolvimento, em que toda criança investe afeto em si. Amor-próprio não é doença; a fonte vira prisão quando nada mais consegue entrar nela.
A tradução para hoje é cotidiana. É a pessoa que espera o outro terminar a frase só para voltar ao próprio assunto. É o chefe que promove quem repete a opinião dele. É a conversa em que alguém ouve apenas o final da sua frase, como Eco, e devolve em forma de história sobre si.
O sinal de alerta é simples. Pense na última discussão em que alguém discordou de você. Se a sua primeira reação foi procurar quem concordasse, você correu para a fonte.
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