|
Um homem passa três anos fora e volta para encontrar trezentos anos de mudança. A proporção é de cem para um, e ela não é enfeite de história antiga: é a forma como o tempo costuma se comportar quando alguém sai de um lugar e o lugar continua funcionando sem essa pessoa.
O engano começa no jeito como a ausência é medida. Quem sai conta o próprio calendário, os dias que viveu, as refeições que fez, as estações que viu passar. O tempo de fora é curto porque foi vivido em atenção plena, e tempo vivido assim sempre parece menor do que foi.
O lugar de origem usa outra contagem. Ele não mede em dias, mede em substituições: quem assumiu a função que ficou vaga, quem casou com quem, qual rua virou avenida, qual ofício deixou de existir. Cada substituição é irreversível, e nenhuma delas espera aviso.
As duas contagens só se encontram no dia da volta, e o encontro é sempre desigual. A pessoa chega com a lembrança intacta de como as coisas eram e descobre que a lembrança virou documento histórico, útil para explicar o passado e inútil para circular no presente.
Existe ainda um terceiro relógio, o mais cruel dos três. Enquanto a pessoa está fora, a idade que ela deixou de viver no lugar de origem não desaparece: fica guardada, intocada, esperando. Ela não some, apenas não foi paga ainda.
E a conta chega no instante em que a pessoa insiste em reencontrar o que deixou. Enquanto ela olha para a frente, o débito continua adormecido. No momento em que ela abre o passado para conferir se ainda está lá, os anos poupados voltam todos de uma vez, sem parcelamento.
O Japão guardou essa mecânica na história de um pescador que aceitou a hospedagem mais generosa que existe, viveu ali o que julgou serem três anos, voltou para casa por saudade e recebeu na despedida uma caixa que ninguém deveria ter aberto.
Continue lendo ↓
|
|
Urashima Taro era pescador de uma vila costeira de Tango, na costa do mar do Japão, e a história começa com ele fazendo a única coisa que qualquer pescador daquela praia poderia ter feito. Encontrou um grupo de crianças maltratando uma tartaruga na areia, comprou o animal delas e devolveu a tartaruga ao mar.
No dia seguinte, pescando sozinho, uma tartaruga enorme se aproximou do barco e falou com ele. Era a mesma que ele havia soltado, e trazia um convite: descer até o Ryugu-jo, o palácio do dragão, no fundo do mar, para ser recebido pela filha do soberano das águas.
O palácio não ficava num lugar qualquer do oceano, ficava fora do alcance de qualquer sonda humana. Nas versões mais detalhadas, cada um dos quatro lados do palácio abrigava uma estação inteira, permanentemente: primavera de um lado, verão no seguinte, outono no terceiro, inverno no quarto.
Otohime, a princesa, recebeu o pescador como hóspede permanente. Havia banquete, música, dança de peixes vestidos de cortesãos, e um detalhe que a narrativa faz questão de registrar: nada ali envelhecia. As flores da primavera não caíam, a neve do inverno não derretia, e Urashima não fazia aniversário.
Ele viveu naquele lugar o que contou como três anos. Passado esse tempo, a saudade apareceu inteira e de uma vez: quis rever os pais, a praia, o barco. Pediu licença para voltar, e a princesa não recusou.
A despedida é o eixo da história. Otohime entregou a ele o tamatebako, a caixa de joias, e amarrou o presente a uma condição única: leve com você, guarde com cuidado e nunca abra, porque no dia em que a tampa subir você não conseguirá mais voltar para cá.
A tartaruga o levou de volta à superfície. Urashima reconheceu a linha da costa, a curva da baía, o formato da montanha ao fundo, e não reconheceu mais nada além disso. As casas eram outras, as roupas eram outras, o caminho até a casa dos pais terminava num terreno vazio.
Ele parou o primeiro velho que encontrou e perguntou pela família Urashima. O homem respondeu com uma lembrança de infância: havia sim uma história antiga por ali, de um pescador de nome parecido que saiu para o mar e nunca mais voltou, e aquilo tinha acontecido trezentos anos antes.
Foi na praia, sozinho, sem casa e sem ninguém que pudesse confirmar quem ele era, que Urashima fez a única coisa que lhe restava. Abriu a caixa, procurando ali dentro alguma explicação, alguma prova ou algum caminho de volta.
O que saiu do tamatebako foi uma fumaça branca. O poema mais antigo que conta a cena descreve o efeito sem nenhum comentário moral:
"Ao abrir a caixa de joias, uma nuvem branca se ergueu e partiu em direção ao país eterno, e o rapaz correu atrás dela gritando, batendo os pés no chão, e num instante a pele jovem se enrugou e o cabelo negro ficou branco." Man'yoshu, poema 1740, atribuído a Takahashi no Mushimaro, c. século VIII |
A caixa nunca guardou tesouro nenhum. Guardava a idade que Urashima deixou de viver na aldeia enquanto estava embaixo d'água, os trezentos anos que continuaram correndo do lado de fora e ficaram parados, esperando dono.
Otohime não deu ao pescador uma proibição arbitrária: deu a ele a única chance de viver adiante, desde que ele nunca fosse conferir o que tinha ficado para trás.
|
|
O núcleo arquetípico aqui é a ausência com conta suspensa, o arranjo em que alguém se retira para um ambiente sem desgaste, vive ali em outra velocidade, e acumula do lado de fora um passivo de tempo que continua existindo sem ser cobrado.
O primeiro traço é o ambiente sem atrito. O palácio tem as quatro estações ao mesmo tempo, e ter todas as estações simultâneas é o mesmo que não ter nenhuma. Onde nada acaba, nada marca passagem, e sem marca de passagem a pessoa perde a capacidade de estimar quanto tempo ficou.
O segundo traço é o erro de escala, e ele é sempre para menos. Urashima contou três anos, e três anos é exatamente o tipo de número que alguém dá quando não tem calendário: curto o bastante para parecer administrável, longo o bastante para justificar a saudade.
O terceiro traço é a assimetria da contagem. O tempo do pescador foi contado em experiência vivida; o tempo da aldeia foi contado em gerações substituídas. As duas medidas usam a mesma palavra, ano, e não medem a mesma coisa.
O quarto traço é o que a volta encontra primeiro. A geografia continua reconhecível, porque montanha e baía mudam devagar, e são justamente as coisas reconhecíveis que produzem a ilusão de que o resto também está lá. O relevo mente sobre o estado das relações.
O quinto traço é a natureza do lacre. A proibição de Otohime não protege o pescador do conteúdo da caixa, protege ele de um gesto: o gesto de procurar no passado uma confirmação de identidade. O tamatebako só é perigoso na mão de quem já voltou e não foi reconhecido.
O sexto traço é o preço da hospedagem generosa. Ninguém prendeu Urashima no fundo do mar. Ele foi tratado bem, comeu bem, foi liberado assim que pediu, e mesmo assim saiu de lá devendo trezentos anos. Ambiente confortável não cobra na entrada, cobra na volta.
A tradução moderna dispensa palácio submarino. É quem passa quatro anos dentro de uma empresa grande e confortável, sem sentir o mercado, e descobre na demissão que a função que exercia deixou de ser contratada por qualquer outra companhia.
O desenho é sempre o mesmo. O tempo de dentro passa em experiência, o tempo de fora passa em substituição, e o único momento em que a diferença entre os dois vira número é o momento da volta.
|