|
A história está no Primeiro Ramo do Mabinogi, conjunto de quatro narrativas galesas medievais. O texto mais antigo inteiro sobrevive no Livro Branco de Rhydderch, manuscrito copiado por volta de 1350, e de novo no Livro Vermelho de Hergest, de cerca de 1400. Lady Charlotte Guest publicou a primeira tradução inglesa entre 1838 e 1845.
Tudo começa numa caçada. Pwyll, príncipe de Dyfed, cavalgava no vale de Glyn Cuch quando perdeu os companheiros e ouviu outra matilha. Numa clareira, cães de pelo branco brilhante e orelhas vermelhas derrubavam um cervo.
Pwyll espantou os cães estranhos e soltou os seus sobre a presa. Na etiqueta de caça da época, o gesto era uma ofensa grave: tirar de outro caçador o animal que os cães dele tinham abatido.
O dono da matilha apareceu num cavalo cinzento, vestido de cinza e marrom. Era Arawn, rei de Annwfn. Disse a Pwyll que nunca tinha visto descortesia maior e que a vergonha valia mais que cem cervos.
O motivo da troca é dito com todas as letras no texto: Pwyll ofendeu Arawn na caçada e pediu um jeito de reparar a afronta; Arawn tinha um problema que só um estranho podia resolver. O problema se chamava Hafgan, outro rei de Annwfn, que guerreava contra Arawn sem trégua.
A proposta de Arawn foi esta. Os dois trocariam de aparência e de lugar por um ano e um dia. Pwyll governaria Annwfn com o rosto de Arawn, e Arawn governaria Dyfed com o rosto de Pwyll. Encerrado o prazo, Pwyll enfrentaria Hafgan num vau, em combate marcado.
Havia uma condição para a luta. Pwyll devia dar um golpe só. Hafgan, ferido, pediria um segundo golpe para acabar com ele, e o segundo golpe o curaria por completo. Arawn já tinha caído nessa armadilha antes.
Arawn também avisou: a esposa dele, a mulher mais bonita que Pwyll já tinha visto, dormiria ao seu lado todas as noites. Sobre ela, o rei não pôs regra nenhuma. Não pediu, não proibiu, não pediu promessa.
A regra veio de Pwyll. O texto não traz discurso nem juramento; mostra só o gesto, noite após noite. As leituras divergem sobre o motivo: para uns, foi honra de hóspede com o rei que o acolheu; para outros, um teste que Pwyll impôs a si mesmo. Esta edição segue a primeira leitura, a mais próxima do texto: ele tratou a mulher do amigo como mulher do amigo.
No dia combinado, Pwyll foi ao vau, acertou Hafgan uma vez e partiu o escudo e o corpo dele. Hafgan pediu o segundo golpe. Pwyll recusou. Hafgan foi levado embora e Arawn ganhou o reino inteiro de Annwfn.
|