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ED 189
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Os homens de pau ouviram a acusação de 4 utensílios

No Popol Vuh maia, a pedra de moer, o comal, a panela e as pedras do fogo cobram anos de uso sem um olhar de volta

Homens de madeira cercados pelos utensílios da casa

A cozinha acusa os homens de pau

▼

A cinza do fogão ainda estava morna, e a pedra de moer guardava na superfície áspera um pó fino de milho, branco nas bordas. Ao lado, a panela de barro tinha o fundo preto de tantas manhãs sobre as brasas.

Ninguém reparava nela. A panela era só a panela, a pedra era só a pedra, e o cachorro deitado na porta era só o bicho que levava uma paulada sempre que chegava perto da comida.

Os donos daquela casa eram homens de madeira. Tinham rosto, falavam, andavam, casavam e criavam filhos. Já ocupavam a terra inteira. Mas não corria sangue neles, a pele era seca, e a cara não mudava de expressão.

Faltava neles uma peça que nenhum carpinteiro consegue entalhar. Não tinham coração nem memória. Andavam para todo lado sem rumo e nunca se lembravam de quem os tinha feito.

Num dia, a falta cobrou a conta. Os deuses mandaram uma chuva escura, que caía de dia e de noite, e criaturas vindas do céu para desfazer os bonecos um por um.

Foi então que a casa falou. O cachorro levantou a cabeça. A pedra de moer, a panela e o comal (a chapa de barro onde se assava a tortilha) abriram a boca ao mesmo tempo, e cada um trazia uma queixa guardada havia anos.

Nenhuma das queixas falava de crime grande. Ninguém acusou os homens de pau de guerra, roubo ou traição. A acusação era de outra natureza: uso diário, todos os dias, sem um único olhar de volta.

O povo k'iche', da serra da Guatemala, guardou a cena no relato da criação do mundo. E a pôs num lugar curioso: logo antes de os deuses acertarem, enfim, a receita da humanidade.

Logo abaixo, quem eram os homens de pau, por que os deuses desistiram deles, o que cada objeto da casa disse no julgamento e o que a cena ensina a quem usa gente e objetos de perto sem olhar para eles.

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I  O Mito

Três tentativas antes do milho

O episódio está no Popol Vuh, o livro sagrado dos k'iche', povo maia das terras altas da Guatemala. O título em k'iche' quer dizer Livro do Conselho. Nobres k'iche' o escreveram em alfabeto latino por volta de 1554 a 1558, e o frade dominicano Francisco Ximénez copiou e traduziu o texto em Chichicastenango entre 1701 e 1703.

O manuscrito de Ximénez está hoje na Biblioteca Newberry, em Chicago. A tradução inglesa mais lida, de Dennis Tedlock, saiu em 1985. É dela que vêm as falas citadas nesta edição, em versão livre para o português.

No começo havia só o céu vazio e o mar parado. Os criadores eram Tepeu (o Soberano), Gucumatz (a Serpente Emplumada) e Huracán, chamado de Coração do Céu. Eles queriam seres que falassem, pronunciassem os nomes deles e os sustentassem com oferendas. O motivo de toda a criação, no texto, é ser lembrado.

A primeira tentativa foram os animais. Os bichos só guinchavam, uivavam e cacarejavam, sem dizer o nome de ninguém. O castigo veio da própria falha: passaram a viver no mato e a servir de comida.

A segunda tentativa foi de barro. O boneco desmanchava na água, não virava o pescoço e falava sem sentido. Os próprios criadores desfizeram a obra antes que ela durasse.

Para a terceira, consultaram dois adivinhos anciãos, Xpiyacoc e Xmucané. Os dois lançaram grãos de milho e sementes de tz'ite (a árvore do coral, de semente vermelha) e deram a resposta: a madeira serviria.

Os homens foram talhados do tz'ite. As mulheres saíram do miolo do junco. Ficaram bons de fala, contaram filhos e filhas e se espalharam pela terra.

O motivo do castigo vem escrito no Popol Vuh: os homens de pau não se lembravam do Coração do Céu. Não tinham alma nem entendimento. Falavam, mas nunca para agradecer ou chamar pelo nome quem os fizera. Era justamente o que os criadores tinham pedido, e a única tarefa que a madeira não cumpria.

A destruição veio em camadas. Huracán mandou um dilúvio de resina e chuva negra. Quatro criaturas desceram: Xecotcovach arrancou os olhos, Camalotz cortou as cabeças, Cotzbalam comeu a carne, Tucumbalam quebrou os ossos e os nervos.

Então os bichos e os objetos da casa se levantaram contra os donos, e cada um disse o que tinha guardado.

 
 

II  O Diagnóstico

A cozinha toma a palavra

Os primeiros a falar foram os cães. Disseram que nunca recebiam comida: ficavam olhando os donos comerem e ganhavam uma paulada se chegassem perto. Ali mesmo, avisaram, os homens de pau provariam os dentes deles.

