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ED 182
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Erlik escondeu lodo na boca e cuspiu montanhas

Ülgen mandou buscar barro no fundo do mar, e o pedaço guardado inchou junto com a terra nova

Erlik cospe o lodo escondido e as montanhas brotam da planície

Erlik e o lodo guardado na boca

▼

A água estava fria e cinzenta, sem fundo à vista, quando Ülgen, o deus do céu dos povos do Altai, pairou sobre ela sem achar onde pousar. Só havia o vento e o barulho das ondas batendo umas nas outras.

O Altai é a cordilheira onde hoje se encontram Rússia, Mongólia, China e Cazaquistão. Os povos de língua turca da região contavam que, no começo, Ülgen voava sobre esse mar como um ganso, procurando chão.

Da espuma subiu outro ser. Os narradores o chamam de Erlik, e no início da história ele ainda não tem trono nem reino: é só um companheiro que saiu da água e passou a voar junto.

Ülgen precisava de terra para começar a obra, e a terra estava lá embaixo. Sem asas que servissem debaixo da água, mandou Erlik mergulhar e trazer um punhado do lodo que cobria o leito do mar.

Erlik desceu. Voltou sem fôlego, com as mãos cheias de lama escura e gelada, e entregou tudo a Ülgen. Tudo, menos um pedaço.

Esse pedaço ele guardou na boca, escondido atrás dos dentes, com o gosto de sal e areia grudado na língua.

Ülgen espalhou o lodo sobre a água, e a terra começou a crescer, plana e lisa como couro esticado. O pedaço escondido cresceu junto, dentro da boca de Erlik, até ele não conseguir respirar.

Ele cuspiu. O que saiu virou os morros, os brejos e as serras que quebram a planície até hoje.

Quem conhece a paisagem do Altai entende a imagem: vales largos e lisos, cortados de repente por picos nevados e charcos onde o cavalo afunda até o joelho.

A história retrata um vício antigo de quem trabalha em grupo: entregar quase tudo e guardar um naco da obra comum para si, na esperança de que ninguém perceba.

A primeira faixa mostra quem registrou o relato, por que Erlik escondeu o barro e o que Ülgen fez com ele.

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I  O Mito

O mergulho no mar sem fundo

O mergulho de Erlik chegou à escrita pelas mãos do linguista alemão Wilhelm Radloff, que percorreu o Altai nos anos 1860 e publicou o relato em 1866, no primeiro volume de Proben der Volksliteratur der türkischen Stämme Süd-Sibiriens (Amostras da literatura popular das tribos turcas do sul da Sibéria). O missionário russo Vasily Verbitsky anotou variantes parecidas entre os altaianos e as publicou em 1893.

Os estudiosos chamam esse tipo de história de mito do mergulhador da terra (earth-diver, em inglês): um ser desce ao fundo das águas do começo do mundo e traz o barro de onde nasce o chão. A versão altaica tem um traço próprio, o mergulhador que trapaceia.

Ülgen é o deus supremo do céu claro, morador das camadas mais altas do firmamento. Erlik, no fim da história, vira o senhor do mundo de baixo, para onde os kam (os xamãs altaicos) desciam em transe para negociar com ele.

O motivo do mergulho é dito sem rodeio no relato: Ülgen queria criar a terra e não tinha material. O lodo estava no fundo, e o fundo era longe demais para quem só sabia voar. Erlik, recém-saído da água, sabia nadar até lá.

Erlik escondeu o lodo porque queria uma terra só dele. Nas variantes de Radloff e de Verbitsky, a intenção se repete: guardar um pouco do material da criação para, mais tarde, fazer um mundo próprio, onde ele mandasse. Algumas versões dizem que ele mergulhou várias vezes e só na última trouxe o barro; esta edição segue a do mergulho único, e o motivo do esconderijo não muda entre elas.

Os narradores davam ao momento um detalhe que ajuda a imaginar a cena. Erlik subiu à tona com os olhos ardendo de sal, as unhas cheias de barro e a respiração curta, e mesmo assim teve tempo de separar o naco e enfiá-lo na boca antes de abrir as mãos para Ülgen.

Ülgen não precisou de prova. Viu a terra crescer sobre a água e viu o rosto de Erlik inchar no mesmo ritmo.

O lodo na boca obedecia à mesma ordem do lodo espalhado: crescia. Erlik não conseguia falar nem engolir. Ülgen perguntou o que ele tinha feito e mandou que cuspisse.

Ele cuspiu, e o barro guardado caiu sobre a terra nova. Onde caiu, a planície se ergueu em morros e pântanos. Os altaianos explicavam por esse cuspe o relevo acidentado da região, cheio de serras e brejos que atrapalham a caminhada e o gado.

O castigo veio logo, e o motivo também é claro: Erlik tentou dividir a criação às escondidas. Ülgen o mandou para debaixo da terra, onde ele passou a reinar sobre o mundo escuro. As versões discordam sobre a hora exata do banimento, logo após o cuspe ou depois de outras trapaças, e esta edição segue a primeira.

