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Esta pauta venceu a urna de 30/09.
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O rato-almiscarado trouxe a lama que o castor e a lontra não acharam
Na criação iroquesa, o menor dos mergulhadores subiu sem vida com a terra na pata, e o mundo nasceu sobre o casco da tartaruga
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O rato e a lama sobre o casco da tartaruga
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A água era fria e escura, e não havia margem em nenhuma direção. Só a superfície parada, cheirando a folha podre e a sal, batendo de leve contra um casco grosso e áspero como pedra molhada.
Em cima do casco, uma mulher respirava rápido. Tinha caído do céu fazia pouco. As asas dos gansos que a seguraram na queda ainda pingavam ao redor dela, e o vento não encontrava árvore nenhuma para sacudir.
Debaixo dela, a Grande Tartaruga não se mexia. Aguentava o peso sem reclamar, mas um casco só não é mundo. A mulher precisava de chão para plantar, andar e parir.
Os animais da água se juntaram em volta. Alguém lembrou que, lá no fundo, havia lama. Ninguém sabia a que distância.
O castor foi o primeiro. Bateu o rabo largo na água com um estalo e sumiu. Demorou muito. Voltou ofegante, de patas limpas.
A lontra foi a segunda. Era a melhor nadadora entre todos, e todos sabiam. Desceu em espiral, ficou embaixo mais tempo que o castor e subiu tossindo, com os olhos vermelhos e nada nas mãos.
O mergulhão tentou depois. Também voltou vazio.
Ficou o silêncio de bicho cansado em volta do casco. Os fortes tinham falhado, e a água continuava sem fundo.
Então um animal pequeno, de pelo marrom e rabo pelado, pediu a vez. Era o rato-almiscarado, um roedor das margens de rio da América do Norte, do tamanho de um gato magro. Alguns riram. Ele mergulhou mesmo assim.
A superfície fechou sobre ele. A espera foi mais longa que a de todos os outros juntos.
Quando o corpo dele boiou de volta, não respirava. A pata direita estava fechada com força. Dentro dela, um punhado de lama.
Os povos haudenosaunee, a confederação que os franceses chamaram de iroqueses, contam essa cena há séculos nas margens dos Grandes Lagos. Ela explica de onde veio a terra e por que o continente inteiro tem nome de casco.
Quem era a mulher que caiu, por que ela caiu, o que aconteceu com o rato e o que a história ensina a quem só é chamado quando os fortes já desistiram: as três faixas abaixo respondem, nessa ordem.
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I O Mito
A mulher que caiu do céu
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A história começa no Mundo de Cima, um céu habitado acima das águas, nas versões da criação haudenosaunee registradas pelo escritor tuscarora David Cusick em 1827 e pelo etnólogo J. N. B. Hewitt, do Bureau de Etnologia Americana, em 1903. No meio daquele céu crescia uma árvore enorme, de flores que davam luz.
Lá vivia a Mulher do Céu, chamada Atahensic em várias versões, um nome cujo sentido os linguistas ainda discutem. Ela estava grávida.
O motivo da queda é onde as fontes mais divergem. Numa versão, o marido dela, chefe do Mundo de Cima, sonhou que a árvore devia ser arrancada, e a mulher, curiosa, se debruçou no buraco aberto e escorregou. Noutra, o marido tinha ciúme da gravidez e a empurrou de propósito. Numa terceira, ela própria arrancou a raiz por um desejo de grávida e caiu junto.
Esta edição segue a versão do empurrão, porque é a que Hewitt registrou com mais detalhe e a que explica por que ninguém de cima desceu para ajudá-la: o próprio marido queria que ela sumisse.
Ela caiu por muito tempo. Lá embaixo só havia água. As aves aquáticas viram a queda, voaram juntas e a pegaram no ar com as asas abertas. Não aguentariam o peso para sempre.
A Grande Tartaruga subiu do fundo e ofereceu o casco. As aves a pousaram ali. Esse é o motivo de o mundo ficar sobre uma tartaruga: foi o único animal que tinha costas largas e firmes o bastante.
Faltava a terra. Os animais mergulharam porque a mulher grávida precisava de chão antes de o filho nascer, e todos sabiam que havia lama no fundo.
Castor, lontra e mergulhão desceram e voltaram vazios. O rato-almiscarado mergulhou por último e subiu sem vida, com a lama presa na pata. Nas versões de Hewitt ele não volta a viver; em outras, a mulher o reanima. Esta edição fica com a de Hewitt.
“A tartaruga crescia a cada momento e se tornou uma grande ilha de terra.” David Cusick, Sketches of Ancient History of the Six Nations, 1827 (tradução livre) |
A Mulher do Céu espalhou a lama no casco andando em círculo, no sentido do sol. A terra cresceu até virar um continente. Os haudenosaunee chamam a América do Norte, até hoje, de Ilha da Tartaruga.
Os jesuítas franceses ouviram uma versão parecida dos wendat em 1636; nas notas de Jean de Brébeuf, quem traz a lama é um sapo. O animal muda, a regra fica: o mergulhador menor faz o que o maior não fez.
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II O Diagnóstico
O último da fila
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O núcleo arquetípico é o mergulhador improvável: aquele que só ganha a vez quando os fortes falharam, e cuja vitória o grupo não previa porque nunca o levou a sério.
O primeiro traço é a ordem da fila. O castor foi antes porque constrói represas; a lontra, porque nada melhor. A fila seguiu a reputação. Ninguém perguntou quem aguentava mais tempo sem ar.
E o rato-almiscarado aguenta muito. O animal real, de nome científico Ondatra zibethicus (o nome em latim do rato-almiscarado), fica embaixo da água por mais de 15 minutos, segundo o guia Mammals of North America, de Roland Kays e Don Wilson, publicado pela Princeton University Press em 2009. O pequeno da margem tinha o fôlego de um mergulhador de ofício, e o grupo nunca mediu.
O segundo traço é o riso. Em várias versões, os outros animais zombam do rato antes do mergulho. A dúvida do grupo vira peso extra para quem já desce com menos fôlego.
O terceiro traço é o preço. O rato-almiscarado entregou a lama e não viu a terra crescer. Quem resolve o problema que os fortes largaram muitas vezes paga mais caro, porque chega quando o tempo e o ar já estão no fim.
O psicólogo Albert Bandura, da Universidade Stanford, chamou de autoeficácia (a crença na própria capacidade de cumprir uma tarefa) o que separa quem tenta de quem desiste. Em Self-Efficacy: The Exercise of Control, de 1997, ele mostrou que essa crença pesa tanto quanto a habilidade.
O rato não tinha a fama do castor. Tinha a autoeficácia de pedir a vez depois de ver três fracassos seguidos.
Na vida comum, o padrão aparece toda semana. É o estagiário que acha o erro na planilha depois que o gerente sênior desistiu. É a irmã mais nova que cuida do pai doente quando os irmãos bem-sucedidos dizem que não têm tempo.
O sinal de alerta é a frase “deixa que os grandes resolvem”. Ela empurra o pequeno para o fim da fila e atrasa a solução.
Acontece também com o pequeno que se cala por educação. Quem vê a lama e espera a permissão dos grandes chega quando já não há ar para descer.
Há também o lado de quem organiza a fila. Um grupo que chama sempre os mesmos perde o mergulhador que acharia a lama na primeira tentativa.
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