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O Popol Vuh (“Livro do Conselho”, em quiché) foi escrito na década de 1550 por nobres quichés anônimos, já com o alfabeto latino trazido pelos espanhóis. O original se perdeu. O texto sobreviveu porque o frade dominicano Francisco Ximénez o copiou e o traduziu ao espanhol por volta de 1701, em Chichicastenango, e a cópia dele está hoje na Newberry Library, em Chicago.
O livro começa com a criação. Os deuses do céu, liderados pelo Coração do Céu, tentaram fazer gente de barro, que se desfez, e depois gente de madeira, que andava e falava mas não tinha coração nem memória dos criadores. Por causa dessa falta, mandaram o dilúvio que varreu os bonecos de madeira.
No intervalo entre aquele povo e o próximo, o mundo ficou sem sol e sem gente. Nesse vazio, Vucub Caquix subiu a um posto que ninguém tinha dado a ele. Tinha mulher, Chimalmat, e dois filhos tão vaidosos quanto o pai: Zipacna, que erguia montanhas, e Cabracan, que as sacudia.
“Sou grande. Meus olhos são de metal, meus dentes brilham com joias. Sou o sol deles, sou a lua deles.” Popol Vuh, manuscrito quiché, c. 1550 (tradução livre) |
O motivo do castigo foi a mentira sobre a luz. O texto diz com todas as letras que Vucub Caquix não era o sol, só se engrandecia. Os gêmeos julgaram que a humanidade verdadeira, ainda por criar, não podia nascer sob um sol falso. As versões divergem sobre quem mandou, mas o manuscrito diz que os gêmeos agiram segundo a palavra do Coração do Céu, e esta edição segue o manuscrito.
Hunahpu e Xbalanque sabiam onde a arara comia. Esperaram ao pé do nance, e quando Vucub Caquix pousou, Hunahpu soprou a zarabatana. A bolinha acertou a mandíbula, a ave despencou do galho, e Hunahpu correu para agarrá-la.
A arara foi mais rápida. Arrancou o braço de Hunahpu pelo ombro, voou para casa com ele e o pendurou sobre o fogo. Para Chimalmat, reclamou da boca: os dentes estavam soltos e doíam sem parar.
Os gêmeos precisavam do braço de volta e de um jeito de terminar o serviço. Chamaram um casal de velhos, o Grande Queixada Branco e o Grande Quati Branco, e combinaram o disfarce: os dois seriam avós, e os gêmeos, netos órfãos que os seguiam.
O grupo passou diante da casa de Vucub Caquix anunciando que tirava verme de dente e curava olho. A arara, com dor, chamou os velhos. Eles disseram que um verme roía os dentes e que o único remédio era arrancá-los e pôr outros no lugar.
Vucub Caquix hesitou, e deu o motivo: era pelos dentes que ele era senhor. Os velhos prometeram dentes novos de osso moído. Puseram grãos de milho branco. Depois rasparam o metal dos olhos dele.
O rosto deixou de brilhar e já não tinha cara de senhor. A grandeza saiu junto com as joias, e Vucub Caquix perdeu a vida ali mesmo, seguido por Chimalmat. Os velhos tiraram o braço de Hunahpu do fogo e o colaram de novo no ombro.
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O padrão que o mito descreve é a grandeza de adorno: o valor que a pessoa atribui a si mora num objeto que pode ser tirado dela, e não no que ela faz.
Vucub Caquix sabia onde estava o próprio poder. Quando os velhos propuseram arrancar os dentes, ele não perguntou se ia doer. Perguntou o que seria dele sem as joias. A resposta, ele mesmo deu: deixaria de ser senhor.
O primeiro traço é confundir brilho com luz. O metal dos olhos refletia, e a arara chamou o reflexo de sol. A luz verdadeira ilumina o caminho dos outros. O brilho de Vucub Caquix iluminava só o próprio galho.
O segundo traço é a dor no ponto mais valioso. Os gêmeos não miraram a asa nem a cauda. Miraram a mandíbula. Quem guarda tudo num lugar só oferece ao adversário um alvo único, e qualquer golpe ali vira crise inteira.
O terceiro traço é o desespero diante do remédio. Com a boca latejando, a ave chamou dois estranhos que passavam na estrada e entregou a eles justamente as joias. A vaidade que a fez se proclamar sol também a fez confiar em quem prometia mantê-la bonita.
“Por mais alto que seja o trono, sentamo-nos sempre sobre o nosso próprio traseiro.” Michel de Montaigne, Ensaios, livro III, “Da experiência”, 1588 |
Montaigne escreveu a frase no último dos ensaios, pensando nos reis franceses que viu de perto. O trono é o adorno; quem senta nele continua do tamanho que tem, e a arara, sem os dentes de joia, voltou a ser uma ave faminta num galho de nance.
Na vida comum, o padrão aparece no gerente que só se apresenta pelo cargo e, quando a empresa corta a vaga, não sabe dizer quem é numa conversa de bar. Aparece em quem mede a própria importância pelo carro na garagem e entra em pânico com o primeiro arranhão.
Aparece também nas pequenas joias da boca: o sobrenome conhecido, o diploma emoldurado, o número de seguidores. Nenhum deles é ruim. O risco começa quando a pessoa, como a arara, responde à pergunta “quem é você?” apontando para o enfeite.
O sinal de alerta é a reação à ameaça de perda. Se a ideia de ficar sem o título, o cargo ou o elogio provoca uma dor desproporcional, a grandeza já foi parar dentro da boca.
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