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O mergulho de Erlik chegou à escrita pelas mãos do linguista alemão Wilhelm Radloff, que percorreu o Altai nos anos 1860 e publicou o relato em 1866, no primeiro volume de Proben der Volksliteratur der türkischen Stämme Süd-Sibiriens (Amostras da literatura popular das tribos turcas do sul da Sibéria). O missionário russo Vasily Verbitsky anotou variantes parecidas entre os altaianos e as publicou em 1893.
Os estudiosos chamam esse tipo de história de mito do mergulhador da terra (earth-diver, em inglês): um ser desce ao fundo das águas do começo do mundo e traz o barro de onde nasce o chão. A versão altaica tem um traço próprio, o mergulhador que trapaceia.
Ülgen é o deus supremo do céu claro, morador das camadas mais altas do firmamento. Erlik, no fim da história, vira o senhor do mundo de baixo, para onde os kam (os xamãs altaicos) desciam em transe para negociar com ele.
O motivo do mergulho é dito sem rodeio no relato: Ülgen queria criar a terra e não tinha material. O lodo estava no fundo, e o fundo era longe demais para quem só sabia voar. Erlik, recém-saído da água, sabia nadar até lá.
Erlik escondeu o lodo porque queria uma terra só dele. Nas variantes de Radloff e de Verbitsky, a intenção se repete: guardar um pouco do material da criação para, mais tarde, fazer um mundo próprio, onde ele mandasse. Algumas versões dizem que ele mergulhou várias vezes e só na última trouxe o barro; esta edição segue a do mergulho único, e o motivo do esconderijo não muda entre elas.
Os narradores davam ao momento um detalhe que ajuda a imaginar a cena. Erlik subiu à tona com os olhos ardendo de sal, as unhas cheias de barro e a respiração curta, e mesmo assim teve tempo de separar o naco e enfiá-lo na boca antes de abrir as mãos para Ülgen.
Ülgen não precisou de prova. Viu a terra crescer sobre a água e viu o rosto de Erlik inchar no mesmo ritmo.
O lodo na boca obedecia à mesma ordem do lodo espalhado: crescia. Erlik não conseguia falar nem engolir. Ülgen perguntou o que ele tinha feito e mandou que cuspisse.
Ele cuspiu, e o barro guardado caiu sobre a terra nova. Onde caiu, a planície se ergueu em morros e pântanos. Os altaianos explicavam por esse cuspe o relevo acidentado da região, cheio de serras e brejos que atrapalham a caminhada e o gado.
O castigo veio logo, e o motivo também é claro: Erlik tentou dividir a criação às escondidas. Ülgen o mandou para debaixo da terra, onde ele passou a reinar sobre o mundo escuro. As versões discordam sobre a hora exata do banimento, logo após o cuspe ou depois de outras trapaças, e esta edição segue a primeira.
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