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A Miorița (a ovelhinha, em romeno) é uma balada popular da Romênia, cantada por pastores muito antes de ganhar papel. O escritor Alecu Russo ouviu uma versão em Soveja, aldeia de Vrancea, por volta de 1846, e a passou ao poeta Vasile Alecsandri. Alecsandri a publicou na coletânea Poezii poporale. Balade (Poesias populares. Baladas), de 1852. É essa a versão que as escolas romenas ensinam.
A cena abre num lugar preciso, o picior de plai (o pé de uma encosta de pastagem), na boca de um vale. Ali chegam três rebanhos com três pastores. O texto dá a origem de cada um: um moldavo, um ungurean (o transilvano, como os moldavos o chamavam) e um vrâncean (o homem de Vrancea).
O motivo do crime está no próprio verso. O moldavo tinha ovelhas em maior número, cavalos que obedeciam ao comando e cães mais bravos. Os outros dois cobiçaram o rebanho e combinaram matá-lo ao cair do sol. A balada não dá outro motivo: nenhuma briga antiga, nenhuma dívida, só a inveja do rebanho melhor.
A ovelhinha de lã escura para de pastar e passa três dias balindo. O pastor pergunta o que ela tem, se a erva não presta, se está doente. Ela responde com o plano dos dois e pede que ele chame o cão mais valente.
O pastor ouve o aviso inteiro e não pergunta como escapar. A primeira frase dele é condicional: se for para cair ali, que a ovelha peça aos dois que o enterrem perto do curral, para ele continuar junto do rebanho e ouvir os cães.
Os pedidos vêm em ordem. Junto da cabeça, três flautas: uma de faia, uma de osso e uma de sabugueiro. Quando o vento passar por elas, vão tocar, e as ovelhas vão se juntar em volta e chorar lágrimas de sangue.
Às ovelhas, a ovelhinha não deve contar o crime. Deve dizer que ele casou com uma rainha, noiva do mundo, e que no casamento caiu uma estrela. O sol e a lua seguraram a coroa, pinheiros e bordos foram os convidados, as montanhas fizeram de padres, os pássaros tocaram e as estrelas serviram de velas.
Por último, a mãe. Uma velhinha de cinto de lã, que corre os campos chorando e perguntando por um pastor de bigode como espiga de trigo, cabelo como pena de corvo e olhos como amora. A ela, a ovelha deve dizer só que o filho casou com a filha de um rei. A estrela caída fica de fora.
O texto de Alecsandri termina nesse recado. Não mostra o pôr do sol, nem o ataque, nem se os companheiros cumpriram o plano. O desfecho não se sabe porque a balada vivia de boca em boca, cada aldeia cantava a sua, e a versão impressa parou ali. O folclorista Adrian Fochi reuniu centenas de variantes no livro Miorița, de 1964, e em algumas delas o pastor reage, mas nenhuma é tida como a original.
Sobre o motivo da calma, os leitores divergem. Uma leitura vê fatalismo, um povo que aceita o golpe calado. O historiador das religiões Mircea Eliade, no ensaio sobre a balada publicado em De Zalmoxis a Gengis-Khan, de 1970, leu o contrário: o pastor não pode mudar o destino, mas muda o sentido dele, e transforma a morte num casamento com o mundo. A edição usa a leitura de Eliade, porque é a que o próprio texto sustenta: o pastor gasta todos os versos dando forma ao fim, nenhum resistindo a ele.
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O padrão do mito pode ser chamado de despedida organizada. A pessoa recebe o aviso a tempo, entende o risco e gasta a tarde que sobra arrumando a própria partida, em vez de mexer no que vai acontecer ao pôr do sol.
O aviso da balada é dos melhores possíveis. Diz quem vai agir, quando e por quê. Vem de alguém leal, que não ganha nada contando. Ainda deixa um conselho prático, chamar o cão. Nada falta para o pastor agir.
“Que me enterrem aqui, junto ao curral das ovelhas, para eu ficar sempre com vocês; atrás da cabana, para ouvir meus cães.” O pastor moldavo, balada Miorița, versão de Vasile Alecsandri, 1852 (tradução livre) |
O pedido é bonito, e a balada inteira é bonita. O perigo mora justamente na beleza. Quem recebe um aviso e passa a cuidar da cerimônia sente que está fazendo algo, porque escreve, organiza e decide. Só que nenhuma dessas decisões toca o plano dos dois companheiros.
Na vida comum, a despedida organizada tem formas conhecidas. O funcionário que ouve rumor de corte e passa a semana escrevendo o manual de passagem do cargo, sem conversar com o chefe. O sócio que percebe a sociedade azedando e prepara o discurso de despedida, sem pedir a reunião. O paciente que recebe o exame alterado e arruma os papéis da casa, sem marcar o retorno.
O primeiro traço do padrão é a lista no lugar da pergunta. O pastor tinha perguntas óbvias para fazer à ovelha: onde estão os dois agora, quantos cães eles têm, por onde dá para descer. Fez pedidos. A lista dá sensação de controle; a pergunta daria informação.
O segundo traço é o recado gentil que deixa a dor para depois. A mentira à mãe protege a velha naquela tarde e a condena a procurar o filho pelos campos sem saber o que aconteceu. O cinto de lã, o bigode de trigo e os olhos de amora são o retrato que ela vai repetir para todo estranho.
O terceiro traço é deixar os autores do plano sem resposta. Na balada, os dois companheiros nunca ouvem uma palavra. Ninguém os encara, ninguém os denuncia, ninguém pergunta se o plano se sustenta diante de um homem avisado e de um cão valente.
Há um detalhe que pesa a favor do pastor. Eliade tem razão em ver dignidade na cena: diante do que não se pode mudar, dar sentido ao fim é o gesto mais alto que sobra. O problema começa quando o golpe ainda pode ser evitado e a pessoa trata o aviso como sentença.
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