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ED 198
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A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

Tiddalik bebeu todos os rios e só devolveu rindo

No mito aborígene, a enguia Noyang dançou até arrancar uma gargalhada do sapo e a água voltou à terra

O sapo gigante Tiddalik, inchado de água, diante da enguia que dança

A enguia Noyang dança diante de Tiddalik

▼

A lama rachada estalava sob as patas do canguru, e o ar quente cheirava a folha de eucalipto torrada pelo sol. No lugar onde corria o rio, sobrava uma faixa de pedras brancas e peixes secos.

No meio da planície, sentado sobre a terra dura, estava Tiddalik, o sapo gigante dos mitos aborígenes do sudeste da Austrália. A barriga dele brilhava, esticada como couro de tambor. Dentro dela estava toda a água da região: rios, lagoas, poças e o orvalho das folhas.

Tiddalik tinha acordado com sede numa manhã comum. Bebeu o lago mais próximo e continuou com sede. Bebeu o riacho, depois o rio, depois os charcos do mato. Quando terminou, não havia água em lugar nenhum, e ele não se mexia.

As plantas começaram a murchar. Os pássaros pararam de cantar. Os outros animais andavam em círculos, com a língua de fora, procurando uma gota na sombra das pedras.

Então se reuniram em conselho. Alguém sugeriu atacar o sapo, mas a ideia caiu logo: quem furasse a barriga dele poderia afogar todo mundo de uma vez, e ninguém sabia para onde a água correria. A coruja velha propôs outro plano. Se Tiddalik risse, abriria a boca, e a água sairia junto com o riso.

Pareceu fácil. Não foi. O kookaburra, a ave famosa pelo canto que soa como gargalhada humana, contou as melhores histórias que sabia. O canguru deu saltos desajeitados. O emu andou de pernas tortas. Tiddalik olhava para todos sem piscar.

Os animais estavam a ponto de desistir quando a enguia, que tinha se arrastado de um charco seco, pediu a vez.

A primeira seção conta o mito inteiro: por que Tiddalik bebeu, por que a força não serviu e o que a enguia fez. A segunda olha para quem guarda tudo e trava. A terceira mostra como se faz alguém soltar o que segura.

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I  O Mito

A barriga cheia do sapo

O mito de Tiddalik pertence aos povos aborígenes do sudeste da Austrália, e a versão mais contada vem dos gunai (também escrito kurnai), da região de Gippsland, no estado de Victoria. É tradição oral, passada de geração em geração, e chegou ao papel em livros infantis e coletâneas do século 20. Na versão gunai, a enguia se chama Noyang.

O motivo da bebedeira muda de uma versão para outra. Em algumas, Tiddalik só acorda com uma sede que não passa. Em outras, ele bebe por gula e por birra, porque queria a água só para si. A edição usa a versão da gula: o sapo bebe além da sede e depois se recusa a devolver.

O motivo de os animais não usarem a força está dito no próprio mito. A barriga de Tiddalik guardava água demais. Um golpe poderia soltá-la de uma vez e arrastar o bando inteiro. Daí o riso era a única saída segura: abria a boca do sapo sem arrebentar nada.

Noyang entrou no círculo devagar. Começou a se contorcer sobre a terra seca, enrolando o corpo comprido, dobrando-se em nós, girando sobre a própria cauda. Cada volta saía mais esquisita que a anterior.

Tiddalik resistiu às piadas, aos saltos e às caretas; cedeu a um bicho que ninguém levava a sério. Primeiro o canto da boca tremeu. Depois os olhos piscaram. Por fim, o sapo soltou uma gargalhada que sacudiu o chão.

A água saiu aos borbotões. Voltou aos rios, encheu as lagoas, cobriu as pedras brancas. Algumas versões contam que a enxurrada foi tão forte que alguns animais quase se afogaram, e que o pelicano saiu de canoa para salvá-los. Tiddalik ficou murcho, do tamanho de um sapo comum.

Há uma raiz no bicho real. A Austrália tem um sapo, o Cyclorana platycephala (sapo-que-guarda-água), que enche o corpo de água antes da seca e se enterra no barro por meses. Os povos do deserto sabiam desenterrá-lo e espremê-lo para beber. O mito transforma esse sapo de carne e osso num gigante.

Em Warwick, no estado de Queensland, uma estátua de Tiddalik fica num parque da cidade. Ela foi posta ali como lembrete do valor da água numa terra de secas longas.

O mito não diz se Tiddalik aprendeu alguma lição. Ele não fala depois da gargalhada, não pede desculpa e não promete nada. As versões terminam com a água de volta e o sapo pequeno, e calam sobre o resto.

 
 

II  O Diagnóstico

O peso de quem segura tudo

O padrão do mito pode ser chamado de represa travada. A pessoa guardou algo que é de todos, ou que precisava circular, e agora não consegue soltar. Ninguém a convence pela razão, porque ela não está ouvindo razão. Está tensa.

