|
Os homens de pau não acabaram de todo. Fugiram pelos telhados, que desabaram; pelas árvores, que os derrubaram; pelas cavernas, que fecharam a entrada. Os poucos que sobraram viraram os macacos da floresta, e o Popol Vuh liga a eles a cara de gente desses bichos.
A quarta tentativa deu certo. Xmucané moeu milho branco e amarelo nove vezes, e da massa os criadores fizeram os primeiros homens de verdade. O primeiro gesto deles foi agradecer, pelo nome, a quem os tinha feito.
A diferença entre a madeira e o milho, no mito, está no olhar de volta. A saída para a dívida do uso segue o mesmo caminho e cabe na semana de qualquer pessoa.
Para quem quer olhar o que serve antes de a chuva negra cair, quatro passos:
1. Liste o que você usa todo dia sem pensar: pessoas, objetos, o próprio corpo. Quem lava, quem cobre, quem espera, o que range.
2. Escolha um item da lista por semana e faça o gesto de volta. Para gente, um obrigado dito à pessoa, com o motivo; para objetos, conserto ou limpeza; para o corpo, descanso marcado.
3. Escute o barulho de todo dia. O holi holi da pedra de moer era a queixa em som. Repare no suspiro repetido, na porta que range, na dor que volta na mesma hora.
4. Pergunte antes de ser cobrado. Uma vez por mês, pergunte a quem mais o ajuda o que pesa. A resposta chega pequena, quando ainda dá para pagar.
Vale um contrapeso. O mito não manda servir a tudo e a todos sem descanso. Os cães comiam, as panelas cozinhavam: uso não é crime. O crime da madeira foi usar sem nunca olhar.
Também vale lembrar o que o mito deixa em aberto. O Popol Vuh não conta se algum homem de pau tratou bem o seu cachorro e foi poupado. O texto descreve a destruição em bloco, sem exceção nomeada, e a edição não inventa uma. O que se sabe é o resultado: nenhum objeto da casa saiu em defesa dos donos.
Fica para você: o que na sua casa ou no seu trabalho serve todo dia sem que você olhe, e há quanto tempo?
No Popol Vuh, as pedras de moer deram a última palavra da casa aos homens de madeira: “Agora vamos moer vocês.”
|