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ED 199
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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

Obá cortou a própria orelha e Xangô recusou o prato

Aconselhada pela rival Oxum, a primeira esposa serviu um pedaço de si no amalá do marido e ganhou o nojo dele

Obá oferece a Xangô a gamela de amalá com a orelha cortada

Xangô recusa o amalá servido por Obá

▼

O amalá ferveu a manhã inteira na panela de barro de Obá. Quiabo cortado em rodelas finas, pimenta, dendê e, no fundo, escondido no caldo grosso, um pedaço de carne que nenhum mercado de Oyó vendia: a orelha esquerda da cozinheira.

Obá era a primeira esposa de Xangô, o orixá do trovão e da justiça, rei de Oyó na memória iorubá. Guerreira, contam as histórias, derrubava homens na luta corpo a corpo. Perdeu a vez no palácio quando Xangô trouxe para casa Oxum, dona das águas doces, do ouro e do espelho, e depois Iansã, senhora dos ventos.

Obá via o marido passar mais noites no quarto de Oxum. Um dia engoliu o orgulho e perguntou à rival qual era o segredo. Oxum apareceu com um pano amarrado na cabeça e respondeu sem pressa: tinha cortado as duas orelhas e cozinhado no amalá preferido de Xangô. Desde então, disse, ele não saía de perto dela.

Era mentira. As orelhas de Oxum estavam inteiras debaixo do pano.

Obá acreditou. Pegou a faca da cozinha, cortou uma orelha, estancou o sangue com um pano, temperou o prato do jeito que o marido gostava e levou a gamela até ele com as duas mãos.

Xangô comeu a primeira colherada e sentiu a cartilagem entre os dentes. Mexeu o caldo e viu a orelha boiando entre os quiabos. Empurrou a gamela para longe, com nojo, e só então reparou no pano manchado na cabeça da esposa.

A cozinheira ganhou o oposto do que buscava. O marido não se aproximou: se afastou de vez, e o palácio inteiro ficou sabendo do prato antes do fim do dia.

A primeira seção conta de onde vem a história, por que Oxum mentiu e o que aconteceu com Obá depois da gamela. A segunda olha para o gesto de cortar um pedaço de si para caber no afeto de alguém. A terceira mostra o caminho de volta para a orelha inteira.

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I  O Mito

Três esposas e uma panela

A história de Obá vem da tradição oral iorubá, povo do sudoeste da atual Nigéria, e atravessou o Atlântico nos navios negreiros até a Bahia e Cuba. Ela sobreviveu nos terreiros de candomblé e de santería, cantada e dançada, muito antes de ser escrita.

Duas fontes reuniram as versões mais conhecidas. O fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger registrou a lenda em Orixás, de 1981, depois de décadas entre a Bahia e o Benim. O sociólogo Reginaldo Prandi juntou variantes em Mitologia dos Orixás, de 2001, com mais de trezentos mitos recolhidos.

As versões discordam num ponto central. Numa delas, Oxum arma a cena de propósito, de cabeça coberta, para humilhar a rival. Noutra, Obá ouve a receita de segunda mão e corta a orelha por conta própria. Em todas, a faca está na mão de Obá, e o prato chega a Xangô servido por ela. A edição segue a versão do conselho de Oxum, a mais repetida nos terreiros.

O motivo de Oxum também muda conforme quem conta. Para uns, era ciúme puro: Obá tinha o título de primeira esposa e a cozinha da casa. Para outros, Oxum só quis provar que a rival faria qualquer gesto, por mais absurdo, para recuperar o lugar.

O amalá também tem peso próprio. É a comida de Xangô por excelência, feita de quiabo e servida em gamela de madeira, até hoje oferecida a ele nas quartas-feiras nos terreiros. Esconder a orelha justamente nesse prato era tentar entrar no marido pela porta que ele mais abria.

Obá não era uma mulher frágil. Numa das histórias reunidas por Prandi, ela vence vários orixás na luta e só cai diante de Ogum, que espalha uma pasta escorregadia de quiabo no chão da arena. A guerreira que ninguém derrubava de pé se derrubou sozinha na cozinha.

Depois da gamela, a briga estourou. Obá descobriu a mentira e partiu para cima de Oxum. As duas se atracaram no pátio, e Xangô, furioso com o barulho, soltou o trovão sobre as esposas.

Em fuga, cada uma virou um rio. O Obá e o Osun correm hoje pela Nigéria, e onde as águas dos dois se encontram, contam os devotos, a correnteza fica revolta, como se a briga nunca tivesse terminado.

No candomblé, Obá dança com um escudo e com a mão cobrindo a lateral da cabeça. O gesto guarda a ferida. Quem a vê na roda reconhece de longe a orelha que falta, e ninguém da casa serve quiabo a Oxum e Obá na mesma gamela.

