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Esta pauta venceu a urna de 27/09.
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Os 100 ovos de Au Co
Ele vinha do mar, ela das montanhas; os 100 filhos nasceram do mesmo saco e foram divididos ao meio, 50 para cada lado
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Au Co e o Senhor Dragão na partilha
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O sal ainda secava na pele do homem que tinha acabado de sair do mar, e a água escorria do cabelo dele para a pedra quente da praia. Ele vinha do fundo, de um palácio que nenhum pescador tinha visto, e guardava escamas de dragão debaixo da forma humana.
Na encosta onde o rio encontrava a areia, uma mulher tinha descido das montanhas do norte. Trazia na roupa o cheiro de resina dos pinheiros altos e o frio dos picos. Os contadores antigos diziam que ela vinha de uma linhagem de imortais das serras, e que era a moça mais bonita do reino do pai.
Os dois se casaram. A história gasta pouca tinta com a festa e vai direto ao parto, que foi estranho até para um mito: a mulher deu à luz um saco de pele, fechado, do tamanho de um cesto.
O saco ficou sete dias sem que ninguém soubesse o que fazer com ele. No sétimo, abriu. Dentro havia cem ovos. Os cem chocaram, e de cada um saiu um menino. Os meninos cresceram sem ama de leite, fortes e rápidos como nenhuma criança comum.
Durante anos, a casa teve cem filhos, um pai do mar e uma mãe da montanha. Parecia o começo de uma dinastia sem problema algum.
O problema estava no endereço dos pais. O pai sentia falta da água salgada e sumia por temporadas no fundo do oceano. A mãe ficava em terra com os meninos, olhando para o norte, onde tinha nascido.
Um dia os dois sentaram para decidir o destino da família inteira. Não houve briga registrada, nem traição, nem castigo de deus algum. Houve uma conta de divisão: cem filhos, dois lugares, cinquenta para cada lado.
Os vietnamitas contam essa história por escrito há mais de cinco séculos e se chamam, até hoje, de filhos desse casal. A próxima parte diz quem eram os dois, por que o marido propôs a partilha e o que cada metade levou consigo.
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I O Mito
O dragão, a imortal e o saco
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O marido é Lac Long Quan (o Senhor Dragão de Lac, em vietnamita), filho de Kinh Duong Vuong, primeiro rei lendário das terras do sul, e de Long Nu, filha do Rei Dragão do lago Dongting. A esposa é Au Co, uma tiên (imortal das montanhas, a fada da tradição vietnamita), filha de De Lai, um soberano do norte.
O relato mais completo está no Linh Nam chich quai (Contos estranhos do sul dos montes Linh), coletânea do século XV atribuída a Tran The Phap e revista pelo letrado Vu Quynh em 1492. A crônica oficial da corte registra o casamento em uma linha seca.
"Lac Long Quan tomou por esposa a filha de De Lai, chamada Au Co, que deu à luz cem filhos homens; a tradição conta que nasceram de cem ovos." Ngo Si Lien, Dai Viet su ky toan thu (Anais completos do Grande Viet), 1479 |
Antes do casamento, Lac Long Quan já era herói. O Linh Nam conta que ele subiu do mar para matar um peixe-demônio que afundava barcos e uma raposa de nove caudas que roubava moças. Depois ensinou o povo a plantar arroz, cozinhar e vestir roupa. Cumprido o serviço, voltou para o palácio da água.
O motivo do casamento, na versão do Linh Nam, é o encontro. De Lai viajou para o sul e levou a filha. Lac Long Quan viu Au Co, gostou dela e a levou para morar com ele. Outras versões tratam De Lai como invasor e o casamento como forma de frear a invasão. Esta edição segue o Linh Nam.
O motivo da separação também está escrito. Lac Long Quan passava longas temporadas no mar. Au Co, sozinha com os cem filhos, quis voltar para a terra do pai. A fronteira do norte estava fechada por tropas, e ela não conseguiu passar. Chamou o marido de volta e reclamou de ter sido deixada como viúva com o marido vivo.
Ele respondeu com a razão de natureza. Ele era da raça dos dragões, ela da raça dos imortais. Um vinha da água, a outra do fogo e da montanha. Os dois se anulavam, e assim não conseguiriam viver juntos por muito tempo.
A partilha foi um acordo, e ele veio com uma cláusula. Cinquenta filhos desceriam com o pai para o litoral e o mar. Cinquenta subiriam com a mãe para as montanhas. Se um lado tivesse problema, avisaria o outro, e ninguém abandonaria ninguém.
O filho mais velho foi com Au Co para Phong Chau, na serra do norte. Virou o primeiro dos reis Hung e fundou Van Lang, o primeiro reino dos vietnamitas. A tradição conta 18 reis Hung em sequência.
Dos cinquenta que foram com o pai, os textos não guardam nome algum. Também não contam se o casal voltou a se ver. O Linh Nam termina a história na partilha, e o silêncio é das fontes: nenhuma versão antiga narra o reencontro.
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II O Diagnóstico
Dois endereços, uma família
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O núcleo arquetípico é a separação combinada: um casal que para de dividir a casa, mas continua dividindo a responsabilidade pelo que criou.
O primeiro traço é a ausência de vilão. Ninguém trai ninguém. Lac Long Quan e Au Co se separam porque querem viver em lugares que não cabem na mesma vida. A história não pede um culpado para o fim do casamento.
O segundo traço é a divisão exata. Cem filhos, cinquenta e cinquenta. Nenhum dos dois fica com o filho mais velho por direito e com o resto por sobra. A conta é simples de propósito: quem divide por igual não precisa brigar depois.
O terceiro traço é a cláusula de socorro. O casal combina, antes de se afastar, o que acontece quando um lado estiver em perigo. A separação vem com regra para o dia ruim, escrita antes do dia ruim chegar.
O quarto traço está na língua. Os vietnamitas chamam o compatriota de đồng bào (do mesmo saco, da mesma bolsa de parto). A palavra lembra que os cem irmãos saíram de um só lugar, mesmo morando em pontas opostas do país. E o povo se chama de con Rồng cháu Tiên (filhos do dragão, netos da imortal).
A Grécia deixou o caso oposto. Na tragédia de Eurípides, Jasão abandona Medeia para casar com a filha do rei de Corinto, e Medeia destrói os próprios filhos para ferir o marido.
"Ó filhos, vós morrestes pela loucura do vosso pai." Eurípides, Medeia, 431 a.C. |
Os dois mitos tratam do mesmo momento: o fim de um casal com filhos. Na versão grega, os filhos viram arma. Na versão vietnamita, viram herança dividida com cuidado.
A tradução para hoje aparece em casamentos que terminam e em sociedades que se desfazem. É o casal que se separa e passa anos disputando a guarda na frente das crianças. São os dois sócios que fecham a empresa e brigam pelos clientes que construíram juntos. É a banda que acaba e os integrantes que nunca mais tocam as músicas que compuseram em dupla.
O sinal de alerta é fácil de ver. Quando a separação vira placar sobre quem fica com mais, o que foi criado junto começa a pagar a conta.
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