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ED 179
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Vucub Caquix perdeu o brilho quando trocou os dentes por milho

No Popol Vuh, a arara que se dizia sol e lua guardava a grandeza num sorriso de joias, e os gêmeos sabiam onde apertar

A arara Vucub Caquix com dentes de joia, pousada num nance, e os gêmeos com a zarabatana

A arara que se dizia sol, antes do tiro

▼

O caroço do nance estalou entre os dentes, e o suco amarelo escorreu pelo bico. O galho cedia com o peso da ave, e no escuro da mata o único brilho vinha da boca dela.

Ainda não havia sol no mundo. Havia uma claridade fraca, de antes do amanhecer, e terra encharcada pelo dilúvio que acabara com um povo anterior, feito de madeira.

Naquela penumbra, Vucub Caquix (“Sete Arara”, na língua dos quichés, povo maia das montanhas da Guatemala) comia todos os dias na mesma árvore. Os olhos eram cobertos de metal polido, e os dentes, cravejados de pedra azul e verde, cintilavam a cada mordida.

Bastava para ele se apresentar como o sol. E também como a lua. Dizia que a luz dele chegava longe e que os caminhos do mundo dependiam do seu brilho.

Não chegava. A luz de Vucub Caquix só alcançava o galho onde ele estava pousado, e o céu continuava escuro por cima das penas.

Embaixo da árvore, atrás das folhas, dois irmãos esperavam com uma zarabatana (o tubo comprido de soprar bolinhas de barro). Eram gêmeos, Hunahpu e Xbalanque, e tinham decidido derrubar quem fingia ser o sol antes que o sol verdadeiro nascesse.

O tiro acertou. Mas o que tirou a grandeza da arara não foi a bolinha de barro. Foi, dias mais tarde, um casal de velhos curandeiros, uma conversa sobre dor de dente e um punhado de grãos de milho branco.

Os curandeiros não usaram arma nenhuma. Usaram a vaidade da própria arara, que acreditava guardar no sorriso a prova de ser maior que todos os bichos da mata, e que por essa crença abriu a boca a dois estranhos.

A história está no Popol Vuh, o livro sagrado dos quichés, e serve de espelho a quem guarda o próprio valor num enfeite que pode ser arrancado.

A primeira faixa conta quem era a ave, por que os gêmeos foram atrás dela e como a troca dos dentes a derrubou.

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I  O Mito

Uma arara antes do sol

O Popol Vuh (“Livro do Conselho”, em quiché) foi escrito na década de 1550 por nobres quichés anônimos, já com o alfabeto latino trazido pelos espanhóis. O original se perdeu. O texto sobreviveu porque o frade dominicano Francisco Ximénez o copiou e o traduziu ao espanhol por volta de 1701, em Chichicastenango, e a cópia dele está hoje na Newberry Library, em Chicago.

O livro começa com a criação. Os deuses do céu, liderados pelo Coração do Céu, tentaram fazer gente de barro, que se desfez, e depois gente de madeira, que andava e falava mas não tinha coração nem memória dos criadores. Por causa dessa falta, mandaram o dilúvio que varreu os bonecos de madeira.

No intervalo entre aquele povo e o próximo, o mundo ficou sem sol e sem gente. Nesse vazio, Vucub Caquix subiu a um posto que ninguém tinha dado a ele. Tinha mulher, Chimalmat, e dois filhos tão vaidosos quanto o pai: Zipacna, que erguia montanhas, e Cabracan, que as sacudia.

“Sou grande. Meus olhos são de metal, meus dentes brilham com joias. Sou o sol deles, sou a lua deles.”

Popol Vuh, manuscrito quiché, c. 1550 (tradução livre)

O motivo do castigo foi a mentira sobre a luz. O texto diz com todas as letras que Vucub Caquix não era o sol, só se engrandecia. Os gêmeos julgaram que a humanidade verdadeira, ainda por criar, não podia nascer sob um sol falso. As versões divergem sobre quem mandou, mas o manuscrito diz que os gêmeos agiram segundo a palavra do Coração do Céu, e esta edição segue o manuscrito.

Hunahpu e Xbalanque sabiam onde a arara comia. Esperaram ao pé do nance, e quando Vucub Caquix pousou, Hunahpu soprou a zarabatana. A bolinha acertou a mandíbula, a ave despencou do galho, e Hunahpu correu para agarrá-la.

A arara foi mais rápida. Arrancou o braço de Hunahpu pelo ombro, voou para casa com ele e o pendurou sobre o fogo. Para Chimalmat, reclamou da boca: os dentes estavam soltos e doíam sem parar.

Os gêmeos precisavam do braço de volta e de um jeito de terminar o serviço. Chamaram um casal de velhos, o Grande Queixada Branco e o Grande Quati Branco, e combinaram o disfarce: os dois seriam avós, e os gêmeos, netos órfãos que os seguiam.

O grupo passou diante da casa de Vucub Caquix anunciando que tirava verme de dente e curava olho. A arara, com dor, chamou os velhos. Eles disseram que um verme roía os dentes e que o único remédio era arrancá-los e pôr outros no lugar.

