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ED 185
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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores.

Shamiram vestiu um amante com as roupas de Ara

Os aralez não devolveram o rei, e a rainha da Assíria encenou a volta dele para encerrar a guerra

Shamiram no terraço ao lado do corpo de Ara

Os aralez sobre o rei no terraço

▼

No terraço mais alto do palácio, um corpo de homem descansava sobre uma laje de pedra, coberto até o peito por um manto vermelho. O vento descia das montanhas da Armênia e não mexia nada nele.

Ao redor, criados acendiam tochas e evitavam olhar. A rainha tinha dado uma ordem clara: ninguém tocaria no rei, e ninguém diria a palavra que todos pensavam.

O homem sobre a pedra se chamava Ara, o Belo, rei da Armênia. A mulher que vigiava ao lado era Shamiram, rainha da Assíria, a mesma que tinha mandado o exército contra ele.

Ela não o queria naquele estado. Queria o homem vivo, ao lado dela, e tinha dado a ordem aos generais antes da batalha: tragam Ara sem um arranhão. A guerra não seguiu a ordem.

Agora Shamiram esperava os aralez, os espíritos em forma de cão alado que, na crença armênia, desciam do céu e lambiam as feridas dos guerreiros caídos até devolver a eles o sopro.

A rainha anunciou que os deuses atenderiam ao pedido dela. Mandou que os soldados contassem a história nos acampamentos, e os armênios, do outro lado do campo, ouviram e esperaram.

Os criados subiam e desciam a escada com água, óleo e incenso. Ninguém sabia ao certo como receber um cão vindo do céu, então deixaram o terraço livre e as portas abertas, como quem prepara a casa para uma visita importante.

Passou uma noite. Passou outra. As tochas foram trocadas muitas vezes, e o corpo continuou exatamente onde estava.

Uma rainha que governava cidades inteiras descobriu, naquele terraço, um limite que nenhum decreto atravessava. O que ela fez depois virou uma das passagens mais estranhas da tradição armênia.

Shamiram não admitiu o fracasso. Escolheu um homem da corte, vestiu nele as roupas do rei e mandou dizer aos dois exércitos que Ara tinha voltado.

Logo abaixo, a origem dessa história, o que a rainha ganhou com a encenação e o preço de fingir um fim que não aconteceu.

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I  O Mito

O rei recusou a rainha

O relato mais antigo que sobreviveu vem de Moisés de Corene, o historiador armênio que escreveu a História da Armênia, obra tradicionalmente datada do século V. A passagem de Ara e Shamiram fica no livro I, nos capítulos 15 e 16, e mistura memória de reis com mito antigo.

Shamiram é a forma armênia de Semíramis, a rainha lendária da Assíria que os gregos já celebravam. Na versão de Moisés, ela ouvira falar da beleza de Ara e decidiu tê-lo como marido.

Mandou embaixadores com presentes e propostas. Ofereceu riqueza, poder e um lugar ao lado dela em Nínive. Ara recusou todas as vezes. Era casado, governava o próprio reino e não tinha interesse em virar enfeite de outra coroa.

A recusa transformou desejo em guerra. Shamiram reuniu as tropas e marchou para o norte, até a planície que depois ganhou o nome de Ara, no coração da Armênia.

Antes do combate, ela deu uma instrução que pesa no resto da história. Os generais deviam capturar Ara vivo, custasse o que custasse. A rainha queria o homem, e não a vitória sobre ele.

A batalha não respeitou o plano. Ara lutou na linha da frente, como os reis da época, e caiu entre os seus soldados. Quando o campo silenciou, os assírios encontraram o corpo dele sem vida.

Shamiram mandou levar o rei para o palácio e colocá-lo no alto, num terraço. Ali, segundo Moisés, ela declarou que tinha ordenado aos seus deuses que lambessem as feridas de Ara até ele levantar.

Os aralez aparecem em outros relatos armênios como cães sobrenaturais, ligados à cura dos que tombavam em combate. A rainha usou uma crença do povo vencido para prometer um milagre ao próprio povo vencido.

Nada aconteceu. O corpo começou a se decompor. Moisés registra que Shamiram mandou retirá-lo em segredo e escondê-lo num fosso.

Vale notar a escolha da rainha naquele instante. Ela tinha o corpo, tinha o poder e tinha os dois exércitos parados à espera de uma notícia. Podia devolver Ara aos armênios para o enterro, com honras de rei. Preferiu esconder a prova de que o milagre falhara.

Depois veio o gesto que dá nome a esta edição. A rainha escolheu um de seus amantes, vestiu nele as roupas de Ara e espalhou a notícia de que os aralez tinham cumprido a tarefa. O rei estava de pé, e a guerra podia parar.

 
 

II  O Diagnóstico

O fim encenado

O padrão que o mito descreve ganha nome nesta edição: o fim encenado. É o hábito de, sem conseguir o desfecho que se queria, montar uma cópia dele e apresentar a cópia como se fosse o original.