As pedras de moer vieram em seguida, e a fala delas é a mais famosa do episódio.

“Todo dia, toda noite, vocês nos esfregavam, holi holi, huqi huqi, sobre a nossa cara. Agora vão sentir a nossa força.”

Popol Vuh, tradução de Dennis Tedlock, 1985 (versão livre)

Os sons holi holi e huqi huqi imitam o raspar da pedra de mão sobre o milho. O texto guarda a onomatopeia de propósito: a queixa é de um barulho que os donos ouviam todo dia e nunca escutavam.

Depois falaram os comais e as panelas. Tinham a boca e a cara pretas de fuligem, sempre postos no fogo, e prometeram queimar quem os queimou. Por último, as pedras do fogão saltaram das brasas e acertaram a cabeça dos homens de pau.

Vale nomear o padrão que a cena mostra: a dívida do uso. Ela se forma quando alguém se apoia todos os dias em pessoas e objetos que nunca olha de volta. Nenhuma cobrança chega durante os anos de uso. Chega toda junta, no dia em que a pessoa já está fraca.

O primeiro traço da dívida do uso é o tamanho de cada parcela. Nenhum dos acusadores trouxe um crime. O cão falou de comida negada; a panela, de fuligem. Somado ano após ano, o detalhe virou sentença.

O segundo traço é o silêncio de quem serve. A pedra de moer não reclamou durante a vida inteira dos donos. Quem é usado sem ser visto quase nunca avisa. O silêncio parece acordo, mas é só a espera.

O terceiro traço é a hora da cobrança. Os objetos só falaram quando a chuva negra já caía e as criaturas já atacavam. A dívida do uso escolhe o pior dia para aparecer, porque é o dia em que o devedor não tem mais força para pagar.

No dia a dia, a dívida aparece no colega que cobre todas as faltas e um dia pede demissão sem aviso. Aparece no casamento em que um só cuida da casa por anos e depois diz tudo numa noite. Aparece no corpo: no joelho que aguentou sem queixa até travar.

O mito liga as duas faltas dos homens de pau. Eles não olhavam para cima, para quem os criou, nem para baixo, para o que os servia. A mesma cegueira valia nas duas direções.

O texto também responde por que os objetos esperaram a chuva para falar. Enquanto os donos tinham força, a casa obedecia. Quando os deuses retiraram a proteção, a obediência acabou junto, e cada utensílio cobrou o que vinha anotando em silêncio desde a primeira manhã de uso.

 

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III  A Saída

Olhar o que serve

Os homens de pau não acabaram de todo. Fugiram pelos telhados, que desabaram; pelas árvores, que os derrubaram; pelas cavernas, que fecharam a entrada. Os poucos que sobraram viraram os macacos da floresta, e o Popol Vuh liga a eles a cara de gente desses bichos.

A quarta tentativa deu certo. Xmucané moeu milho branco e amarelo nove vezes, e da massa os criadores fizeram os primeiros homens de verdade. O primeiro gesto deles foi agradecer, pelo nome, a quem os tinha feito.

A diferença entre a madeira e o milho, no mito, está no olhar de volta. A saída para a dívida do uso segue o mesmo caminho e cabe na semana de qualquer pessoa.

Para quem quer olhar o que serve antes de a chuva negra cair, quatro passos:

1. Liste o que você usa todo dia sem pensar: pessoas, objetos, o próprio corpo. Quem lava, quem cobre, quem espera, o que range.

2. Escolha um item da lista por semana e faça o gesto de volta. Para gente, um obrigado dito à pessoa, com o motivo; para objetos, conserto ou limpeza; para o corpo, descanso marcado.

3. Escute o barulho de todo dia. O holi holi da pedra de moer era a queixa em som. Repare no suspiro repetido, na porta que range, na dor que volta na mesma hora.

4. Pergunte antes de ser cobrado. Uma vez por mês, pergunte a quem mais o ajuda o que pesa. A resposta chega pequena, quando ainda dá para pagar.

Vale um contrapeso. O mito não manda servir a tudo e a todos sem descanso. Os cães comiam, as panelas cozinhavam: uso não é crime. O crime da madeira foi usar sem nunca olhar.

Também vale lembrar o que o mito deixa em aberto. O Popol Vuh não conta se algum homem de pau tratou bem o seu cachorro e foi poupado. O texto descreve a destruição em bloco, sem exceção nomeada, e a edição não inventa uma. O que se sabe é o resultado: nenhum objeto da casa saiu em defesa dos donos.

Fica para você: o que na sua casa ou no seu trabalho serve todo dia sem que você olhe, e há quanto tempo?

No Popol Vuh, as pedras de moer deram a última palavra da casa aos homens de madeira: “Agora vamos moer vocês.”

 
 
Quiz da edição

No julgamento final do Popol Vuh, qual acusador falou primeiro, antes da pedra de moer, do comal e da panela?

AOs cães
BAs pedras do fogão
CO comal
DA panela de barro

Resultado da última edição: 75% acertaram.

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