 
 

II  O Diagnóstico

O naco atrás dos dentes

O padrão que o mito descreve ganha nome nesta edição: o lodo na boca. É o pedaço da obra comum que alguém guarda para si, por garantia, por vaidade ou por plano próprio, enquanto entrega o resto como se fosse o todo.

O primeiro traço é a entrega quase completa. Erlik não roubou o lodo inteiro. Entregou as mãos cheias e escondeu pouco. A trapaça funciona justamente porque o grosso chega, e quem recebe não sente falta do que nunca viu.

O segundo traço é o crescimento. O mito insiste num detalhe físico: o pedaço escondido inchou na mesma proporção da terra. Quanto mais a obra comum avança, maior fica o naco guardado, e mais difícil é mantê-lo calado.

O terceiro traço é o cuspe tardio. Erlik não devolveu o lodo quando era pequeno. Devolveu quando já não cabia, e aí ele caiu torto, em forma de serra e brejo, num chão que tinha nascido liso.

“O que não é útil para a colmeia também não é útil para a abelha.”

Marco Aurélio, Meditações, livro VI, c. 180 d.C.

Marco Aurélio, imperador de Roma, escrevia sobre a parte que só tem valor por causa do todo. Erlik quis ser abelha com colmeia particular, usando o mel da colmeia de Ülgen.

Na vida comum, o lodo na boca aparece no sócio que guarda o melhor cliente numa carteira paralela, para o dia em que sair. Aparece no colega que esconde a parte do sistema que só ele entende, para continuar indispensável.

Aparece também em casa: o casal que junta as economias, menos uma reserva que um dos dois mantém sem contar. E aparece na família, na notícia sobre a herança ou sobre a saúde de alguém que um parente segura enquanto os outros decidem às cegas.

Há um custo que o mito deixa claro e que costuma passar despercebido. Enquanto guardava o lodo, Erlik não podia falar. O naco escondido tira a voz de quem o carrega: ele não opina, não discute, não pede ajuda, porque qualquer frase pode denunciar o volume na bochecha.

O sinal de alerta é físico, como no mito. A boca fica cheia: a pessoa evita certas perguntas, muda de assunto, engole a resposta. Quando falar de um tema ficou difícil, provavelmente há lodo guardado nele.

 

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III  A Saída

A boca vazia antes da terra crescer

O mito não perdoa Erlik, mas mostra onde estava a porta de saída. Ülgen fez a pergunta antes de dar a ordem, e Erlik teve a chance de abrir a boca por vontade própria. O cuspe só veio porque ele já sufocava, e foi esse atraso que fez o barro cair em forma de estrago.

Para quem reconhece em si o lodo na boca, quatro passos:

1. Nomeie o naco. Escreva numa linha o que você está guardando da obra comum: o cliente, a senha, a reserva, a informação. Lodo sem nome cresce sem que o dono perceba.

2. Devolva enquanto é pequeno. O pedaço de Erlik cabia na boca no começo. Conte hoje a parte escondida, quando a conversa ainda é curta e o estrago ainda não existe.

3. Separe às claras o que é seu. Querer uma terra própria não é o erro do mito; esconder é. Se você quer um projeto só seu, diga, combine e faça com material seu.

4. Responda à primeira pergunta. Ülgen perguntou antes de mandar cuspir. Quando alguém pergunta pelo pedaço que falta, a resposta honesta naquela hora custa menos do que qualquer explicação depois.

Vale um contrapeso. Nem todo segredo é lodo roubado. Guardar o que nunca pertenceu à obra comum, uma ideia pessoal, um diário, uma economia feita antes da sociedade, é privacidade, e o mito não trata dela. O alvo é o barro que veio do fundo comum e não voltou.

Há também uma ironia no relevo. As serras do Altai, que o mito atribui ao cuspe de Erlik, estão entre as paisagens mais bonitas da Ásia Central. A beleza não apaga o gesto; mostra só que o estrago também vira paisagem com o tempo, e que ninguém consegue mais alisar o chão.

O ganho de abrir a boca cedo é também prático. Erlik, se tivesse devolvido o barro na hora, talvez ganhasse de Ülgen um pedaço de terra às claras; o relato não diz, porque ele nunca tentou. O que se sabe é o resultado do caminho escolhido: banimento e um chão torto.

A pergunta da edição é esta: que pedaço da obra comum você está segurando atrás dos dentes?

Erlik, com o gosto de barro ainda na língua e a planície cheia de morros a seus pés, respondeu a Ülgen na versão que esta edição segue: “Eu queria fazer uma terra só minha.”

 
 
Quiz da edição

No mito altaico, por que Erlik acabou cuspindo o pedaço de lodo que tinha escondido na boca?

APorque Ülgen ameaçou expulsá-lo do céu antes de descobrir o esconderijo
BPorque o sal do mar queimava sua língua e ele não resistiu mais
CPorque o pedaço cresceu junto com a terra nova até ele não conseguir respirar
DPorque outro ser saído da água avisou Ülgen sobre o esconderijo

Resultado da última edição: 43% acertaram.

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