A resposta de ontem O que Tumatauenga fez com os filhos dos irmãos? Tumatauenga caçou e comeu os filhos dos irmãos, para castigar quem o deixou sozinho contra Tawhirimatea. Fez armadilhas para as aves de Tane, redes para os peixes de Tangaroa e cavou a terra atrás das plantas de Rongo e Haumia, segundo Te Rangikaheke em Nga Mahi a nga Tupuna (1854). Daí vem o costume dos homens, filhos de Tu, que comem peixe, ave e raiz. |
O mito de Apolaki e Mayari vem da tradição oral dos kapampangan, o povo da província de Pampanga, na ilha de Luzon, nas Filipinas, e a deusa Mayari aparece também entre os tagalog, os vizinhos deles. Não há um texto antigo único. O relato chegou ao papel no século XX, recolhido por folcloristas filipinos, e daí nascem as várias versões que circulam hoje.
Nas versões mais contadas, Bathala, o criador, teve filhos com uma mulher mortal. Apolaki recebeu o sol. Mayari recebeu a lua. Mayari tinha ainda duas irmãs, e cada uma ganhou do pai a sua própria parte do céu, longe da briga dos dois mais velhos.
Bathala não dividiu o governo antes de partir. Foi a falta de partilha que abriu a guerra: o pai deixou o trono vago, e cada filho achou que tinha direito a ele inteiro. Apolaki se via como herdeiro natural, dono da luz mais forte. Mayari se via como igual, filha do mesmo pai, com a mesma pretensão.
O motivo da luta, então, é dito com clareza em todas as versões: nenhum dos dois aceitava governar só uma parte. Cada um queria o mundo sozinho, de dia e de noite.
A arma também tem explicação simples. No arquipélago, o bambu é o material de tudo: casa, ponte, cerca, vara de pesca. Na briga, Apolaki pegou um bastão de bambu, a arma que estava à mão, e acertou a irmã no rosto. O golpe arrancou um dos olhos dela.
Aqui as fontes divergem. Numa versão, Apolaki se arrepende quando vê a irmã sangrando e propõe a divisão por remorso. Noutra, quem pesa é o mundo embaixo: com a guerra no céu, ora havia luz demais, ora escuro demais, e a gente da terra sofria. Esta edição segue a versão do remorso, a mais repetida nas coletâneas de folclore filipino.
O acordo saiu nos termos de Apolaki. Ele ficou com o dia, que é a parte mais clara. Mayari ficou com a noite. Nenhum invadiria o turno do outro, e os dois deixariam o céu em paz.
O castigo de Mayari não veio de um tribunal. Veio do próprio golpe. Ela ganhou o trono da noite, mas subiu com um olho só, e a lua passou a brilhar com metade da luz. Assim, explica o mito, o luar não aquece nem cega como o sol.
A história serve de explicação para a natureza: por que há dia e noite, por que o sol e a lua quase nunca governam juntos, por que a lua é mais fraca e tem manchas. E carrega também um retrato de família, que a seção seguinte examina.
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O padrão ganha nome nesta edição: a partilha tardia. Acontece quando uma família só aceita dividir o que herdou depois de ferir alguém na disputa. A divisão sai justa no papel, mas um dos lados já saiu cego.
Apolaki não era incapaz de repartir. Ele mesmo propôs o acordo dos turnos, e o acordo funcionou. O problema é a ordem. A proposta veio depois do bambu, quando a irmã já tinha perdido o olho.
Na vida comum, o padrão aparece no inventário dos pais que só termina depois de anos de processo entre irmãos. Aparece na sociedade desfeita, quando os sócios só aceitam dividir a carteira de clientes depois de destruir a reputação um do outro. Aparece no divórcio em que a guarda dos filhos se resolve só depois da audiência mais dura.
“Olho por olho, dente por dente.” Êxodo 21:24, Bíblia hebraica |
A lei do Êxodo foi escrita para limitar a vingança: o castigo não podia passar do tamanho do dano. O mito kapampangan mostra o problema do outro lado. Apolaki não devolveu um olho por outro. Tirou o olho da irmã sem ter perdido nada, e só depois pensou em medida.
Há um primeiro traço no padrão. Quem fere costuma propor a divisão em tom generoso. Apolaki ofereceu a noite como se fosse um presente, mas ficou com a parte mais clara. Quem bateu escolhe os termos, e quem apanhou aceita porque está sangrando.
O segundo traço é a cicatriz que fica no acordo. A lua governa, mas governa com metade da luz. Na família, o irmão ferido recebe a parte dele e passa o resto da vida com menos brilho nas festas, nos almoços, nas fotos.
O terceiro traço é o silêncio depois. Sol e lua cumprem o trato e quase nunca se encontram. A partilha tardia costuma trazer paz, mas uma paz de turnos: um chega, o outro já foi.
Há também um ganho escondido, e ele explica por que o padrão se repete. Enquanto briga, o irmão mais forte ainda acredita que pode ficar com tudo. Repartir antes da luta exigiria admitir, logo no começo, que a herança tem dois donos.
Repare quando a sua família só começa a falar em divisão depois de alguém sair machucado. A divisão pode estar certa, e mesmo assim chegou tarde.
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