 
 

II  O Diagnóstico

O pedaço que ninguém pediu

O padrão do mito pode ser chamado de corte de pertença. A pessoa sente o afeto escapar e decide pagar com um pedaço de si: uma opinião, um gosto, um amigo, um horário, um sonho. Corta, tempera e serve, na esperança de ser escolhida de novo.

Repare no detalhe que dói. Xangô nunca pediu a orelha. O pedido veio de Oxum, de fora da relação, com interesse próprio. Obá cortou para atender a uma regra que alguém inventou sobre o que o marido queria.

“Encaixar-se é avaliar uma situação e virar quem você precisa ser para ser aceito. Pertencer não exige mudar quem somos; exige ser quem somos.”

Brené Brown, A Arte da Imperfeição (The Gifts of Imperfection), 2010 (tradução livre)

Na vida comum, o corte de pertença tem formas conhecidas. A pessoa que larga o esporte de que gostava porque o parceiro acha bobagem. O funcionário que concorda em toda reunião para não parecer difícil. A amiga que some do próprio grupo para caber no grupo do namorado.

O primeiro traço é a fonte do conselho. Quem corta raramente ouviu o pedido da boca do outro. Ouviu de uma revista, de um colega, de uma rival, de uma voz interna que jura saber o preço do amor.

O segundo traço é o efeito invertido. Obá queria ser vista e foi vista com nojo. Quem se mutila para agradar costuma entregar ao outro uma versão menor, mais ansiosa e mais estranha, e o outro se afasta justamente daquilo que foi feito para prendê-lo.

O terceiro traço é a ferida que fica. A orelha não volta. Os anos sem o hobby, a opinião engolida em tantas reuniões, o grupo de amigos perdido: o pedaço cortado raramente se recupera inteiro, mesmo quando a relação acaba.

O custo também é desigual. O corte leva um segundo e parece pequeno diante do medo de perder o outro. A conta chega depois, em parcelas: a pessoa já não reconhece a própria voz, e quem ficou ao lado dela também deixa de reconhecer.

Há ainda um ponto incômodo no mito. Xangô não sai como herói. Recusar o prato com nojo, sem uma palavra de cuidado à esposa ferida, também diz quem ele era. O corte de Obá não teria comprado afeto de um homem que só sabia empurrar a gamela.

E Oxum sabia disso. A rival entendeu antes de todos: quem aceita cortar a orelha já perdeu a disputa, porque deixou de disputar como ela mesma.

 

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III  A Saída

O prato sem a orelha

A saída do mito é simples de dizer e difícil de fazer: continuar cozinhando o amalá, sem cortar nada para pôr dentro dele. Obá tinha o título, a força e a cozinha. Faltou apostar que bastavam.

Para quem reconhece o corte de pertença em si, quatro passos:

1. Pergunte de quem veio o pedido. Antes de abrir mão de algo, descubra se a outra pessoa pediu isso com a própria boca. Se a regra veio de fora, ela vale tanto quanto o conselho de Oxum.

2. Nomeie o pedaço antes de cortar. Escreva o que você está prestes a largar: o curso, a amizade, a opinião. Dar nome ao preço tira o gesto do automático e mostra o tamanho da orelha.

3. Ofereça presença, não sacrifício. Obá podia ter levado o amalá sem nada escondido e sentado à mesa com o marido. Tempo, atenção e conversa franca prendem mais do que um pedaço de carne no fundo da panela.

4. Observe a reação ao inteiro. Se o outro só se aproxima quando você se diminui, a gamela empurrada já respondeu. A resposta dói, mas custa menos do que a próxima orelha.

Se o corte já aconteceu, comece pelo menor pedaço que dá para recuperar. Volte ao esporte uma vez por semana, diga a opinião numa reunião só, ligue para um amigo do grupo antigo. O gesto pequeno reabre o caminho para o resto.

Vale um contrapeso. Toda relação pede ajuste: horário, hábito, concessão de parte a parte. Ceder não é se mutilar. A diferença está no que sai do corte: concessão deixa você inteira e um pouco mais flexível; mutilação deixa uma ferida que precisa de pano na cabeça.

Também vale reparar no destino de Obá. Ela virou rio, e rio não se dobra para caber em lugar nenhum: abre o próprio leito. Os devotos ainda pedem a ela força para guerreiras e proteção para quem foi trocada.

A orelha não voltou, mas a dança guardou o gesto. Na roda, Obá cobre a ferida com a mão e segue dançando de escudo erguido, inteira no que restou.

Fica para você: qual foi o último pedaço seu que você cortou para caber no afeto de alguém?

Obá ainda corre pela Nigéria, e onde encontra o rio de Oxum, a água se agita e não deixa nenhuma das duas passar quieta.

 
 
Quiz da edição

No mito recolhido por Reginaldo Prandi, qual orixá é o único capaz de derrubar Obá na luta corpo a corpo, espalhando quiabo no chão da arena?

AXangô
BOxum
COgum
DIansã

Resultado da última edição: 25% acertaram.

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Dia 6 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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