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O relato de Zanahary e da bananeira chegou à Europa pelos missionários e viajantes que percorreram Madagascar no século XIX. O antropólogo escocês James George Frazer reuniu as versões em 1913, no primeiro volume de The Belief in Immortality and the Worship of the Dead (A crença na imortalidade e o culto dos mortos).
Frazer classificou a história entre os mitos sobre a origem do fim humano, comuns em várias partes da África e da Oceania. Neles o criador oferece duas saídas, e os humanos, por engano ou por desejo, ficam com a que leva ao túmulo. A versão malgaxe tem um traço raro: o casal não se engana. Escolhe de olhos abertos.
Zanahary é o nome do criador em boa parte da ilha. O povo merina, do planalto central, também o chama de Andriamanitra (o senhor perfumado), título de respeito reservado ao céu.
O relato não explica por que o criador decidiu que os humanos teriam um fim; as versões já partem de um mundo onde eles precisam acabar de algum jeito. O motivo da chamada, porém, o mito diz com todas as letras: Zanahary quis deixar a forma do fim nas mãos de quem ia vivê-lo.
O casal escolheu a bananeira porque queria descendência. A lua volta, mas volta sozinha: não tem filhos, não deixa ninguém. A bananeira some, mas o lugar dela nunca fica vazio. Nas versões reunidas por Frazer, os dois dizem preferir os filhos, mesmo pagando com o próprio fim.
Algumas variantes acrescentam um motivo prático. Sem filhos, ninguém cuidaria do arroz nem buscaria água quando os dois envelhecessem, e ninguém guardaria a memória deles. O casal pesou o trabalho da roça junto com o afeto, e os dois pesos apontaram para o mesmo lado.
As fontes divergem sobre a reação de Zanahary. Em umas, ele aceita em silêncio; em outras, avisa que a escolha valerá para todos os que vierem depois. Esta edição segue a segunda versão, porque é ela que explica por que o pacto pesa sobre cada geração.
Castigo, aqui, não existe. Não há deus traído nem trapaça punida. Há um preço combinado: o fim de uma geração paga o começo do próximo.
A escolha ajuda a entender o lugar dos razana (os ancestrais) na vida malgaxe. O morto não volta como a lua, mas segue presente pelos filhos e netos que plantou, e a família lhe deve respeito e cuidado.
No planalto, os merina mantêm a famadihana (o retorno dos ossos): de tempos em tempos, a família abre o túmulo, enrola os restos dos ancestrais em mortalhas novas de seda e dança com eles ao som de música. A festa reúne justamente os brotos da bananeira, a parentela inteira nascida daquele tronco.
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