Vucub Caquix hesitou, e deu o motivo: era pelos dentes que ele era senhor. Os velhos prometeram dentes novos de osso moído. Puseram grãos de milho branco. Depois rasparam o metal dos olhos dele.

O rosto deixou de brilhar e já não tinha cara de senhor. A grandeza saiu junto com as joias, e Vucub Caquix perdeu a vida ali mesmo, seguido por Chimalmat. Os velhos tiraram o braço de Hunahpu do fogo e o colaram de novo no ombro.

 
 

II  O Diagnóstico

A grandeza presa na boca

O padrão que o mito descreve é a grandeza de adorno: o valor que a pessoa atribui a si mora num objeto que pode ser tirado dela, e não no que ela faz.

Vucub Caquix sabia onde estava o próprio poder. Quando os velhos propuseram arrancar os dentes, ele não perguntou se ia doer. Perguntou o que seria dele sem as joias. A resposta, ele mesmo deu: deixaria de ser senhor.

O primeiro traço é confundir brilho com luz. O metal dos olhos refletia, e a arara chamou o reflexo de sol. A luz verdadeira ilumina o caminho dos outros. O brilho de Vucub Caquix iluminava só o próprio galho.

O segundo traço é a dor no ponto mais valioso. Os gêmeos não miraram a asa nem a cauda. Miraram a mandíbula. Quem guarda tudo num lugar só oferece ao adversário um alvo único, e qualquer golpe ali vira crise inteira.

O terceiro traço é o desespero diante do remédio. Com a boca latejando, a ave chamou dois estranhos que passavam na estrada e entregou a eles justamente as joias. A vaidade que a fez se proclamar sol também a fez confiar em quem prometia mantê-la bonita.

“Por mais alto que seja o trono, sentamo-nos sempre sobre o nosso próprio traseiro.”

Michel de Montaigne, Ensaios, livro III, “Da experiência”, 1588

Montaigne escreveu a frase no último dos ensaios, pensando nos reis franceses que viu de perto. O trono é o adorno; quem senta nele continua do tamanho que tem, e a arara, sem os dentes de joia, voltou a ser uma ave faminta num galho de nance.

Na vida comum, o padrão aparece no gerente que só se apresenta pelo cargo e, quando a empresa corta a vaga, não sabe dizer quem é numa conversa de bar. Aparece em quem mede a própria importância pelo carro na garagem e entra em pânico com o primeiro arranhão.

Aparece também nas pequenas joias da boca: o sobrenome conhecido, o diploma emoldurado, o número de seguidores. Nenhum deles é ruim. O risco começa quando a pessoa, como a arara, responde à pergunta “quem é você?” apontando para o enfeite.

O sinal de alerta é a reação à ameaça de perda. Se a ideia de ficar sem o título, o cargo ou o elogio provoca uma dor desproporcional, a grandeza já foi parar dentro da boca.

 

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III  A Saída

O que sobra quando o milho entra

O mito não termina na queda da arara. Hunahpu e Xbalanque seguiram adiante, derrubaram Zipacna e Cabracan, desceram a Xibalba (o mundo subterrâneo dos quichés), venceram os senhores de lá e, ao subir, viraram o sol e a lua verdadeiros.

A diferença entre a arara e os gêmeos está no caminho. Vucub Caquix se declarou sol por causa do que carregava na boca. Os gêmeos chegaram ao céu por causa do que atravessaram embaixo da terra.

Para quem percebe que a própria grandeza depende de um adorno, o mito sugere quatro passos:

1. Faça a pergunta da arara. Escreva o que você deixaria de ser se perdesse amanhã o cargo, o título ou o elogio que mais preza. A lista mostra onde mora o seu valor.

2. Espalhe o peso. Os gêmeos acharam um alvo único na mandíbula. Cultive duas ou três fontes de valor que não dependam umas das outras: um ofício, um vínculo, uma prática.

3. Desconfie de quem promete manter o brilho. Os velhos curandeiros ofereceram exatamente o que a arara queria ouvir. Quando alguém elogia o seu adorno para pedir algo, olhe para o que está sendo pedido.

4. Troque declaração por travessia. Em vez de anunciar quem você é, conte o que você atravessou. Os gêmeos nunca disseram que eram o sol; viraram sol depois de Xibalba.

Vale um contrapeso. O mito não condena o enfeite em si. Os próprios maias incrustavam jade e pirita nos dentes, como mostram crânios encontrados em sepulturas de várias cidades da região, e faziam do enfeite um sinal de prestígio. O problema da arara foi tomar a joia pela luz.

A pergunta da edição é esta: se trocassem hoje o seu adorno mais caro por milho, quem continuaria reconhecendo você?

Vucub Caquix, ainda inteiro no galho do nance, tinha anunciado ao mundo sem sol: “Meus dentes brilham como o próprio céu.”

 
 

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Quiz da edição

No Popol Vuh, depois do tiro de zarabatana na mandíbula, o que Vucub Caquix arrancou de Hunahpu antes de voar para casa com ele?

AA zarabatana usada no tiro
BUma pena da cauda
CO braço, pelo ombro
DUm dos dentes de pedra

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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