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Salmoneu era filho de Éolo e irmão de Sísifo, de uma linhagem que a tradição grega já associava à esperteza levada longe demais. Saiu da Tessália com um grupo de colonos e fundou uma cidade na Élide, no noroeste do Peloponeso, batizada com o nome dele: Salmônia.
A cidade prosperou, e é aí que a história inclina. Gratidão sustentada por anos vira reverência, e Salmoneu passou a receber dos súditos um tratamento que os gregos reservavam a outra categoria de ser.
Em vez de recusar, ele decidiu formalizar. Mandou desviar para si os sacrifícios que a cidade oferecia a Zeus, ordenou que os altares do deus servissem ao rei e exigiu que o povo o chamasse pelo nome do senhor do céu. A ordem era simples: o trovão agora tinha endereço local.
Faltava a prova. Nenhum decreto convence uma população agrícola que vive olhando para cima, e Salmoneu precisava entregar um fenômeno. A solução dele foi de engenharia teatral, não de teologia.
Ele mandou construir uma ponte de bronze sobre a cidade e cruzava a estrutura em alta velocidade num carro puxado por cavalos. Preso ao carro, um cortejo de caldeirões e chapas de bronze batia contra o piso metálico e devolvia um estrondo grave que se espalhava pelo vale inteiro.
O relâmpago vinha junto. Enquanto o carro corria, o rei atirava tochas acesas contra o céu, deixando riscos de fogo no ar do fim da tarde. Alguns relatos acrescentam um detalhe pesado: homens colocados abaixo da ponte caíam ao chão no momento das tochas, fingindo terem sido atingidos pelo raio do soberano.
Apolodoro registra o episódio na Biblioteca, compilação da mitologia grega que a tradição data por volta do século I ou II d.C., e é dele a descrição mais direta do arranjo: correias, couros secos e caldeirões de bronze arrastados atrás do carro para produzir o som do trovão.
Virgílio coloca a cena numa moldura mais dura, no livro VI da Eneida, obra de cerca de 19 a.C. Eneias encontra Salmoneu no Tártaro, cumprindo uma pena severa, e o poeta resume o crime numa frase que não sobra nada:
"Demens, qui nimbos et non imitabile fulmen aere et cornipedum pulsu simularat equorum." (Louco, que imitava as nuvens e o raio inimitável com o bronze e com o bater dos cascos dos cavalos.) Virgílio, Eneida, livro VI, c. 19 a.C. |
O verso guarda a palavra que sustenta a história inteira: inimitável. Não se trata de uma imitação ruim, e sim de uma categoria que não aceita cópia, por mais caro que seja o equipamento.
O fim chega no meio de uma apresentação. Zeus não manda mensageiro, não abre processo e não debate. Um raio real desce sobre a ponte de bronze, e leva junto o rei, o carro e a cidade que aplaudia.
O detalhe cruel é que Salmônia desaparece do mapa com o fundador. A plateia que sustentou a encenação por anos paga o mesmo preço do encenador.
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