Tiddalik não respondia aos animais. Olhava para eles, imóvel. Quem segura muito passa a gastar energia só em segurar. Sobra pouca atenção para o que os outros dizem.

“Se ele rir, a água sai junto com o riso.”

A coruja, mito de Tiddalik, versão gunai, tradição oral (tradução livre)

A represa travada aparece em situações conhecidas. O colega que guarda a informação do projeto e trava a equipe inteira. O sócio que segura o dinheiro do caixa por medo e deixa o negócio sem fôlego. O parente que guarda uma mágoa por anos e não consegue falar dela em voz alta.

O primeiro traço é a rigidez do corpo. A barriga de Tiddalik estava esticada, e ele não se mexia. Quem guarda algo pesado costuma ficar parado, com os ombros duros e a resposta curta.

O segundo traço é a inutilidade da pressão. Os animais pensaram em atacar e desistiram, porque o ataque afogaria todos. Cobrança, ameaça e sermão costumam ter o mesmo efeito: a pessoa aperta a boca com mais força.

O terceiro traço é o estrago ao redor. Tiddalik não sofria com a seca; a barriga dele estava cheia. Quem sofria eram os pássaros, as plantas e os bichos com a língua de fora. Quem trava raramente paga a conta sozinho.

Há ainda um ponto incômodo. Os animais tentaram rir junto com o sapo, e erraram de método. Contaram piadas, ou seja, tentaram convencer pelo esforço. A enguia não convenceu ninguém. Ela se expôs ao ridículo, e o ridículo dela desarmou o sapo.

Repare também no tempo. Os animais passaram dias tentando, um depois do outro, e cada fracasso deixava o grupo mais aflito. A aflição contamina. Quem tenta destravar alguém com pressa costuma passar a própria tensão adiante, e a represa aperta.

O último traço é o mais fácil de esquecer: Tiddalik não era mau. O mito não o pinta como vilão que planejou a seca. Ele bebeu, ficou pesado e travou. Muita gente que segura demais não sabe como soltar sem perder a face.

O mito sugere que ninguém solta aquilo que guarda enquanto se sente vigiado. A gargalhada só veio quando Tiddalik parou de se defender.

 

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III  A Saída

O riso no lugar do sermão

A saída do mito é estreita: trocar a pressão pelo alívio. Ninguém tirou a água de Tiddalik à força. Ele a devolveu quando a guarda caiu.

Para quem convive com uma represa travada, ou percebe uma em si, quatro passos:

1. Pare de cobrar. Se a cobrança já foi feita três vezes, a quarta só aperta a boca. Os animais pararam de pedir água e começaram a fazer o sapo rir.

2. Baixe a sua própria guarda primeiro. A enguia se expôs ao ridículo antes de pedir qualquer gesto do sapo. Contar um erro seu, rir de si, admitir o próprio medo abre espaço para o outro fazer o mesmo.

3. Mude de quem fala. O kookaburra era o bicho mais engraçado do grupo, e falhou. Às vezes a pessoa certa para destravar alguém é a mais improvável, aquela que ninguém achava capaz.

4. Prepare o terreno para a enxurrada. Quando a água voltou, alguns animais quase se afogaram. Quem guarda muito, ao soltar, solta de uma vez. Ouça sem interromper e sem cobrar juros.

Vale um contrapeso. Nem toda represa se desfaz com riso. Há quem guarde por esperteza, e não por medo, e aí a brincadeira vira deboche. O mito trata de um sapo travado, não de um ladrão calculista.

E vale reparar em Tiddalik no fim. Ele termina pequeno, do tamanho de um sapo comum. Soltar a água custou o tamanho que a água dava a ele. Quem devolve o que guardou perde volume, e ganha de novo um lugar no bando.

Repare, por fim, no conselho dos animais. Ninguém decidiu sozinho. A coruja deu a ideia, o kookaburra tentou, o canguru e o emu tentaram, e a enguia só entrou porque o grupo ainda estava ali, de pé, sem ter partido para o ataque. Destravar alguém costuma ser trabalho de muitos e paciência de todos.

O plano também exigiu humildade de quem tinha razão. Os animais estavam certos: a água era de todos. Mesmo assim, escolheram fazer o sapo rir em vez de exigir o que era deles. A razão ficou guardada, e a água voltou.

Fica para você: o que você está segurando que só soltaria se alguém o fizesse rir?

Noyang, na versão gunai recontada em tradução livre, disse aos animais antes de dançar: “Deixem comigo, eu ainda não tentei.”

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, onde fica a estátua de Tiddalik erguida como lembrete do valor da água?

AEm um museu de Melbourne
BNa margem do rio Murray
CEm um parque na cidade de Warwick, em Queensland
DEm um parque aborígene de Sydney

Resultado da última edição: 70% acertaram.

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Dia 5 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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