Shamiram tinha um problema real. Os armênios acabavam de perder o rei e podiam continuar lutando por vingança. Uma notícia de volta milagrosa desarmava os dois lados de uma vez. Do ponto de vista político, a farsa funcionou.

O primeiro traço do padrão é a promessa pública antes do resultado. A rainha anunciou o milagre aos acampamentos antes de saber se ele viria. Quando o prazo se esgotou, recuar significava admitir diante de todos que a ordem dela não valia sobre a vida e a morte.

O segundo traço é a troca do conteúdo pela embalagem. Os aralez não devolveram Ara, então Shamiram devolveu a roupa de Ara. De longe, para quem não chegava perto, a túnica bastava.

O terceiro traço é o esconderijo. O corpo verdadeiro foi para um fosso, longe dos olhos. Todo fim encenado precisa de um lugar onde o fato real fica guardado, e de alguém que vigie esse lugar.

“Estamos tão acostumados a nos disfarçar diante dos outros que acabamos nos disfarçando diante de nós mesmos.”

François de La Rochefoucauld, Máximas, máxima 119, 1665

O moralista francês descrevia a corte de Luís XIV. O mito armênio mostra a mesma mecânica dezenas de séculos antes: o disfarce feito para acalmar os outros acaba exigindo que a própria rainha finja acreditar nele.

Na vida comum, o fim encenado aparece no projeto que fracassou e segue no relatório como "em andamento". Aparece no casal que se separou por dentro e mantém as fotos da viagem no perfil, e na empresa que perdeu o cliente principal e continua exibindo o logotipo dele no site.

Há um custo que Shamiram não aparece pagando no relato, mas que todo fim encenado cobra. Alguém precisa usar a roupa todos os dias. O amante vestido de rei virou prisioneiro do papel, e a rainha virou guardiã de um segredo que crescia a cada visita.

Repare também em quem paga a conta. O fim encenado raramente custa caro a quem o monta no primeiro dia. Custa aos que acreditam, que tomam decisões em cima de uma notícia falsa, e custa ao próprio autor, que perde a chance de viver o luto no tempo certo.

O sinal de alerta é simples. Se você precisa controlar quem chega perto para a história continuar de pé, a história não terminou do jeito que você conta.

 

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III  A Saída

Enterrar o rei verdadeiro

O mito guarda a saída no próprio desenho da farsa. Shamiram teve três momentos para escolher outro caminho: antes da promessa, diante do corpo, e diante do fosso. A saída passa por esses três pontos.

Para quem tem um fim que não aconteceu como queria, quatro passos:

1. Espere o resultado antes de anunciar. Shamiram prometeu o milagre aos soldados antes da primeira noite. Quem anuncia cedo fica sem saída honrosa quando o fato não vem.

2. Diga a palavra que todos pensam. No terraço, os criados sabiam e calavam. Nomear o fracasso em voz alta, para pelo menos uma pessoa de confiança, tira dele o poder de exigir disfarce.

3. Separe o objetivo do símbolo. A rainha queria a paz e queria Ara. A paz podia vir de um acordo; Ara não voltaria. Misturar os dois levou à roupa no corpo errado.

4. Enterre o que precisa ser enterrado à vista. O fosso escondido é o oposto do luto. Um fim reconhecido permite que os outros também sigam adiante.

Vale um contrapeso. Shamiram tinha dois exércitos no campo e vidas em jogo, e o mito não pede ingenuidade política. Há momentos em que a calma vale uma narrativa conveniente por alguns dias. O erro começa quando a narrativa vira a única versão permitida.

Há ainda um passo para quem está do outro lado, quem recebe o anúncio. Os armênios que ouviram falar da volta de Ara nunca chegaram perto do homem com a túnica. Diante de um fim bom demais, chegar perto é um direito.

O desfecho mostra o preço de manter a cópia. Segundo Moisés de Corene, a farsa acalmou a Armênia, mas Shamiram passou a dividir o país com a lembrança do rei que ela não teve, e mandou erguer uma estátua aos deuses que supostamente tinham devolvido Ara.

A pergunta da edição: qual fim você anunciou cedo demais e hoje mantém de pé só com a roupa?

Shamiram, diante dos armênios, segundo o relato de Moisés: "Os aralez lamberam as feridas do vosso rei, e ele vive." O povo aceitou a notícia, a guerra parou e restava decidir quem governaria aquela terra no lugar dele.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem Shamiram pôs no trono da Armênia depois de enterrar a farsa do falso Ara?

 
 
Quiz da edição

Depois que o corpo de Ara começou a se decompor no terraço do palácio, o que Shamiram mandou fazer com ele?

ADevolveu o corpo aos armênios com honras de funeral
BMandou queimá-lo nas tochas do próprio terraço
CMandou retirá-lo em segredo e escondê-lo num fosso
DEnterrou o corpo num templo em Nínive

Resultado da última edição: 25% acertaram.

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