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ED 201
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A velha empilhou os pilões da aldeia para alcançar Nyame

No mito akan, o deus do céu foge do pilão do fufu e a torre cai por falta de um palmo

Os filhos da velha empilham os pilões da aldeia rumo ao céu

A torre de pilões a um palmo de Nyame

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O pilão descia na gamela com um baque surdo de madeira, e o vapor do inhame cozido subia quente até o rosto da velha. Ela socava o fufu (a massa de inhame ou banana-da-terra pilada, prato de todo dia na região) de pé, com os braços esticados, e a ponta do pilão subia alto a cada golpe.

Naquele tempo, contam os akan, povo da atual Gana e da Costa do Marfim, o céu ficava baixo. Nyame, o deus do céu, morava logo acima das cabeças, tão perto que dava para tocar nele com a mão.

A ponta do pilão tocava. A cada golpe, batia em Nyame. Ele pediu à velha que parasse, e ela seguiu socando, porque o fufu do jantar não se faz sozinho e a família inteira esperava a gamela.

Cansado das pancadas, Nyame subiu. Levou o céu para longe, a uma altura onde nenhum braço alcançava, e a aldeia perdeu o vizinho de cima.

A velha não aceitou a distância. Mandou os filhos juntarem todos os pilões da aldeia e empilhá-los um sobre o outro, até a pilha tocar o céu de novo.

Os filhos correram de casa em casa. A pilha subiu, balançando, e parou a um palmo de Nyame. Não havia mais pilão em quintal nenhum.

A velha deu a solução que lhe pareceu óbvia: tirar o pilão de baixo e pôr em cima. Os filhos obedeceram, e a torre inteira veio abaixo.

O mito é curto e soa como piada de aldeia. Guarda, porém, o retrato exato de um erro comum: chegar perto do alvo e, para vencer o último trecho, arrancar o que sustenta todo o resto. A primeira seção conta quem registrou o mito, por que o deus subiu e o que sobrou depois da queda. A segunda examina quem tira a base para ganhar o último palmo. A terceira mostra como subir sem desmontar a pilha.

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I  O Mito

A torre de madeira sob o céu baixo

O mito pertence aos akan, grupo de povos que inclui os ashanti (axântis, na grafia portuguesa), e circula em várias versões contadas de boca em boca. O historiador das religiões Geoffrey Parrinder o recontou no livro African Mythology (Mitologia africana), de 1967. É essa a versão que a edição segue.

Nyame tem outro nome entre os ashanti: Onyankopon, algo como “o único grande Nyame”, em twi, a língua akan. É o deus que criou o céu e mora nele, acima dos espíritos menores dos rios e das florestas.

O motivo da subida, na versão de Parrinder, é o pilão. A velha batia o fufu com um pilão comprido, e a ponta acertava o deus a cada golpe. Ele pediu que ela parasse; ela não parou. Nyame subiu para não apanhar mais.

As fontes divergem sobre esse motivo. Em outras versões, as mulheres limpavam as mãos sujas de comida no céu, ou as crianças arrancavam pedaços dele para pôr na sopa, ou a fumaça das cozinhas incomodava o deus. A edição usa a do pilão, porque é a única que liga o começo ao fim: o mesmo objeto que afastou Nyame é o que a velha usa para tentar trazê-lo de volta.

O motivo da velha também está dito. Ela queria o céu ao alcance outra vez, como sempre tinha sido. Com Nyame perto, bastava falar para ser ouvida; com ele longe, a aldeia ficava sozinha.

Os pilões dessa história são as gamelas fundas de madeira escavada onde se soca o inhame, pesadas e largas na boca. Empilhadas uma sobre a outra, de boca para baixo, formam uma coluna firme enquanto ninguém mexe na de baixo.

A ordem final também tem motivo. Faltava um pilão só, e não havia outro na aldeia. A velha raciocinou que, tirando o de baixo e pondo no topo, a pilha ganharia a altura que faltava. Esqueceu que o de baixo segurava todos os outros.

A pilha não caiu por falta de pilão; caiu porque o de baixo saiu.

O desfecho está nas versões com todas as letras. A torre desabou sobre quem estava embaixo, e muita gente morreu. Nyame não desceu: ficou no alto, onde os akan dizem que está até hoje.

A queda deixou um costume. O antropólogo britânico Robert Sutherland Rattray descreveu, no livro Ashanti, de 1923, o nyame dua (árvore de Nyame), um poste de madeira com três galhos e uma vasilha no alto, plantado no pátio das casas para receber oferendas ao deus. Quem perdeu o céu ao alcance da mão passou a deixar o pedido numa vasilha erguida.

O nome da velha nenhuma versão guarda. Ela fica só como a velha que batia fufu, e o mito não explica de onde veio a ideia de tirar o de baixo, além da conta errada de quem queria um palmo a mais.

