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Apolaki cegou a irmã antes de dividir o céu

Com Bathala fora, o sol e a lua lutaram pelo trono, e a partilha dos turnos só veio depois do golpe de bambu

Apolaki diante de Mayari ferida no olho

O sol e a lua depois do bambu

▼

O bambu estalou seco, e o cheiro de seiva verde subiu junto com o grito. A vara tinha acabado de bater no rosto de uma deusa, e o sangue escorria quente pela face dela.

A deusa era Mayari, senhora da lua. Quem segurava o bambu era Apolaki, senhor do sol, irmão dela. Os dois eram filhos de Bathala, o deus supremo dos tagalog, povo das ilhas do norte das Filipinas.

Bathala tinha governado o céu e a terra sozinho desde o começo. Quando ele se foi, deixou o mundo sem dono e dois herdeiros com a mesma pretensão. Apolaki queria o trono inteiro. Mayari também.

Não houve conversa longa. Houve luta. Os irmãos brigaram durante dias, sem nenhum ceder, e a disputa só parou quando o bambu acertou o olho da irmã.

Ferida, Mayari continuou de pé. Foi então, e só então, que Apolaki baixou a arma e propôs um acordo: ele governaria o dia, ela governaria a noite. Cada irmão no seu turno, sem invadir o turno do outro.

O acordo valeu. Valeu até hoje, dizem os contadores de história do arquipélago. Mas a lua subiu para o céu da noite com um olho só. Daí vem, segundo o mito, o motivo de ela brilhar menos: a luz dela é metade da luz que tinha antes do golpe.

Os mais velhos apontavam para a lua cheia e mostravam as manchas escuras na face dela. Era a cicatriz da deusa, contavam às crianças, e o preço de uma divisão feita tarde.

Nenhum dos dois irmãos voltou a disputar o trono. O sol nasce, a lua espera. A lua sobe, o sol já foi. Os dois nunca mais dividiram o mesmo céu na mesma hora.

Logo abaixo, de onde vem o relato, por que o irmão só aceitou repartir depois de ferir e o que fazer quando a partilha da sua família chega tarde demais.

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I  O Mito

A herança sem testamento

A resposta de ontem

O que Tumatauenga fez com os filhos dos irmãos?

Tumatauenga caçou e comeu os filhos dos irmãos, para castigar quem o deixou sozinho contra Tawhirimatea. Fez armadilhas para as aves de Tane, redes para os peixes de Tangaroa e cavou a terra atrás das plantas de Rongo e Haumia, segundo Te Rangikaheke em Nga Mahi a nga Tupuna (1854). Daí vem o costume dos homens, filhos de Tu, que comem peixe, ave e raiz.

O mito de Apolaki e Mayari vem da tradição oral dos kapampangan, o povo da província de Pampanga, na ilha de Luzon, nas Filipinas, e a deusa Mayari aparece também entre os tagalog, os vizinhos deles. Não há um texto antigo único. O relato chegou ao papel no século XX, recolhido por folcloristas filipinos, e daí nascem as várias versões que circulam hoje.

Nas versões mais contadas, Bathala, o criador, teve filhos com uma mulher mortal. Apolaki recebeu o sol. Mayari recebeu a lua. Mayari tinha ainda duas irmãs, e cada uma ganhou do pai a sua própria parte do céu, longe da briga dos dois mais velhos.

Bathala não dividiu o governo antes de partir. Foi a falta de partilha que abriu a guerra: o pai deixou o trono vago, e cada filho achou que tinha direito a ele inteiro. Apolaki se via como herdeiro natural, dono da luz mais forte. Mayari se via como igual, filha do mesmo pai, com a mesma pretensão.

O motivo da luta, então, é dito com clareza em todas as versões: nenhum dos dois aceitava governar só uma parte. Cada um queria o mundo sozinho, de dia e de noite.

A arma também tem explicação simples. No arquipélago, o bambu é o material de tudo: casa, ponte, cerca, vara de pesca. Na briga, Apolaki pegou um bastão de bambu, a arma que estava à mão, e acertou a irmã no rosto. O golpe arrancou um dos olhos dela.

Aqui as fontes divergem. Numa versão, Apolaki se arrepende quando vê a irmã sangrando e propõe a divisão por remorso. Noutra, quem pesa é o mundo embaixo: com a guerra no céu, ora havia luz demais, ora escuro demais, e a gente da terra sofria. Esta edição segue a versão do remorso, a mais repetida nas coletâneas de folclore filipino.

O acordo saiu nos termos de Apolaki. Ele ficou com o dia, que é a parte mais clara. Mayari ficou com a noite. Nenhum invadiria o turno do outro, e os dois deixariam o céu em paz.

O castigo de Mayari não veio de um tribunal. Veio do próprio golpe. Ela ganhou o trono da noite, mas subiu com um olho só, e a lua passou a brilhar com metade da luz. Assim, explica o mito, o luar não aquece nem cega como o sol.

