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O barro que saiu torto nas mãos de Obatalá
Como o orixá encarregado de modelar os corpos bebeu vinho de palma durante o trabalho e depois assumiu cada figura defeituosa como obra sua
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Obatalá modela corpos de barro na oficina
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O vinho de palma azeda no mesmo dia em que é tirado. A seiva escorre do corte aberto no tronco, junta espuma dentro da cabaça em poucas horas e passa de doce a ácido antes do sol cair. Quem trabalha ao ar livre bebe direto da cabaça, sem medir, e o gosto adocicado avisa muito pouco sobre a força do que já fermentou lá dentro.
Existe um tipo de trabalho em que o material não perdoa distração. Não porque seja difícil, mas porque o resultado sai do banco de trabalho andando. Peça de madeira torta vira lenha, tecido cortado errado vira retalho, texto ruim volta pro rascunho. Há ofícios, porém, cujo produto ganha vida no instante em que sai da mão de quem o fez, e a partir daí nenhuma correção alcança o original.
Quando o defeito aparece num produto assim, quem fez tem duas saídas, e as duas custam. A primeira é negar: dizer que o material veio ruim, que a encomenda foi mal explicada, que outra mão mexeu depois. A segunda é assumir: colocar o nome na peça torta e passar a responder por ela pelo resto do tempo, incluindo o dia em que alguém apontar o defeito na sua frente.
Quase todo mundo escolhe a primeira, e por um motivo prático: negar é grátis no primeiro dia. O custo chega depois, parcelado, na forma de peças órfãs espalhadas pelo mundo sem ninguém que responda por elas. Já assumir cobra tudo à vista e devolve uma coisa só, que costuma parecer pouca no momento e vale muito no longo prazo: autoridade sobre o próprio trabalho, defeito incluído.
Num pátio de barro vermelho da África Ocidental, um deus artesão passou por essa escolha com a cabaça ainda no chão ao lado dele, e o que decidiu naquela tarde continua definindo até hoje o que os devotos dele podem levar ao lábio.
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I O Mito
A cabaça que ficou ao lado do barro
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Olodumare, dono do destino e da existência, entregou a Obatalá a tarefa mais delicada da criação: modelar em barro os corpos que receberiam o sopro da vida. O barro vinha do fundo da terra, úmido e vermelho. Obatalá amassava, puxava membro por membro, alisava o rosto, deixava a figura secando ao sol antes de mandá-la ao criador para o sopro final.
O trabalho era longo e o pátio ficava aberto ao calor. Um servo trouxe emu, o vinho de palma tirado naquela manhã. Obatalá bebeu enquanto trabalhava, e o barro continuou passando pelas mãos dele na mesma velocidade de antes, com a atenção já em outro lugar.
As figuras que saíram daquela tarde vieram diferentes. Umas tinham a coluna torcida, outras nasceram sem a abertura dos olhos, algumas com um membro mais curto que o outro, outras com a pele clara demais para o sol daquela terra. Obatalá não percebeu nada, e enviou todas ao criador junto com as demais.
Olodumare soprou a vida em cada uma, sem separar as tortas das retas. O sopro não distingue acabamento: entra em qualquer corpo que tenha sido modelado, e a partir daquele instante o barro deixou de ser barro. As figuras levantaram, andaram e foram viver entre as outras.
"Obatalá é aquele que cria o ser humano tal como ele é, e a quem pertencem os albinos, os corcundas, os aleijados, todos os que carregam no corpo a marca do trabalho dele." > Pierre Verger, Orixás, 1981 |
Obatalá acordou no dia seguinte com a cabaça vazia ao lado do banco de trabalho e viu o que tinha entregado. Nenhuma daquelas figuras podia voltar ao balde. Elas já respiravam, já tinham nome, já andavam pelo mundo com a marca da mão dele no corpo.
O orixá não pediu que o sopro fosse retirado nem culpou o barro: assumiu cada figura torta como obra própria e jurou nunca mais tocar em vinho de palma.
Desde então, Obatalá passou a responder por todos os que nasceram fora do padrão da terra iorubá. Os albinos, os cegos de nascença, os corcundas e os que mancam ficaram sob a proteção direta dele, chamados de filhos seus em sentido literal, não simbólico. Quem os maltratava ofendia o orixá que os modelou.
E o vinho de palma virou proibição. Sacerdote e devoto de Obatalá não bebem emu, e o branco puro das roupas, sem uma gota de cor, repete todo dia a lembrança da tarde em que a mão firme falhou.
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II O Diagnóstico
Quem assume o defeito passa a mandar na obra
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O núcleo arquetípico aqui é a autoria que só se completa no defeito, o arranjo em que alguém cria bem por muito tempo, erra uma vez com consequência irreversível, e descobre que o vínculo com o próprio trabalho se decide justamente na peça que saiu errada.
O primeiro traço é a natureza do material. Barro seco volta ao balde; barro que recebeu sopro, não. Todo ofício tem um ponto de irreversibilidade, e quase ninguém sabe dizer onde ele fica no seu. Contrato assinado, remédio administrado, código em produção, filho criado, texto publicado: passado o ponto, o conserto existe, mas o original permanece.
O segundo traço é a atenção reduzida como decisão, e não como acidente. Obatalá não foi enganado por ninguém. Ele aceitou a cabaça no meio do trabalho, seguiu produzindo no ritmo de sempre e não parou para conferir. A queda de qualidade não veio da falta de habilidade, veio da recusa em interromper o serviço enquanto a habilidade estava comprometida.
O terceiro traço é o silêncio do controle de qualidade. Olodumare soprou vida em todas as figuras sem separar as tortas. A instância acima não filtrou o defeito, apenas o ratificou. Quem trabalha esperando que alguém adiante pegue o erro no meio do caminho descobre tarde que o processo seguinte quase sempre valida o que recebe.
O quarto traço é a bifurcação da manhã seguinte. Diante do dano feito, existia a saída de acusar o servo que trouxe o vinho, o barro que veio mal batido, o prazo apertado da criação. Obatalá escolheu o caminho caro. Assumiu a autoria por inteiro, e com ela recebeu uma obrigação vitalícia: responder por cada uma daquelas vidas para sempre.
O quinto traço é o que a assunção produziu. Ao aceitar as figuras tortas, o orixá deixou de ser apenas o modelador competente e virou o dono de uma categoria inteira de gente. Autoridade sobre um território raramente vem do sucesso naquele território: vem de quem levanta a mão quando o território dá problema e ninguém quer o próprio nome perto dele.
O sexto traço é a regra criada depois do dano. Obatalá não se limitou ao pedido de desculpas, instituiu uma proibição permanente sobre si mesmo e sobre quem o serve. Arrependimento sem mudança de regra dura até a próxima cabaça. Regra escrita depois do erro é o único arrependimento que o mundo consegue verificar.
A tradução para hoje dispensa pátio de barro. É o gestor que aprovou a contratação errada e continua respondendo pela pessoa em vez de empurrá-la para outra área. É o engenheiro que assina o defeito de fábrica que ele deixou passar. É o pai que reconhece qual parte do comportamento do filho começou na casa dele.
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