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Ea morava no Apsu, o oceano de água doce que os povos da Mesopotâmia imaginavam sob a terra. Depois de ouvir Upelluri, entendeu o problema: a pedra não cairia por cima. Precisava ser solta por baixo, no lugar onde encostava no ombro.
Ele foi aos deuses antigos e mandou abrir os velhos depósitos, lacrados com os selos dos pais primordiais. Lá estava a ferramenta de cobre com que, no começo, os deuses tinham separado o céu da terra. Ea a usou para cortar os pés de Ullikummi do ombro de Upelluri.
A brecha estava no corte antigo: a lâmina que tinha aberto espaço entre céu e terra abriu espaço entre o titã e a pedra. Sem apoio, o gigante perdeu a força que vinha de baixo.
Para quem carrega algo crescendo há anos, quatro passos:
1. Meça o ombro vazio. Escreva como era sua semana antes de a carga chegar: horas livres, sono, dinheiro, humor. Sem esse retrato, você segue comparando cada dia com o anterior.
2. Pergunte a quem está no Monte Hazzi. Escolha duas pessoas próximas e pergunte o que elas veem crescer em você. O Sol enxergou a pedra primeiro; quem olha de fora costuma enxergar primeiro.
3. Procure o pé, nunca a cabeça. Ache o momento e o acordo em que a carga se apoiou em você: o sim dado sem prazo, a função assumida “só por um mês”. Lute ali, e não no topo.
4. Use a lâmina antiga. Volte à divisão original entre o que é seu e o que é de outro, e faça a conversa ou o limite que estava combinado desde o começo e foi esquecido.
Vale um contrapeso. Nem todo peso deve sair. Upelluri continuou carregando o céu e a terra, a carga que era dele por ofício. A lâmina separou só o que tinha sido posto ali às escondidas.
Depois do corte, Ea avisou os deuses que a pedra tinha perdido o apoio. Teshub montou de novo no carro de guerra para enfrentar Ullikummi no mar, e o gigante ainda gritou ameaças contra ele.
A última tábua se quebra no meio desse combate, e o desfecho exato se perdeu com a argila. Os estudiosos, Hoffner entre eles, deduzem a vitória de Teshub pelo resto do ciclo, em que ele segue rei dos deuses.
Upelluri, que segurou o gigante sem saber, deu a Ea a resposta mais honesta do poema, em tradução livre: “Agora meu ombro direito dói um pouco, mas não sei quem é esse deus.”
Fica a pergunta · até amanhã O que quer dizer Ullikummi, a palavra que Kumarbi escolheu para o filho de pedra? |
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