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O relato mais antigo que sobreviveu vem de Moisés de Corene, o historiador armênio que escreveu a História da Armênia, obra tradicionalmente datada do século V. A passagem de Ara e Shamiram fica no livro I, nos capítulos 15 e 16, e mistura memória de reis com mito antigo.
Shamiram é a forma armênia de Semíramis, a rainha lendária da Assíria que os gregos já celebravam. Na versão de Moisés, ela ouvira falar da beleza de Ara e decidiu tê-lo como marido.
Mandou embaixadores com presentes e propostas. Ofereceu riqueza, poder e um lugar ao lado dela em Nínive. Ara recusou todas as vezes. Era casado, governava o próprio reino e não tinha interesse em virar enfeite de outra coroa.
A recusa transformou desejo em guerra. Shamiram reuniu as tropas e marchou para o norte, até a planície que depois ganhou o nome de Ara, no coração da Armênia.
Antes do combate, ela deu uma instrução que pesa no resto da história. Os generais deviam capturar Ara vivo, custasse o que custasse. A rainha queria o homem, e não a vitória sobre ele.
A batalha não respeitou o plano. Ara lutou na linha da frente, como os reis da época, e caiu entre os seus soldados. Quando o campo silenciou, os assírios encontraram o corpo dele sem vida.
Shamiram mandou levar o rei para o palácio e colocá-lo no alto, num terraço. Ali, segundo Moisés, ela declarou que tinha ordenado aos seus deuses que lambessem as feridas de Ara até ele levantar.
Os aralez aparecem em outros relatos armênios como cães sobrenaturais, ligados à cura dos que tombavam em combate. A rainha usou uma crença do povo vencido para prometer um milagre ao próprio povo vencido.
Nada aconteceu. O corpo começou a se decompor. Moisés registra que Shamiram mandou retirá-lo em segredo e escondê-lo num fosso.
Vale notar a escolha da rainha naquele instante. Ela tinha o corpo, tinha o poder e tinha os dois exércitos parados à espera de uma notícia. Podia devolver Ara aos armênios para o enterro, com honras de rei. Preferiu esconder a prova de que o milagre falhara.
Depois veio o gesto que dá nome a esta edição. A rainha escolheu um de seus amantes, vestiu nele as roupas de Ara e espalhou a notícia de que os aralez tinham cumprido a tarefa. O rei estava de pé, e a guerra podia parar.
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