A resposta de ontem Com qual pássaro do mar Jingwei formou par? Com um petrel, ave marinha que os chineses chamam haiyan (andorinha do mar). O Shuyi Ji, coletânea de relatos estranhos atribuída a Ren Fang, por volta do ano 500, conta que as filhas do casal nasciam jingwei e os filhos, petréis, e que Jingwei jurou nunca beber da água do Mar do Leste. |
O mito chegou até nós pelo Samguk Yusa (Memórias dos Três Reinos), livro que o monge budista Iryeon compilou por volta de 1281, durante a dinastia Goryeo. Iryeon diz que copiou a história de um livro mais antigo, o Gogi (Registro Antigo), que se perdeu depois.
A história começa no céu. Hwanin, o Senhor do Céu, tinha um filho mais novo, Hwanung, que vivia olhando para baixo. O motivo da descida está escrito com todas as letras: Hwanung desejava o mundo dos homens e queria governá-lo. O pai olhou a terra, escolheu o monte Taebaek (a Grande Montanha Branca) e viu que dali o filho podia fazer o bem aos humanos.
O texto usa a expressão hongik ingan (beneficiar amplamente os humanos) para dizer o propósito. A Coreia do Sul pôs a expressão na lei de educação de 1949 como meta do ensino do país.
Hwanin entregou ao filho três selos celestes, sinais da autoridade dele, e mandou-o descer com três mil seguidores. Hwanung pousou no topo da montanha, debaixo de uma árvore chamada Sindansu (a árvore do altar divino), e ali fundou a Cidade de Deus. Trouxe consigo o Senhor do Vento, o Mestre da Chuva e o Mestre das Nuvens.
Com eles, cuidou de tudo o que pesa na vida de um povo que planta: o grão, a vida, a doença, o castigo, o certo e o errado. O livro conta trezentas e sessenta tarefas sob o governo dele.
Foi nesse ponto que a ursa e o tigre apareceram. Viviam na mesma caverna e rezavam sem parar a Hwanung, pedindo para virar gente. O livro não diz por que queriam; diz só que pediam todo dia. A edição fica com o silêncio do texto e não inventa motivo.
Também não há explicação no Samguk Yusa para a escolha das plantas. Os estudiosos lembram que a artemísia e o alho eram ervas de remédio e de limpeza no leste da Ásia, mas essa é uma leitura de fora: Iryeon só registra o feixe de erva, os vinte dentes e a ordem de não ver o sol.
O livro diz que o tigre não conseguiu guardar o interdito, e para por aí: não conta o dia em que ele saiu nem o que sentiu. Sobre o motivo da desistência, não há fonte. O que se sabe é o resultado: continuou tigre.
A ursa guardou a regra e ganhou corpo de mulher, chamada no texto de Ungnyeo (a mulher-urso). Sem marido, voltou à árvore do altar e pediu um filho. Hwanung tomou forma de homem, casou-se com ela, e nasceu Dangun Wanggeom.
Dangun fundou o reino de Joseon, que os historiadores chamam hoje de Gojoseon (a Antiga Joseon). A data mais repetida, 2333 antes de Cristo, vem do Dongguk Tonggam, crônica que o erudito Seo Geo-jeong apresentou ao rei em 1485. A Coreia do Sul comemora a fundação todo 3 de outubro, o Gaecheonjeol (Dia em que o Céu se Abriu).
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O padrão do mito pode ser chamado de saída no meio escuro. A pessoa aguenta o começo, quando a vontade ainda está fresca, e larga no trecho em que o esforço já foi feito e a recompensa ainda não aparece.
O começo de uma prova tem combustível próprio. A ursa e o tigre tinham acabado de ouvir um deus dizer sim. A primeira noite na caverna foi movida pela promessa. Ninguém larga no primeiro dia de uma dieta, de um curso ou de uma obra.
“O tigre não conseguiu guardar o interdito e não ganhou corpo humano.” Iryeon, Samguk Yusa, livro 1, c. 1281 (tradução livre) |
O fim também tem combustível próprio. Quando se enxerga a linha de chegada, o corpo acha força. O problema mora entre os dois: o trecho em que a promessa já esfriou e a chegada ainda não se vê.
Foi aí que o tigre se levantou. A caverna era escura de propósito. Não havia sol para contar os dias, nem marca na parede, nem sinal de mudança no corpo. Ele trocava a carne pela erva amarga e não via nenhum pelo cair.
O primeiro traço da saída no meio escuro é medir o progresso pelo que se sente, e não pelo que se fez. O tigre sentia fome e frio. Pelo sentido, estava pior a cada dia, embora estivesse mais perto a cada dia.
O segundo traço é a contagem perdida. Quem não sabe quanto falta passa a imaginar que falta tudo. Cem dias anunciados, vividos no escuro, viram um prazo sem fundo.
O terceiro traço é a comparação com a vida de antes. Lá fora havia caça, sol e mato. A cada noite, o tigre comparava a caverna com a liberdade que tinha largado, e não com a forma nova que vinha buscar.
Há ainda um detalhe que dói no mito. A ursa e o tigre receberam a mesma erva, a mesma regra e a mesma caverna. Nenhum dos dois tinha vantagem. A diferença entre os dois destinos coube inteira na decisão de continuar deitado mais uma noite.
O custo também é desigual. O tigre saiu com os dias de jejum jogados fora. Quem larga a prova perto do fim paga o esforço todo e não recebe nada, e ainda leva a lembrança de ter chegado perto.
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