A história serve de explicação para a natureza: por que há dia e noite, por que o sol e a lua quase nunca governam juntos, por que a lua é mais fraca e tem manchas. E carrega também um retrato de família, que a seção seguinte examina.

 
 

II  O Diagnóstico

A partilha depois do golpe

O padrão ganha nome nesta edição: a partilha tardia. Acontece quando uma família só aceita dividir o que herdou depois de ferir alguém na disputa. A divisão sai justa no papel, mas um dos lados já saiu cego.

Apolaki não era incapaz de repartir. Ele mesmo propôs o acordo dos turnos, e o acordo funcionou. O problema é a ordem. A proposta veio depois do bambu, quando a irmã já tinha perdido o olho.

Na vida comum, o padrão aparece no inventário dos pais que só termina depois de anos de processo entre irmãos. Aparece na sociedade desfeita, quando os sócios só aceitam dividir a carteira de clientes depois de destruir a reputação um do outro. Aparece no divórcio em que a guarda dos filhos se resolve só depois da audiência mais dura.

“Olho por olho, dente por dente.”

Êxodo 21:24, Bíblia hebraica

A lei do Êxodo foi escrita para limitar a vingança: o castigo não podia passar do tamanho do dano. O mito kapampangan mostra o problema do outro lado. Apolaki não devolveu um olho por outro. Tirou o olho da irmã sem ter perdido nada, e só depois pensou em medida.

Há um primeiro traço no padrão. Quem fere costuma propor a divisão em tom generoso. Apolaki ofereceu a noite como se fosse um presente, mas ficou com a parte mais clara. Quem bateu escolhe os termos, e quem apanhou aceita porque está sangrando.

O segundo traço é a cicatriz que fica no acordo. A lua governa, mas governa com metade da luz. Na família, o irmão ferido recebe a parte dele e passa o resto da vida com menos brilho nas festas, nos almoços, nas fotos.

O terceiro traço é o silêncio depois. Sol e lua cumprem o trato e quase nunca se encontram. A partilha tardia costuma trazer paz, mas uma paz de turnos: um chega, o outro já foi.

Há também um ganho escondido, e ele explica por que o padrão se repete. Enquanto briga, o irmão mais forte ainda acredita que pode ficar com tudo. Repartir antes da luta exigiria admitir, logo no começo, que a herança tem dois donos.

Repare quando a sua família só começa a falar em divisão depois de alguém sair machucado. A divisão pode estar certa, e mesmo assim chegou tarde.

 

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III  A Saída

Repartir com os dois olhos

O mito não mostra um Apolaki que divide antes. Mostra só o acordo depois do golpe. A saída está em fazer, no começo, o que ele fez no fim.

Para quem está diante de uma herança, uma sociedade ou uma separação, quatro passos:

1. Proponha a divisão antes da briga. O acordo dos turnos era bom. Feito no primeiro dia, teria poupado o olho de Mayari.

2. Divida o que cada um faz melhor. Apolaki ficou com o dia porque tem a luz forte; Mayari, com a noite, onde a luz suave serve. Partilha boa olha para o talento de cada herdeiro, não só para o tamanho da fatia.

3. Deixe o lado mais fraco falar primeiro. Quem tem o bambu na mão escolhe os termos sem perceber. Ouvir antes o irmão com menos força corrige a balança.

4. Registre o acordo enquanto todos enxergam bem. Bathala partiu sem testamento, e a guerra nasceu do vazio. Escrever a divisão em vida, com todos presentes, evita o vácuo.

Vale um contrapeso. Há disputas em que um dos lados age de má-fé, e dividir cedo seria ceder ao abuso. O mito não pede ao irmão ferido abrir mão do que é dele. Pede que ninguém espere a ferida para começar a conversa.

Também vale olhar quem já saiu machucado. Se o acordo veio tarde, reconhecer o dano em voz alta ajuda a lua a governar a noite dela sem vergonha da cicatriz. Apolaki nunca devolveu o olho, mas poderia ter nomeado o que tirou.

E vale olhar o lado do herdeiro forte. Quem bateu também perdeu: ganhou o dia, mas nunca mais dividiu o céu com a irmã. A família inteira paga pelo bambu, geração depois de geração, em cada encontro desmarcado.

Fica para você: qual partilha da sua casa ainda espera alguém se ferir para começar?

Mayari aceitou a noite e subiu com o olho que restou, e as duas irmãs mais novas ocuparam o céu longe da briga, com as partes que Bathala tinha dado a cada uma.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Como se chamavam as duas irmãs de Mayari, e qual parte do céu coube a cada uma?

 
 
Quiz da edição

Depois da luta pelo trono, como Apolaki e Mayari dividiram o governo do céu?

AMayari ficou com o dia, e Apolaki com a noite
BOs dois passaram a governar juntos, ao mesmo tempo, dia e noite
CApolaki ficou com o dia, e Mayari com a noite
DBathala voltou do além e dividiu o céu em três partes iguais

Resultado da última edição: 44% acertaram.

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