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A lenda da ponte de Licq vem da tradição oral de Soule, a menor das sete províncias bascas, encostada nos Pirineus. O padre e etnógrafo José Miguel de Barandiarán recolheu histórias de laminak em várias aldeias bascas e as reuniu no Diccionario de mitología vasca, publicado em 1972. A versão de Licq aparece em coletâneas de lendas bascas da região de Mauléon, a cidade grande do vale.
As laminak não eram deusas. Eram espíritos pequenos, ligados à água e às grutas, parentes das fadas de outras tradições europeias. Ajudavam quem lhes deixava pão e leite na janela e se vingavam de quem as espiava sem licença. Construir era um dos dons atribuídos a elas: várias pontes, igrejas e casas do País Basco têm lenda parecida.
O motivo das laminak para aceitar a obra era o preço. Aqui as versões divergem. Numa delas, as laminak pediram a alma do aldeão. Noutra, pediram a filha dele em casamento. A edição usa a versão da alma, a mais repetida nas coletâneas de Soule, porque explica o medo crescente do homem durante a noite.
O aldeão não cantou porque a obra estava ruim; cantou porque a obra estava boa demais e ia ficar pronta a tempo de cobrar. Pela regra do acordo, ponte inacabada não gerava dívida. Bastava que o galo cantasse antes da última pedra.
A noite seguiu em silêncio, quebrado só pelo trabalho. As laminak passavam as pedras de mão em mão, da pedreira até a margem, e as encaixavam sem argamassa. Por volta da última hora escura, o arco já atravessava o rio, e faltava fechar o parapeito.
Foi nesse momento que o aldeão imitou o galo. O canto falso acordou o galo da casa, que cantou de volta. Para as laminak, o som valia como o fim do prazo, viesse de bico ou de garganta humana. Pelo acordo, a ponte inacabada não as autorizava a cobrar nada.
Ao fugir, segundo a lenda contada em Licq, uma delas gritou da margem a frase que os moradores ainda repetem: a pedra que faltou ia faltar para sempre. As laminak deixaram a última pedra no chão, ao lado da ponte, e entraram nas grutas do vale.
A pedra que faltava nunca entrou no lugar. A lenda diz que os moradores tentaram de tudo: cal, argamassa, pedra cortada sob medida. De manhã a peça estava encaixada; na manhã seguinte, caída no rio. A ponte servia, mas ficava marcada.
O desfecho para o aldeão fica em aberto nas versões, e não por esquecimento. Nenhuma das coletâneas conta castigo para ele. A lenda se interessa pela pedra, e não pelo homem: o preço que ele evitou virou um buraco que a aldeia inteira passou a ver todo dia.
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