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Durante uma noite inteira, servos carregaram jarros de barro até a beira dos campos e os viraram sobre a terra. Eram sete mil. O líquido escorria grosso, cor de sangue fresco, e cheirava a cevada fermentada.
Ninguém dormiu em Heliópolis. Moças tinham passado o dia esmagando grão para a bebida. Um moleiro do templo tinha moído uma pedra vermelha trazida do sul, das margens da primeira catarata do Nilo, e o pó se desfez dentro das jarras até a mistura ficar escura.
Quando a última jarra secou, a lâmina vermelha cobria o chão até a altura de três palmos. Parecia um campo de batalha depois do fim. Era exatamente essa a intenção.
A poucos quilômetros dali dormia uma leoa. Ela tinha passado dias caçando gente no deserto e nas aldeias, e o gosto que carregava na boca era de carne humana. Ela pretendia recomeçar ao nascer do sol.
O deus que a mandou caçar estava acordado. Era velho, tinha ossos de prata e cabelo de lápis-lazúli, e já não queria a matança que ele próprio tinha encomendado. Ele sabia que uma ordem não bastaria. Palavra nenhuma alcança uma fera que provou sangue.
Daí a armadilha ter cor. De manhã, a leoa chegou aos campos, viu o próprio rosto refletido na superfície vermelha e achou bonito. Baixou a cabeça e bebeu. Bebeu mais. O corpo pesou, os olhos turvaram, e ela voltou para casa cambaleando, sem enxergar mais nenhum homem pelo caminho.
A humanidade amanheceu viva por causa de uma bebedeira planejada.
O plano funcionou. Mesmo assim, ficou no mito uma lição incômoda sobre quem manda de fato quando a raiva sai do controle: o deus mais poderoso do Egito precisou enganar a própria arma.
A primeira seção conta quem conspirou contra o deus, por que ele escolheu aquela leoa e de onde veio a pedra vermelha.
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O relato está no Livro da Vaca Celeste, texto egípcio do Império Novo gravado num dos santuários dourados do túmulo de Tutancâmon (por volta de 1323 a.C.) e nas paredes dos túmulos de Seti I, Ramsés II, Ramsés III e Ramsés VI. A protagonista é Sekhmet, a deusa leoa cujo nome significa "a Poderosa", e o deus que a solta é Rá, o sol criador.
O primeiro ato tem motivo claro. Rá tinha envelhecido no trono da Terra, e os homens perceberam. Reuniram-se no deserto e tramaram contra ele. O texto diz que o deus soube do plano e ficou ofendido: quem ele tinha criado conspirava contra o criador.
Rá não agiu sozinho. Chamou em segredo os deuses mais antigos, entre eles Nun, o oceano primordial de onde tudo saiu, e pediu conselho. Nun respondeu que o Olho de Rá, a força do sol capaz de agir longe do corpo dele, devia descer e castigar os rebeldes.
O Olho desceu na forma de Hator, deusa do amor e da música. No deserto, a deusa matou os conspiradores e voltou dizendo que tinha gostado. Nesse ponto do texto, ela recebe o nome de Sekhmet. A mesma divindade que era doçura virou fúria.
"Tu vives por mim. Eu dominei a humanidade, e foi agradável ao meu coração." Livro da Vaca Celeste, túmulo de Seti I, c. 1290 a.C. |
O segundo ato também tem motivo dito no texto. Rá decidiu poupar o resto dos homens, porque queria continuar rei sobre eles, e um rei sem súditos não governa ninguém. As traduções divergem no tom: umas leem arrependimento, outras cálculo político. Esta edição usa as duas leituras juntas, porque o texto sustenta ambas.
A fúria, porém, não parou. Sekhmet pretendia voltar no dia seguinte e acabar a tarefa. Rá não mandou recolhê-la, porque uma ordem não bastaria.
Mandou mensageiros velozes a Elefantina, ilha na primeira catarata do Nilo, buscar "didi", palavra que a maioria dos egiptólogos traduz como ocre vermelho ou hematita (minério de ferro avermelhado). Traduções antigas, do século XIX, liam romã ou mandrágora. Esta edição segue a leitura do ocre, hoje a mais aceita.
Rá não conseguiu desfazer a ordem; conseguiu apenas dar à leoa algo que parecesse o que ela procurava.
Depois da bebedeira, Rá saudou a deusa que voltava mansa. Em seguida, cansado dos homens, subiu ao céu nas costas de Nut, a deusa do firmamento, transformada em vaca: daí vem o título do texto. Os egípcios passaram a celebrar a Festa da Embriaguez, com cerveja tingida, em honra da leoa aplacada.
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O núcleo arquetípico é a raiva delegada que ganha vontade própria: alguém solta a fúria contra um alvo e descobre, tarde, que ela não aceita ordem de retorno.
O primeiro traço está na mudança de nome. Hator saiu do palácio como uma deusa e voltou como outra. O mito marca com precisão o instante: ela diz que gostou. A raiva que dá prazer deixa de servir a quem a mandou e passa a servir a si mesma.
O segundo traço é a delegação. Rá não desceu ao deserto. Mandou seu Olho, uma parte dele que age longe do corpo. Hoje, o Olho de Rá é o email ríspido encaminhado a toda a equipe, o recado atravessado entregue por um filho, o comentário público que alguém escreve e depois não controla mais. A distância entre quem solta e quem executa é o espaço onde a fúria cresce.
O terceiro traço é a impotência da ordem. O deus mais poderoso do panteão não disse "pare". O mito sabe que não adiantaria. Quem já tentou acalmar alguém mandando a pessoa se acalmar conhece a cena.
Sêneca descreveu a mesma experiência séculos depois, num tratado escrito em Roma.
"Alguns sábios disseram que a ira é uma loucura breve." Sêneca, Sobre a Ira (De Ira, livro I), c. 41 d.C. |
O quarto traço é a solução pela semelhança. Rá não ofereceu à leoa leite nem mel. Ofereceu algo com a cor exata do que ela buscava. A fúria só aceita um substituto que se pareça com o alvo.
O quinto traço é o custo. Mesmo depois de a leoa se acalmar, Rá abandonou a Terra e subiu ao céu. O estrago da raiva não termina quando ela passa: muda quem a soltou.
O sexto traço é a memória. Os egípcios não esqueceram o massacre; transformaram a noite da cerveja em festa anual. Quem soltou uma fúria grande carrega a lembrança dela, e a relação com o alvo nunca mais volta exatamente ao que era. O mito prefere lembrar a fingir que a leoa não saiu.
A tradução para hoje é cotidiana. É o pai que grita com o filho pela nota baixa e ainda está bravo duas horas depois, já sem lembrar a nota. É a briga de casal que começa pela louça e termina em frases que ninguém quis dizer. É o gestor que pede rigor numa reunião e vê a equipe punir um colega por semanas.
O sinal de alerta é simples. Pense na última vez em que você se irritou com alguém. Se a raiva durou mais que o motivo, a leoa já estava caçando por conta própria.
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