 
 

II  O Diagnóstico

O palmo pago com a base

O padrão do mito pode ser chamado de último palmo pago com a base. A pessoa chega perto do alvo, falta pouco, e para cobrir esse pouco tira justamente o que mantém de pé o que ela já construiu.

A velha não era tola. Empilhou certo, mobilizou os filhos, reuniu a aldeia inteira e chegou a um palmo do deus. O erro aconteceu no fim, quando a meta ficou tão perto que o resto parecia dispensável.

“E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda.”

Evangelho de Mateus 7,27, tradução de João Ferreira de Almeida (1681)

Na vida comum, o pilão de baixo tem formas conhecidas. O estudante que, a uma semana da prova, corta o sono para estudar e chega ao exame sem conseguir ler a questão. O dono de pequeno negócio que, para fechar o mês no azul, deixa de pagar o fornecedor que sustenta a loja. O atleta que, perto da marca, pula o descanso e se machuca antes dela.

O primeiro traço do padrão é a pressa do fim. Quanto mais perto da meta, mais o último trecho parece urgente e mais o resto parece garantido. A velha olhou para cima, viu o palmo e esqueceu de olhar para baixo.

O segundo traço é tratar a base como estoque. Para ela, o pilão de baixo era só mais um pilão, igual aos outros, disponível para subir. Era o único que não podia sair. A base costuma ter cara de recurso parado: o sono, a reserva, a saúde, o colega que segura a rotina.

O terceiro traço é a solução que parece engenhosa. Tirar o de baixo e pôr em cima soa como esperteza, um jeito de criar altura do nada. Quase toda solução que promete ganho sem custo esconde um pilão de baixo saindo.

Há ainda o aplauso de quem está em volta. Os filhos obedeceram sem discutir, e ninguém na aldeia gritou para segurar a pilha. Quando todos olham para o topo, quem está embaixo raramente é ouvido.

O quarto traço é a queda total. A pilha não perdeu um palmo; perdeu todos. Quem tira a base não volta ao penúltimo degrau, volta ao chão, e às vezes perde gente no caminho.

Há um ponto a favor da velha. Ela tinha razão em querer o céu perto, e a ideia de empilhar foi boa. O mito não condena a ambição de subir; condena o jeito de pagar o último palmo.

 

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III  A Saída

Como subir sem desmontar a pilha

A resposta do mito cabe numa distinção: faltar um palmo não é emergência. A pilha parada a um palmo do céu ainda estava inteira, e uma pilha inteira espera outro pilão.

Para quem reconhece o pilão de baixo nos próprios planos, três passos:

1. Nomeie a base antes de mexer na pilha. Escreva no papel o que segura o resto: o sono, o caixa, a relação, a saúde. O que está nessa lista não sobe para cobrir o palmo.

2. Procure o pilão que falta fora da pilha. A velha só olhou para os pilões já empilhados. Havia outras aldeias, outros dias, outra madeira para escavar um pilão novo. O último trecho quase sempre se cobre com algo de fora, mesmo que demore.

3. Aceite a pilha parada por um tempo. Um palmo de distância por uma semana custa menos que a torre no chão. Esperar o pilão novo é chato; reconstruir a torre inteira é bem pior.

Um teste simples ajuda a separar a base do resto. Antes de tirar qualquer peça da pilha, pergunte: se esta peça sair e der errado, eu volto ao degrau anterior ou volto ao chão? Se a resposta for o chão, a peça é base, por mais comum que pareça.

No caso do estudante, o teste mostra que o sono é base: sem ele, a semana de estudo inteira se perde na prova. No caso do dono do negócio, mostra que o fornecedor é base: sem ele, não há loja para fechar o mês. A meta continua de pé; só muda o que se aceita pagar por ela.

O último palmo vale a espera; a base não volta.

Há casos em que mexer na base é o certo: quando a fundação está podre ou quando o alvo mudou. Aí a pilha toda precisa descer com calma, de cima para baixo, e não desabar de uma vez por um puxão no fundo.

O nyame dua mostra o que os akan fizeram depois da queda. Pararam de tentar alcançar o deus com a força dos braços e ergueram uma vasilha pequena no pátio, todo dia. Uma oferenda diária no lugar de uma torre de uma tarde só.

Fica para você: qual pilão de baixo você está pensando em tirar para ganhar o último palmo de alguma meta?

A velha que batia fufu, na versão de Parrinder em tradução livre, deu aos filhos a ordem que derrubou a aldeia: “Tirem o de baixo e ponham em cima.”

 
 
Quiz da edição

No mito akan recontado por Geoffrey Parrinder, quando a pilha de pilões dos filhos da velha ficou a um palmo de alcançar Nyame, qual foi a solução que ela deu para vencer esse último palmo?

ATrocar o pilão de baixo por uma pedra mais pesada
BPedir a Nyame que descesse mais um palmo
CTirar o pilão de baixo da pilha e colocar no topo
DEmpilhar mais pilões ao lado da torre, não em cima

Resultado da última edição: 43% acertaram.

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