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Prometeu roubou o fogo do Olimpo escondido na haste oca de um funcho gigante e entregou a chama aos homens. Zeus viu o brilho aceso lá embaixo e anunciou que daria à humanidade um mal em troca, um mal de que todos iriam gostar, abraçando com alegria a própria desgraça.
A ordem desceu para a oficina. Hefesto recebeu a instrução de misturar terra e água, dar à mistura força e voz de gente e um rosto parecido com o das deusas imortais.
Atena vestiu a criatura e ensinou a ela o trabalho do tear. Afrodite derramou sobre a cabeça dela a graça e o desejo que consome. As Graças e a Persuasão puseram colares de ouro no pescoço, e as Horas trouxeram a coroa de flores da primavera.
Hermes ficou com a parte que não entra no anúncio. Segundo Hesíodo, em Trabalhos e Dias (cerca de 700 a.C.), o mensageiro recebeu ordem de pôr no peito dela uma mente sem vergonha e uma natureza ladina, junto com a voz.
O nome veio depois do acabamento. Pandora, a de todos os dons, porque cada um dos que moram no Olimpo colocou ali um presente. Nome de dádiva, montagem coletiva, nenhuma assinatura embaixo do projeto.
Hermes levou a moça até Epimeteu, irmão de Prometeu. O aviso já tinha sido dado, e era curto: não aceite nada que venha de Zeus, devolva na hora, sem abrir.
Epimeteu aceitou. O nome dele quer dizer o que pensa depois, e ele fez exatamente aquilo: recebeu, achou bonito, agradeceu, e entendeu o tamanho do problema quando o presente já estava instalado dentro de casa.
Até ali, conta Hesíodo, a espécie humana vivia na terra livre dos males, livre do trabalho pesado e das doenças penosas que trazem o fim.
Na casa havia um jarro. Hesíodo não diz quem o levou, quem o encheu, nem por que ele estava ao alcance de qualquer pessoa. Diz apenas que a tampa era grande e que a mulher a ergueu com as próprias mãos.
Os males saíram todos de uma vez e se espalharam pela terra e pelo mar. As doenças passaram a andar entre as pessoas de dia e de noite, caladas, porque Zeus tinha tirado a voz delas antes de soltá-las.
Uma coisa não saiu. Elpis, a esperança, ficou presa embaixo da borda, porque a tampa voltou ao lugar antes que ela chegasse à boca do jarro, e a vontade de Zeus estava por trás do movimento.
E o objeto nunca foi caixa. Em Hesíodo é um pithos, jarro de cerâmica de guardar vinho, azeite e grão, alto quase como uma pessoa. A caixa nasceu no século 16, quando Erasmo de Roterdã verteu pithos por pyxis, caixinha, e a tradução pegou de vez.
Repare na lista de quem fez o quê. Zeus encomendou, Hefesto moldou, Atena vestiu, Afrodite enfeitiçou, Hermes instalou a lábia e entregou, Epimeteu aceitou contra o aviso do irmão. E o episódio inteiro atravessou vinte e oito séculos guardado com o nome de quem levantou a tampa.
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