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A história de Obá vem da tradição oral iorubá, povo do sudoeste da atual Nigéria, e atravessou o Atlântico nos navios negreiros até a Bahia e Cuba. Ela sobreviveu nos terreiros de candomblé e de santería, cantada e dançada, muito antes de ser escrita.
Duas fontes reuniram as versões mais conhecidas. O fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger registrou a lenda em Orixás, de 1981, depois de décadas entre a Bahia e o Benim. O sociólogo Reginaldo Prandi juntou variantes em Mitologia dos Orixás, de 2001, com mais de trezentos mitos recolhidos.
As versões discordam num ponto central. Numa delas, Oxum arma a cena de propósito, de cabeça coberta, para humilhar a rival. Noutra, Obá ouve a receita de segunda mão e corta a orelha por conta própria. Em todas, a faca está na mão de Obá, e o prato chega a Xangô servido por ela. A edição segue a versão do conselho de Oxum, a mais repetida nos terreiros.
O motivo de Oxum também muda conforme quem conta. Para uns, era ciúme puro: Obá tinha o título de primeira esposa e a cozinha da casa. Para outros, Oxum só quis provar que a rival faria qualquer gesto, por mais absurdo, para recuperar o lugar.
O amalá também tem peso próprio. É a comida de Xangô por excelência, feita de quiabo e servida em gamela de madeira, até hoje oferecida a ele nas quartas-feiras nos terreiros. Esconder a orelha justamente nesse prato era tentar entrar no marido pela porta que ele mais abria.
Obá não era uma mulher frágil. Numa das histórias reunidas por Prandi, ela vence vários orixás na luta e só cai diante de Ogum, que espalha uma pasta escorregadia de quiabo no chão da arena. A guerreira que ninguém derrubava de pé se derrubou sozinha na cozinha.
Depois da gamela, a briga estourou. Obá descobriu a mentira e partiu para cima de Oxum. As duas se atracaram no pátio, e Xangô, furioso com o barulho, soltou o trovão sobre as esposas.
Em fuga, cada uma virou um rio. O Obá e o Osun correm hoje pela Nigéria, e onde as águas dos dois se encontram, contam os devotos, a correnteza fica revolta, como se a briga nunca tivesse terminado.
No candomblé, Obá dança com um escudo e com a mão cobrindo a lateral da cabeça. O gesto guarda a ferida. Quem a vê na roda reconhece de longe a orelha que falta, e ninguém da casa serve quiabo a Oxum e Obá na mesma gamela.
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